Edição 351 | 22 Novembro 2010

Novos desafios para economia brasileira

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Patrícia Fachin

O atual modelo de desenvolvimento propiciou ao Brasil o resgate de uma parte da dívida que o velho modelo de desenvolvimento não resolveu, constata o economista Mariano Laplane

Financiamento e gasto público continuam sendo os principais obstáculos para a retomada do desenvolvimento brasileiro, assinala o economista argentino, radicado no Brasil há 30 anos. Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, ele menciona que o país se defronta novamente com oportunidades já conhecidas na história brasileira e para continuar crescendo deve combinar exportação de commodities e industrialização de forma adequada. “A partir de 2004, a demanda mundial por matérias-primas exportadas pelo Brasil cresceu tanto que foi possível ao Banco Central acumular praticamente, em cinco anos, 200 bilhões de dólares em reservas. Atualmente, o país tem 270 bilhões de dólares”. Apesar da acumulação de reservas, esse modelo de desenvolvimento gera desafios a respeito da questão ambiental. “Faz uma enorme diferença, do ponto de vista ambiental, a maneira como os recursos naturais são explorados, ou seja, qual é o custo climático, energético desse processo”, menciona o economista.
Laplane enfatiza que o investimento em industrialização é essencial para que o crescimento se perpetue. “Agora que o país tem oferta de demanda – o que faltou nas duas décadas perdidas -, precisa aproveitar isso para retomar o caminho da industrialização”.

Segundo o economista, o mundo passa por uma profunda transformação porque o “planeta não comportará o estilo de vida atual e a economia em colapso não oferece sustentação a esse estilo de vida”. Nessa perspectiva, aponta, o Brasil pode desempenhar um papel pioneiro e dar um salto tecnológico. “Neste momento, é preciso que o Brasil dê um salto porque o mundo não ficará paralisado e já está se movendo em direção a uma nova fronteira tecnológica, que tem a ver com a questão do baixo carbono associado à questão das mudanças climáticas”.
Mariano Laplane possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Hebraica de Jerusalém e doutorado em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, onde leciona. Confira a entrevista.

 
IHU On-Line – Quais são os desafios para o Brasil continuar retomando o crescimento com desenvolvimento social?

Mariano Laplane –
Diria que, primeiramente, temos de entender em que estágio o Brasil se encontra hoje, quais os obstáculos que nos impedem de aprofundar o nosso desenvolvimento e quais as alternativas que temos para dar continuidade a esse projeto.


Estágio de desenvolvimento
O Brasil é um país que teve, na segunda metade do século XX, um avanço notável no desenvolvimento: se transformou em um país urbano, industrializado, constituiu o mercado interno e uma base produtiva bastante diversificada, com relativo sucesso em contornar problemas que alguns países encontraram, principalmente, no que se refere à energia. A industrialização só pode ir adiante com uma capacidade de geração e distribuição de energia. Os investimentos feitos no aproveitamento de energia hidrelétrica e, mais à frente, quando estourou a crise do petróleo e foi feito um esforço para desenvolver tecnologias de bicombustíveis que ajudaram a contornar esse problema, foram positivos. Entretanto, esse processo bem sucedido esbarrou na crise da dívida porque esse modelo de desenvolvimento tinha deficiências como a excessiva dependência no financiamento externo. Então, a crise da dívida, que atingiu o país nos anos 1980, provocou o colapso do processo de desenvolvimento. Nas últimas décadas do século XX, o país teve baixíssimo crescimento apesar da abertura da economia e das expectativas depositadas nos anos 1990.

Além da dependência externa, o projeto de desenvolvimento tinha outra fragilidade: ele foi feito de uma maneira que não conseguia diminuir a desigualdade e reduzir a pobreza. Não foi feito um processo de urbanização planejado e as pessoas foram encontrando maneiras precárias de sobreviver nas periferias das cidades.
Hoje, estamos em um estágio de desenvolvimento que se estancou há 30 anos e que deixou uma série de heranças e fragilidades que tentamos superar.
Obstáculos ao desenvolvimento

Por que demoramos mais de duas décadas para retomar o desenvolvimento? Porque nenhuma das reformas feitas nesse período (abertura da economia, privatizações, etc.) atingiu o coração do problema que nos impedia retomar o desenvolvimento: o financiamento e o gasto do setor público. O custo da crise da dívida foi a transferência do setor público para o setor privado de uma enorme massa de recursos. O setor privado tornou-se cada vez mais rico e o setor público, mais frágil do ponto de vista financeiro e da capacidade de gastar de modo a ajudar o desenvolvimento. Assim, o setor público não conseguiu mais desempenhar o papel de articulador do desenvolvimento. O Estado se perdeu e a melhor forma de investimento passou a ser o financiamento do gasto público na forma de títulos da dívida de curto prazo, altíssima remuneração e quase infinita liquidez. De modo que, pouco a pouco, os recursos disponíveis para o desenvolvimento produtivo, de tecnologia, infraestrutura, educação foram minguando, enquanto os recursos utilizados no circuito financeiro foram aumentando. O grande combustível do investimento produtivo foi se tornando escasso. Enquanto isso, o circuito de multiplicação dos recursos financeiros se tornou autônomo. Esse é o miolo da questão dos obstáculos do desenvolvimento.

