Edição 348 | 25 Outubro 2010

Silvia Hoppe Prieto

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Graziela Wolfart

Uma pessoa simples, de bom humor e brincalhona, mas também “mandona”, muito decidida, franca e sincera. Ela briga por aquilo que acredita e que acha certo, mas sabe respeitar a decisão dos outros. Esta é a professora Silvia Hoppe Prieto, coordenadora da procuradoria da Unisinos. Na entrevista que segue, ela divide com a IHU On-Line os aspectos mais marcantes de sua trajetória pessoal e profissional. Saiba mais sobre essa filósofa, docente, administradora e mãe, que se afirma apegada aos princípios. “Sou rígida em relação aos meus valores. Não abro mão deles. Ninguém me compra”, define-se. Confira.

Origens e infância – Nasci em Santa Cruz do Sul. Meu pai, junto com meus irmãos e avós, tinha uma empresa grande que fabricava bolas de futebol, de vôlei, além de cadeiras e móveis. Minha mãe era doméstica. Somos entre quatro filhos. Tenho dois irmãos rapazes e uma irmã mais velha, que é religiosa da Congregação das Irmãs de Maria de Schoenstatt. Nosso sistema era o típico das famílias do interior, com uma cultura de descendência alemã. Tínhamos muita austeridade na vida, nos gastos, muita economia. Nós morávamos em uma casa muito velha, com pouco espaço, e depois nos mudamos para uma casa maior, nova, construída para a família. Eu e minha irmã tínhamos um quarto para nós, enquanto que os meninos tinham outro para eles. Isso foi uma maravilha. São coisas que me marcaram.

Paixão pela Filosofia e formação – Comecei meus estudos num colégio de freiras, a Escola Sagrado Coração de Jesus, das Irmãs Franciscanas. Estudei lá até o terceiro ano do magistério. Quando comecei o magistério, tive uma disciplina de Filosofia e descobri que era isso o que eu queria para minha vida: fazer faculdade de Filosofia e lecionar. Mas meu pai achou que Filosofia era coisa para homem e que os filósofos eram ateus e ainda por cima comunistas. Isso era bem antes da ditadura militar. Eu insisti muito e descobri que aqui em São Leopoldo tinha  uma faculdade de padres, que tinha curso de Filosofia. Falei com meu pai que em uma faculdade de padres dificilmente eu ficaria comunista e ateia. Meu pai veio até aqui conferir e conversamos com o diretor da faculdade na época, que era o padre João Oscar Nedel, primeiro reitor da Unisinos, e que depois foi meu professor. Meu pai ficou contente e me deu a permissão para fazer o curso. Passei no vestibular e vim morar aqui em São Leopoldo. Primeiro num pensionato de estudantes e, depois, eu e uma prima minha alugamos um quarto na casa de uma senhora.

Formatura - Nunca vou esquecer do dia da minha formatura. Na época, a solenidade era única, para toda a faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Então, eram vários formandos, de vários cursos, em uma cerimônia imensa, com quase 150 alunos. Era tudo na antiga sede da Unisinos. Recebi uma homenagem por ter obtido a melhor média da faculdade. No término da solenidade eu estava abraçando meus pais quando o Pe. Nedel perguntou, na frente do meu pai, se eu aceitaria ser professora da Faculdade, no curso de graduação em Filosofia. Quase desmaiei. Fiquei muito feliz e orgulhosa e meus pais também.     

Sala de aula – Comecei a lecionar fazendo o estágio do magistério em Novo Hamburgo, no Colégio Santa Catarina, para turmas do primário, ainda durante a faculdade. Continuei trabalhando no ensino primário até 1968. Também dei aulas para o ensino médio e fui monitora/assistente do Pe. Antonio Steffen, no último ano da faculdade de Filosofia, na disciplina de Introdução à Filosofia. Desde março de 1968 passei oficialmente a ser professora da Faculdade que hoje é parte da Unisinos. Dei aulas para a graduação até 1999. Depois disso, passei a lecionar na pós-graduação, pois em 1992 concluí o mestrado em Filosofia na PUCRS, já que aqui na Unisinos ainda não tinha. Eu dava aulas de Filosofia e Ética para os cursos de especialização.

