Edição 353 | 06 Dezembro 2010

Evolução e transumanismo: o advento de um novo ser humano?

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Por Márcia Junges

O conceito de antropocentrismo ruiu com as constatações da Teoria da Evolução, e o transumanismo se vale da técnica para melhorar a vida dos seres humanos, aponta o filósofo Ricardo Bins di Napoli. Filósofos, juristas e cientistas devem debater o tema em conjunto

“O transumanismo é um pensamento com princípios éticos no sentido de tomar a dianteira e orientar as mudanças do homem futuro. Ele se baseia na ideia que temos que usar a ciência e a técnica de forma racional para melhorar a vida no planeta, minimizando o sofrimento”. A explicação é do filósofo Ricardo Bins di Napoli na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Em sua opinião, “entre a fé cega na tecnociência e a sua demonização há um caminho de responsabilidade que deve buscar o controle e regulamentação do seu uso das novas tecnologias. Para isso, precisa-se que filósofos, juristas e cientistas trabalhem juntos, sem, contudo, dissociar-se da sociedade”. Outra ideia que traz ao debate é de que o transumanismo também tem uma “posição democrática”, e ao invés de proibir ou banir a inovação tecnológica, é melhor que ela seja regulada e discutida paulatinamente. E completa: “a sobrevivência da espécie implica, ao mesmo tempo, perceber-se que o homem perdeu a sua centralidade na natureza. Ele também é fruto da evolução”.
Ricardo Bins di Napoli é professor na Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. Possui doutorado em Filosofia, iniciado na Ludwig-Maximilliams Universität, de Munique (Alemanha), e concluído na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. É mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Atua na área de Filosofia Moral e Política. Publicou Ética e compreensão do outro: a ética de Wilhelm Dilthey sob a perspectiva do encontro interétnico (Porto Alegre: Edipucrs, 2000) e juntamente a outros autores organizou Ética e Justiça (Santa Maria: Palotti, 2003), com textos sobre J. Rawls e outros filósofos, abordando a justiça, e Norberto Bobbio: Direito, Ética e Política (Ijuí: Editora Unijuí, 2005).

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Quais são os principais dilemas morais do desenvolvimento técnico-científico?

Ricardo Bins di Napoli -
Há muitos dilemas envolvendo o desenvolvimento técnico-científico. Todo o dilema moral genuíno envolve no mínimo duas alternativas de ação que têm o mesmo valor moral. É um dilema porque temos que realizá-las, mas não podemos fazê-las ao mesmo tempo. Por causa disto, ao se optar por uma das alternativas, não se pode realizar a outra que também deveria moralmente ser realizada. Embora faça uma das coisas, se sente arrependimento por não ter sido possível realizar a outra. Alguns falam em sentimento de remorso ou culpa. De certo modo, então, quando não se consegue combinar coisas igualmente importantes a serem feitas do ponto de vista moral ao mesmo tempo, fica-se em uma situação dilemática. O dilema é uma situação em que o agente tem consciência da obrigação moral de realizar as duas ações.
Nem toda decisão difícil implica um dilema. Por exemplo, quando se pensava que o desenvolvimento econômico era incompatível com a preservação ambiental, a modernização industrial parecia um dilema, porque ou se agia defendendo-a ou se preservaria o meio ambiente. Hoje se sabe que era um falso dilema, pois há muitas formas de desenvolvimento econômico que pode ser compatível com a preservação ambiental do planeta. Muitos dos genuínos dilemas morais hoje envolvem o início e o fim da vida humana. O desenvolvimento da genética está cada vez mais colocando a disposição do homem comum novas possibilidades de escolha. Por exemplo, para os pais que têm na família doenças hereditariamente transmissíveis, pode-se evitar transmitir a doença para seus filhos. Mas a terapia genética poderia ser usada também para se criar pessoas com mais força física. As novas capacidades, que superam as do que um ser humano normal, podem ser aproveitadas, por exemplo, nas competições esportivas no futuro. Mas esse tipo de melhoramento poderia também ser usado a fim de se criar indivíduos para combate militar em conflitos armados. Então, desenvolver tais tecnologias parece ser eticamente condenável nesse caso, pois criaria seres soldados geneticamente modificados. Seria isso moralmente aceitável? Esse aspecto dual de um melhoramento científico traz o dilema moral que envolve a decisão se se deve ou não levá-lo adiante. Deve-se ver que ou realizamos o melhoramento humano, ou deixamos que os geneticamente doentes morram.


