Edição 349 | 01 Novembro 2010

Dicionários de Montoya: registros singulares

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Moisés Sbardelotto e Patricia Fachin

Para a historiadora Graciela Chamorro, a língua guarani é um fenômeno histórico-cultural que se desenvolve com novidades e permanências de cada geração

Ao analisar os dicionários do jesuíta Antonio Ruiz de Montoya, a historiadora Graciela Chamorro diz que o autor “tinha em vista mostrar que a língua guarani era uma língua tão boa como o latim e o grego, capaz de expressar com propriedade o que os missionários precisavam ensinar em sua missão”. Segundo ela, Montoya também tinha um fim prático: “produzir um material (didático) para seus colegas de missão aprenderem a língua da terra, para se comunicarem com os povos da terra”.

Para a pesquisadora, a qualidade dos registros de Montoya “é singular, pois ele parece ter-se interessado mais do que um missionário comum se interessa pela cultura dos povos que quer converter, transformar”.
Graciela Chamorro participou do XII Simpósio Internacional IHU – A experiência missioneira: território, cultura e identidade, com o minicurso O feminino e o corpo nos léxicos de Montoya.

Ela cursou mestrado em História pela Unisinos. É doutora em Antropologia, pela Philipps-Universität, na Alemanha, com a tese Aporte Linguístico para uma história e etnografia do corpo nos povos guarani; em Teologia, doutorou-se pela Escola Superior de Teologia – EST, em São Leopoldo, com a tese intitulada Papa tapia rete marangatu (que os nossos corpos tenham sempre algo bom para contar): a experiência religiosa guarani como ato de dizer-se. Fez pós-doutorado em Romanística, na Universidade de Münster, Alemanha. Atualmente é professora de História Indígena na Universidade Federal da Grande Dourados, Mato Grosso do Sul.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Em sua opinião, qual o significado e a riqueza dos dicionários do jesuíta Antonio Ruiz de Montoya  para a compreensão da cultura e da civilização guarani?

Graciela Chamorro -
Sobretudo por serem documentos da língua indígena que, no vocabulário, é língua de destino e, no Tesoro da língua guarani (thesaurus) , língua de entrada. O autor tinha em vista mostrar que a língua guarani era uma língua tão boa como o latim e o grego, capaz de expressar com propriedade o que os missionários precisavam ensinar em sua missão. Montoya também tinha um fim prático: produzir um material (didático) para seus colegas de missão aprenderem a língua da terra, para se comunicarem com os povos da terra. Se entendemos que a língua é um dos principais registros do pensamento e do modo de vida dos povos, dicionários, especialmente Tesoros, não são só uma lista de palavras e frases. Eles são registros da vida dos grupos que falam ou falaram a língua registrada. No caso dos léxicos de Montoya, a qualidade desse registro é singular, pois ele parece ter-se interessado mais do que um missionário comum se interessa pela cultura dos povos que quer converter, transformar. Os dados contidos na sua obra cobrem, com exceção da religião indígena, praticamente o inventário que um etnógrafo ou etnógrafa busca coletar em campo.


IHU On-Line - Que aspectos centrais sobre os costumes e o pensamento dos guarani acerca do corpo transparecem do vocabulário de Montoya? Como esses aspectos se confrontam com a visão europeia sobre o corpo?

Graciela Chamorro -
Transparecem especialmente os aspectos da cultura e ideologia corporal relativos aos fenômenos biológicos, como nascer, crescer, reproduzir-se, adoecer, ser curado e morrer; além das partes do corpo, da percepção de seu funcionamento e sua associação com sentimentos e estados anímicos. Transparece também o corpo em sua capacidade expressiva: formas de andar, habilidades e dificuldades corporais, disposições físicas, etc. No âmbito da subsistência e das relações sociais, sobre o corpo também convergem uma série de informações.
A respeito do confronto com a visão europeia sobre o corpo, o jesuíta projeta, no que concerne – por exemplo - à sexualidade os valores vigentes então na Europa católica, julgando os costumes indígenas por esses valores. No caso das práticas terápicas das doenças, a ideologia e o tratamento não diferiam muito dos da Europa.


IHU On-Line - Como se dá a relação entre feminino e corpo na língua guarani a partir da leitura de Montoya? Como os grupos guarani compreendem o erótico e o sexual?

Graciela Chamorro -
Montoya foi um homem de seu tempo. Sendo assim, em trinta e dois dos mais de sessenta exemplos relativos à mulher, ela é reduzida à esfera sexual e, nos exemplos onde ela é associada ao âmbito produtivo sua condição, é a de uma subalterna. Em outros exemplos, do termo mulher é derivada a expressão que traduz “pecado carnal” para a língua indígena. Já para o termo homem em guarani, é usado para traduzir “ressurreição” e algumas “virtudes”, entre elas a de valentia.
Como os povos guarani entendiam o erótico e o sexual podemos inferir a partir dos muitos juízos negativos feitos sobre seus costumes pelos jesuítas. Para estes, a conversão dos homens indígenas equivalia muitas vezes à sua monogamização. Aparentemente, as práticas mal vistas pelos missionários eram hábitos já comuns para a população indígena. A enorme quantidade de expressões em guarani relativas às práticas erótico-sexuais - que vão desde as que indicam o carinho entre duas pessoas envolvendo os cinco sentidos ao homossexualismo praticado por homens e mulheres, da gravidez ao parto e ao aborto – são testemunhas da existência dessas práticas nas populações indígenas.
 

IHU On-Line - Em termos antropológicos e teológicos, como a língua guarani moldou e molda a cultura do povo guarani e vice-versa?

Graciela Chamorro -
A partir da etnografia contemporânea, podemos dizer que um dado válido para todos os povos indígenas guarani falantes é a centralidade da sua reflexão sobre o conceito-existência “palavra”, que é “voz”, “alma” e “dizer humanos”, mas também a metáfora para Deus e seus dizeres. Dessa palavra brota a antropo-cosmo-teologia guarani. Os seres humanos e os outros seres (que no princípio eram também humanos) são seres de palavra. Eles têm alma. Eles são dotados de um impulso divino inicial para se desenvolverem e plenificarem, de acordo com aquilo que eles estão destinados a ser. O discurso indígena e a tradição oral que estão na base desta compreensão estão gravadas e são atualizadas por cada nova geração obviamente na língua de cada grupo guarani falante. Esta língua por sua vez é em si mesma um fenômeno histórico-cultural que se desenvolve com as novidades e as permanências de cada geração.

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