Edição 348 | 25 Outubro 2010

Indígenas: uma história velada

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Patrícia Fachin

De acordo com Giovani José da Silva, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – UFMS, a história indígena “é misturada à mitologia” e compõem um mosaico que, aos olhos dos não-índios, parece não ter sentido

A história indígena ensinada nas escolas ainda é “europocêntrica, excludente e que pouco tem a ver a história vivenciada por estas populações”, constata Giovani José da Silva. Esta leitura ultrapassada do passado e da atual realidade das comunidades indígenas é embasada na deficiência do material escolar, nos livros obsoletos que ainda se referem aos indígenas exclusivamente no passado e de forma genérica. “Infelizmente, os livros didáticos levados para as escolas dos índios ainda contam uma história em que eles pouco ou nada aparecem”, aponta.

Nas comunidades, a história desse povo milenar e a interpretação do passado seguem “uma lógica própria, diferente da lógica ocidental e judaico-cristã”. Falar “dos tempos de antigamente, transmiti-lo às gerações mais novas”, explica, “é um exercício contínuo de revitalização de uma história que fala de tempos em que animais falavam, por exemplo, e em que os xamãs (ou pajés) tinham um prestígio”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Silva menciona que, ao contar a história dos povos indígenas, é imprescindível considerar que existem mais de 200 sociedades indígenas no território brasileiro, as quais “sobreviveram a toda sorte de tentativas de sua desintegração física e cultural ao longo da história do país”. Nesse processo, enfatiza, é preciso verificar como as comunidades se relacionam com seu passado e “partilhar o conhecimento histórico ocidental a partir das referências e marcos estabelecidos pelos indígenas”.

Giovani José da Silva possui graduação e mestrado em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS, especialização em Antropologia pela Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT e doutorado em História pela Universidade Federal de Goiás - UFG.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como a história dos índios foi contada a eles no decorrer da história?

Giovani José da Silva - Nas escolas localizadas em aldeias indígenas, ao longo do século XX e, por incrível que pareça, em pleno início de século XXI, ainda é contada uma história europocêntrica, excludente e que pouco tem a ver com a história vivenciada por estas populações. Infelizmente, os livros didáticos levados para as escolas dos índios ainda contam uma história em que eles pouco ou nada aparecem. Isto sem falar que, em geral, professores mal preparados e livros obsoletos ainda se referem aos indígenas exclusivamente no passado (os índios caçavam, pescavam, dormiam em redes etc.) e de forma genérica, como se todos fossem iguais, ontem e hoje.

IHU On-Line - Como contar a história dos índios para eles?

Giovani José da Silva – Primeiramente, levar em consideração que existem hoje mais de 200 sociedades indígenas em território brasileiro e que sobreviveram a toda sorte de tentativas de sua desintegração física e cultural ao longo da história do país. A partir disso, verificar como determinada comunidade se relaciona com o seu próprio passado e partilhar o conhecimento histórico ocidental a partir das referências e marcos estabelecidos pelos indígenas. No caso dos kadiwéu, grupo indígena do Pantanal de Mato Grosso do Sul com quem convivi por muitos anos, como professor dos Ensinos Fundamental e Médio, isso se traduziu, por exemplo, na verificação de que um evento como a Guerra do Paraguai (1864-1870) era e continua sendo muito importante para estes índios, um evento definidor de uma identidade ligada aos antigos mbayá-guaikuru, os “índios cavaleiros” e “guerreiros” do passado. Este, sem dúvida, foi um bom ponto de partida.

IHU On-Line - Como as comunidades indígenas se posicionam diante da ocidentalização de suas comunidades e do fato de verem sua história ser contada a partir
da perspectiva dos brancos, inclusive do ponto de vista religioso?

Giovani José da Silva - Muitas comunidades têm repensado a presença de não-índios em suas aldeias, especialmente no campo educacional e religioso. Estamos vivendo um momento em que jovens indígenas têm estudado nas cidades e retornado às aldeias, ocupando funções de enfermeiros, professores e até mesmo de pastores religiosos. Sinceramente, creio que mais interessante do que perguntar o que a escrita, a religião e tantas outras coisas farão ou já fazem com os índios, talvez fosse mais interessante perguntar o que eles fazem e farão com tudo isso, inclusive com o uso de modernas tecnologias, tais como computadores e celulares. Os que sobreviveram estão aí para [pra é informal!] contar uma história de dor e sofrimento, mas também uma história de resistência e esperança.

IHU On-Line – E como o senhor acha que eles irão interagir com as tecnologias do mundo moderno? Qual a perspectiva de futuro?

Giovani José da Silva - É difícil fazer previsões, mas é possível imaginar que muitas dessas tecnologias passem a fazer parte da cultura dessas populações, a favor delas e não contra elas. Quando ex-alunos kadiwéu se comunicam comigo, por exemplo, por meio de celulares e da internet (e-mails, Orkut etc.) utilizando sua língua própria, penso que o idioma kadiwéu  sobreviverá ainda por muito tempo. Assim, a perspectiva de futuro pode ser muito boa para a sobrevivência física e cultural dos indígenas, desde que se veja a cultura como algo perpetuamente sendo modificado e ressignificado pelas pessoas.

IHU On-Line - Que conhecimento as comunidades indígenas atuais têm de seu passado e como o interpretam?

Giovani José da Silva - Em geral, o conhecimento sobre o passado é aquele transmitido de geração a geração pelos mais velhos, “os guardiões da memória” de cada comunidade. A história é misturada à mitologia, compondo um mosaico que, aos olhos dos não-índios, parece não fazer sentido. Contudo, falar dos “tempos de antigamente”, transmiti-lo às gerações mais novas, acrescentando ou retirando elementos, é um exercício contínuo de revitalização de uma história que fala de tempos em que animais falavam, por exemplo, e em que os xamãs (ou pajés) tinham um prestígio, muitas vezes perdido nos dias de hoje, em que médicos e religiosos disputam a preferência dos índios. A interpretação do passado segue uma lógica própria, diferente da lógica ocidental e judaico-cristã.

IHU On-Line – O senhor convive com quais comunidades indígenas e há quanto tempo? O que mais aprendeu com eles nesse período?

Giovani José da Silva - Convivo com os kadiwéu desde 1997 e com os terena desde 1991, além de já ter trabalhado com os atikum, os guató, os ofayé, os kamba e os kinikinau. Com todos eles aprendi, principalmente, que existem outros modos de se viver a vida e representá-la e isso inclui a forma como cada povo se relaciona com o próprio passado. Além disso, apesar de todos sermos da espécie humana (fato que poderia nos tornar muito parecidos uns com os outros), é inegável que cada grupo encontrou diferentes respostas diante do desafio de sobrevivência física e cultural. Creio ter aprendido um pouco que o meu jeito de ser não é melhor e nem pior do que o dos outros: apenas diferente! Ah, e sei contar história(s) de um jeito muito próprio.

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