IHU On-Line - Qual é o nexo que une evolução e transumanismo?

Ricardo Bins di Napoli -
A evolução permitiu que o homem como espécie chegasse a ser o que é, sendo capaz tanto de cooperar com outros homens, como de destruir o seu semelhante. Se o homem chegou onde está por meio da seleção é porque geneticamente ele sobreviveu como espécie. Muitas vezes se esquece isso. Contudo, a sobrevivência da espécie implica, ao mesmo tempo, perceber-se que o homem perdeu a sua centralidade na natureza. Ele também é fruto da evolução. Essa ideia parece que não é ainda muito bem compreendida pelas pessoas e não está de todo assimilada no nosso cotidiano.
O desenvolvimento tecnológico surgiu quando o homo sapiens já existia e de certo modo foi um processo fascinante. Creio, por outro lado, que não podemos ser ingênuos ao ponto de não perceber os problemas sociais que estão envolvidos no desenvolvimento tecnológico. Não quero, entretanto, demonizar a técnica como fizeram Rousseau e a Teoria Crítica da Sociedade e mesmo, em parte, Heidegger . Temos que aprender a lidar com ela e com os poderes que ela disponibiliza ao homem que a controla. Mesmo com a bioética se corre o risco de dar uma aparência de discurso moral às nossas deliberações, que podem simplesmente, dependendo como se proceder, dar uma ilusão de que se está fazendo escolhas éticas nos procedimentos da biomedicina. A medicina aliada ao poder passa ser mais do que uma prática preventiva, curativa e reabilitadora. Ela também passou a ser planificadora, pois permite, por exemplo, controlar as populações de muitos modos. Se uma epidemia letal, por exemplo, não é controlada por decisão política em uma região da Terra, então a decisão é por extermínio daquela população. Veja-se o caso das doenças que se disseminam em países com precárias condições sanitárias e médicas.


Melhoramento da espécie

Entretanto, se pode não só aplicar técnicas presentes na evolução para melhorar animais e humanos através de seleção. Mas com o desenvolvimento científico da engenharia genética, pode-se talvez melhorar rapidamente a espécie. Há, porém, riscos nesse processo, que não podemos negar. A sociedade, por isso, precisa ser convidada a regular esse processo jurídica, política e moralmente.
O transumanismo é um pensamento com princípios éticos no sentido de tomar a dianteira e orientar as mudanças do homem futuro. Ele se baseia na ideia que temos que usar a ciência e a técnica de forma racional para melhorar a vida no planeta, minimizando o sofrimento. Dois filósofos, Nick Bostrom  e David Pearce  (que esteve recentemente em Santa Maria), fundaram a Associação Mundial Transumanista em 1998. O pensamento transumanista não se limita à transformação genética do homem, mas incorpora a criação de máquinas e partes artificiais (eletrônicas e mecânicas) que possam resolver problemas e melhorar capacidades humanas. O desenvolvimento de robôs e de inteligência artificial faz parte disso. Máquinas ultrainteligentes precisarão de códigos morais de conduta. Se em trinta anos pudermos criar essas máquinas teremos passado para uma era pós-humana. Teremos realizado previsões de romances e filmes de ficção científica como Blade Runner , Inteligência Artificial e Eu, robô. A nanotecnologia  também abriu um novo campo de investigações e já há juristas estudando a regulamentação dos usos dessas tecnologias como é o caso do professor Dr. Wilson Engelmann  da Unisinos.


IHU On-Line - Quais são os limites e possibilidades que se descortinam a partir do poder criador conferido ao homem pelas tecnologias por ele inventadas?