A partir de 2004, a demanda mundial por matérias-primas exportadas pelo Brasil cresceu tanto que foi possível ao Banco Central acumular praticamente, em cinco anos, 200 bilhões de dólares em reservas. Atualmente, o país tem 270 bilhões de dólares.

O grande obstáculo que permanece hoje para a retomada do desenvolvimento é a questão do financiamento e do gasto público. Não é possível que a Selic tenha o valor que tem hoje: 10,75 nominal. Para uma inflação estimada em 4,5, 5%, temos uma taxa real de 6%, enquanto no resto do mundo esta taxa está próxima de zero. Como é possível canalizar recursos para o investimento se o curso para o financiamento tem esse valor? Esse é o principal obstáculo para o desenvolvimento hoje.


Oportunidades

O Brasil se defronta com oportunidades conhecidas como a de promover o crescimento da economia a partir da demanda mundial por commodities. A economia dos países desenvolvidos como EUA, Europa e Japão é um desastre e permanecerá estagnada pelos próximos cinco anos, ou seja, a recuperação deles será vagarosa. Em compensação, o processo de urbanização, feito no Brasil há anos, ocorre hoje em uma escala maior nos países asiáticos como Índia e China. Para eles há uma enorme demanda de commodities alimentares, minerais, insumos industriais, siderúrgicos.


IHU On-Line – Então a exportação de commodities é uma oportunidade para o Brasil? Quais os desafios nesse sentido?

Mariano Laplane –
É claro, mas como toda oportunidade, há aspectos positivos e negativos. O aspecto positivo é que a exportação de commodities irá promover um desenvolvimento ainda maior do agronegócio, da mineração, dos serviços de apoio dessas atividades. O Brasil já está constituindo – graças a essa demanda mundial – empresas brasileiras de porte global, diferente do período em que o desenvolvimento era a basicamente voltado para o mercado interno.

As oportunidades têm custos e nesse caso é preciso avaliar a relação custo/benefício. Os desafios que esse modelo de desenvolvimento coloca dizem respeito à questão ambiental, porque faz uma enorme diferença, do ponto de vista ambiental, a maneira como os recursos naturais são explorados, ou seja, qual é o custo climático, energético desse processo. Aproveitar a oportunidade que a demanda mundial oferece para o país sem permitir que isso gere problemas ambientais é o grande desafio para o Brasil.
Outro problema é que esses setores geram relativamente pouco emprego; embora sejam intensivos em capital, tecnologia, equipamentos. Para um país que atingiu o grau de urbanização que o Brasil tem hoje, é preciso desenvolver setores que gerem demanda por emprego qualificado para a população urbana. Isso significa que não podemos depender apenas da alternativa da exportação de commodities. Essa é uma excelente alternativa, mas não é suficiente.


IHU On-Line – Quais são as outras oportunidades que o senhor havia mencionado? A industrialização é uma delas?

Mariano Laplane –
Sim. Há uma segunda alternativa que é retomar o desenvolvimento do mercado interno. Esse processo tem sido retomado nos últimos seis anos a partir da capacidade de consumo das famílias, particularmente daquelas com renda mais baixa. O Brasil tem hoje 25 milhões de consumidores a mais do que tinha 10 anos atrás. Esse tem sido um fator importante para a dinamização do mercado interno.
Industrialização

Assim como a oportunidade das exportações tem prós e contras, esse modelo de crescimento, puxado pelo mercado interno, também apresenta problemas. De qualquer modo, com o modelo de desenvolvimento atual, o Brasil conseguiu resgatar uma parte da dívida que o velho modelo de desenvolvimento não resolveu. Claro que não basta que milhões de famílias consumam produtos. Porém, na medida em que demandas básicas forem atendidas, as pessoas demandarão outros serviços como segurança, saúde, melhores escolas, bens e serviços culturais. Isso é bom; é importante reduzir a desigualdade e os déficits de qualidade de vida. Explorar essa oportunidade fará do Brasil um país mais igualitário, desenvolvido. É uma magnífica oportunidade.

Se não houver uma capacidade doméstica de produzir bens e serviços para atender às novas demandas, teremos um problema, porque as necessidades de uma enorme massa de consumidores serão atendidas pelas importações dos produtos chineses, norte-americanos. Isso não é bom porque não é sustentável. Não podemos desenvolver apenas o consumo, mas também a capacidade de produzir bens e serviços e retomar o processo de industrialização. Agora que o país tem oferta de demanda – o que faltou nas duas décadas perdidas -, precisa aproveitar isso para retomar o caminho da industrialização. Do lado da questão ambiental, esse é outro desafio para o Brasil.