Trajetória na Unisinos – Desde 1970, além de lecionar, trabalho na área administrativa da Unisinos, com legislação educacional. Nessa época, se formalizou a Assessoria Acadêmica da Universidade e eu fui a assessora acadêmica até 1994. Passei, então, a fazer um trabalho de consultoria para a reitoria, onde fiquei até 2004, quando se criou uma procuradoria, juntando a antiga Assessoria Acadêmica, com a Assessoria Jurídica e a Consultoria Organizacional. Atualmente sou coordenadora da Procuradoria da Unisinos. Me especializei na parte de normas institucionais. Escrevi quase todos os regimentos, estatutos, resoluções e regulamentações da Unisinos.

Família – Sou casada, mas estou separada do meu marido há oito anos. Não nos divorciamos. Meu ex-esposo é Henrique Prieto, que foi prefeito e vereador de São Leopoldo, e agora é novamente vereador e presidente da Câmara. Tivemos três filhos: o Marcelo, conhecido como Cecéu, e tem 34 anos; a Carla Fernanda, 31 anos, que tem o apelido de Nega; e o Francisco, vulgo Chico, que tem 29. O mais velho é campeão nacional e internacional de voo livre em paraglider. A Nega, que atualmente mora na Austrália, é formada em Naturologia Aplicada, um curso de graduação que forma terapeutas naturais. O Chico é surfista e instrutor de surfe, além de fazer resgate e salvamento no mar. Ainda não tenho netos, mas eu sempre disse que filho a gente põe no mundo por querer, não por acaso. Os filhos são o que temos de mais importante na vida. A maternidade é um sacrifício sublime e muito compensador, porque a gente cresce enquanto vamos cuidando dos nossos filhos e os vemos se desenvolvendo.

Ética – Para mim, ética fundamentalmente é generosidade, solidariedade, justiça, honestidade, sinceridade, veracidade e a busca pelo que as pessoas têm direito. Tudo isto, não em discurso, mas sim na prática.

Autor – Aristóteles, na Filosofia clássica, e Ortega Y Gasset e Julián Marías, entre os contemporâneos. Na literatura, gosto de muitos autores, mas com algum destaque para Noah Gordon e Jan Karon.

Livro – Ética a Nicômaco, de Aristóteles, e Ética como amor próprio, de Fernando Savater.

Filme – Não tenho grandes referências em questão de filmes. Tenho visto alguns filmes leves e divertidos, tais como Se eu fosse você; Comer, Rezar, Amar e Avatar.

Nas horas livres – Além da leitura, passo meu tempo livre com a jardinagem. Gosto muito de plantas e flores.

Um sonho – Escrever para jovens e crianças, aproveitando meu conhecimento para apresentar a Filosofia e a Ética a eles de forma acessível, lúdica e agradável. 

Unisinos – Acompanhando toda a perspectiva de desenvolvimento e de percalços que passamos, eu diria que a Unisinos é uma instituição que tem garra. E essa garra se manifesta pelas gerações subsequentes de professores e funcionários que vão levando-a para frente, construindo, acrescentando e multiplicando o que a universidade é e faz. A garra vem das pessoas que contribuíram para construir a Unisinos. No passado e hoje. Temos vontade de ser uma instituição que faça a diferença do ponto de vista humano, além de educacional.

IHU – Tem um papel muito importante e que está desempenhado de forma muito evidenciada e muito visível pela parte da produção de pesquisa, de entrevistas, de artigos, da publicação de temas importantes, que trazem a contribuição de pessoas autorizadas e com grande profundidade de conhecimento, juntamente com a visão social que exerce. É um trabalho muito bonito e reconhecidamente de qualidade, que faz diferença.

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