Ricardo Bins di Napoli -
É responsabilidade da sociedade contribuir para a regulação dessas inovações. Entre a fé cega na tecnociência e a sua demonização há um caminho de responsabilidade que deve buscar o controle e regulamentação do seu uso das novas tecnologias. Para isso, precisa-se que filósofos, juristas e cientistas trabalhem juntos, sem, contudo, dissociar-se da sociedade. Esse trabalho dependerá de muitos. Para se garantir à ciência um máximo de liberdade, devem-se buscar os valores que estão sendo colocados em jogo a cada dia e buscar-se discutir a justificação para adotá-los, ou não.


IHU On-Line - Em que medida esse poder de criação sedimenta o relativismo de valores e, inclusive, a fragmentação do divino e do próprio sujeito?

Ricardo Bins di Napoli -
O relativismo absoluto é uma falácia, pois se tudo é relativo, até mesmo o que seu defensor falante diz ser relativo é relativo. Logo, a própria afirmação do relativismo estaria destruída. Há muitos valores universais que são muitas vezes obscurecidos diante do argumento relativista: os direitos da pessoa (ela poderia incluir alguns animais) e a paz, por exemplo.


IHU On-Line - Se o ser humano é seu próprio experimento, qual seria o espaço de Deus na atualidade?

Ricardo Bins di Napoli
- A questão é relevante para muitas pessoas. Coloca o problema da razão e sua relação com a fé. A fé, no cristianismo, tem um fundamento dogmático na crença em um ser absoluto, criador de todo o universo. A razão científica não pode ser dogmática e deve aceitar o princípio da falseabilidade. Além disso, faz parte das sociedades democráticas ocidentais a aceitação da independência dos domínios da fé em relação aos da política e da ciência. Não vejo uma razão, portanto, para que (uma vez que as liberdades sejam garantidas, os direitos e os deveres dos cidadãos estejam definidos) não se possa deixar um espaço de deliberação individual, permitindo a cada pessoa ou grupo religioso lidar adequadamente com suas preferências religiosas em um Estado laico. Evidentemente surgirão conflitos, mas eles deverão ser resolvidos caso a caso. É importante salientar que muitos valores morais como a compaixão e o amor têm origem e apoio na religião cristã, por exemplo.


IHU On-Line - Como ficam as questões da alteridade e da representação democrática ao supormos que o pós-humano é autopoiético?

Ricardo Bins di Napoli -
Deve-se imaginar que o transumanismo também tenha uma posição democrática. E em um governo democrático se pode imaginar maior possibilidade de o Estado tenha um papel de regulação das novas tecnologias para a segurança de todos e que a garantia que os benefícios sejam extendidos progressivamente a todos os cidadãos de um Estado ou Comunidade de Estados, e não só a uma minoria mais rica.


IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Ricardo Bins di Napoli -
É bom reforçar a ideia de que não é desejável se omitir deste debate. Pior ainda seria tomar decisões sem informação. É importante conhecer-se o trabalho da evolução para saber por que chegamos a ser o que somos. Por isso, é importante conhecer a psicologia humana, o cérebro, a cognição e a fisiologia humana, entre outras coisas. Evidentemente, nem todas as pessoas têm sido defensores do transumanismo. Creio que podemos ter vários argumentos contrários e Fukuyama  definiou o transumanismo como “a ideia mais perigosa hoje”. Outros colocam o problema em termos de “crime contra a humanidade”.
Entretanto, alguns transumanistas e mesmo os chamados bioconservadores são contra a eugenia inspirada em motivos racistas ou em Estados autoritários ou totalitários. Os problemas morais implicados são, de fato, muitos. Deve-se pensar nas alterações dos nossos valores que essa tecnologia poderia produzir. Não tenho uma posição bem definida a respeito, mas estou inclinado a pensar que é melhor irmos regulando e discutindo a inovação tecnológica do que banirmos ou proibi-la totalmente. É melhor planejar o futuro e orientar esse processo. Não temos certeza de muitas coisas ainda hoje. Mesmo a prometida revolução genética com o mapeamento do genoma humano não produziu os efeitos anunciados na época.

 

Leia mais...

>> Ricardo Bins di Napoli
já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira.

* “A serenidade é a outra face da política”. Publicada na IHU On-Line número 335, de 28-06-2010

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