O aumento do consumo só será sustentável se houver geração de emprego. Por isso, o investimento em industrialização e em infraestrutura é essencial para que o crescimento se perpetue.
Não vejo nenhuma razão que nos obrigue a escolher um ou outro modelo. Podemos explorar tanto o mercado interno quanto o externo. O esforço brasileiro deve estar concentrado em combinar as duas oportunidades e explorá-las de forma adequada.


IHU On-Line - De que maneira o Brasil deve utilizar os recursos do pré-sal?

Mariano Laplane –
O pré-sal representa uma oportunidade que, até certo ponto, coincide com as oportunidades do setor exportador porque se trata da exploração de recursos naturais. Isso exigirá um enorme investimento de capital e tem efeitos de encadeamento porque gera demanda em outros setores. A exploração também demandará tecnologia e coloca desafios tecnológicos para os quais não existe, no mundo, tecnologia disponível. O Brasil, que já foi pioneiro na exploração do petróleo em águas profundas e desenvolveu tecnologia pioneira, terá de liderar esse processo.
O poder indutor de demanda por equipamentos é fantástico, basta ver o impacto que a produção de petróleo já está tendo sobre a indústria de construção naval brasileira, que já estava sucateada.
Temos de pensar como os recursos fiscais do pré-sal serão aplicados. Eles têm de resolver o principal obstáculo para a retomada do desenvolvimento, que é esse esforço de criar mecanismos do gasto público que não estimulem o rentismo financeiro. Esses são recursos genuínos que não serão eternos. Então, como usar esses recursos é uma questão crítica.

Uma das oportunidades para retomar o desenvolvimento do país é investir os recursos do pré-sal na economia do baixo carbono. Uma boa parte dos recursos do pré-sal deve ser destinada a explorar e desenvolver a capacidade de o Brasil dar um salto tecnológico, de gerar e difundir conhecimento. Temos um déficit grande na educação, na capacidade que o setor industrial tem de gerar novos produtos. Neste momento, é preciso que o Brasil dê um salto porque o mundo não ficará paralisado e já está se movendo em direção a uma nova fronteira tecnológica, que tem a ver com a questão do baixo carbono associado à questão das mudanças climáticas, mas não se trata apenas disso.

Com a crise internacional, os países desenvolvidos estão destinando recursos para desenvolver novos mercados e oportunidades para suas empresas e setores produtivos. Haverá, na saída desta crise, uma renovação tecnológica muito grande, como ocorreu nos anos 1970 com o boom das telecomunicações e da informática. Temos de incluir aí a preocupação dos países desenvolvidos com a produção de produtos orgânicos, ao desenvolvimento de novos materiais por meio da nanotecnologia. Tudo isso produzirá, nos próximos dez anos, uma grande transformação tecnológica no mundo. O Brasil precisa estar pronto para acompanhar isso porque, com a estagnação das economias desenvolvidas, o país passa a ter um protagonismo na economia mundial que não tinha antes. Então, o Brasil pode e deve ser concorrente em setores de bens manufaturados.

Além disso, o país tem um desafio de melhorar a qualidade de vida dos brasileiros. Aqui existe uma enorme fronteira em descobrir maneiras de levar serviços à população. Então, os recursos do pré-sal devem ser destinados a investimentos que gerem soluções, inovações, desenvolvimento tecnológico, melhore a educação de modo que a população possa se beneficiar.
IHU On-Line - A partir da crise do modelo de desenvolvimento baseado na indústria do carbono e de todos esses desafios postos, o mundo precisa de uma nova visão econômica?
Mariano Laplane – Isso sem dúvida já está acontecendo. Temos de nos colocar no lugar de famílias que construíram um estilo de vida baseado no consumo e na expectativa de que isso era permanente. Imagina as implicações que têm acontecido na economia dos países desenvolvidos que pareciam ser sólidas e permanentes. Isso veio por água abaixo porque nos últimos anos as preocupações com as mudanças climáticas estão presentes no debate público. A percepção de que esse estilo de vida não era sustentável do ponto de vista climático foi colocada antes da crise. Hoje, com a crise, as famílias de classe média da Inglaterra, EUA, Europa, se afundam em dívidas. Essas famílias percebem uma insegurança enquanto ao futuro e cobram do Estado soluções. O sonho do consumo e o estilo de vida que parecia permanente, não são mais. Portanto, será preciso pensar em alternativas: repensar a relação entre economia, Estado e sociedade; a relação entre economia e política; a relação entre países;  entre gerações presentes e futuras. Essa é a grande questão  que os países desenvolvidos enfrentam.

Não se trata de uma crise passageira. É uma profunda transformação porque talvez o planeta não comportará o estilo de vida atual e a economia em colapso não oferece sustentação a esse estilo de vida. Isso demonstra que estamos a caminho de uma grande transformação. Essa crise não é como a dos anos 1970: não se trata de uma crise de energia, uma crise inflacionária; é algo mais profundo. Felizmente, não é uma crise que nos coloca diante de uma situação em que não há alternativas. Pelo contrário, elas existem. Basta uma coordenação coletiva.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição