Edição 348 | 25 Outubro 2010

As dimensões materiais e imateriais da experiência missioneira

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Patricia Fachin e Márcia Junges

As ruínas de São Miguel foram um dos primeiros patrimônios históricos do Brasil, conta Ana Lúcia Goelzer Meira. Depois da preservação dos testemunhos materiais, veio a preocupação com a dimensão imaterial do empreendimento da Companhia de Jesus

Os Trinta Povos das Missões duraram 160 anos, bem mais do que muitas nações modernas. Só em 1768, com a expulsão dos jesuítas, é que esse “país” se dissolveu, assinala a arquiteta Ana Lúcia Goelzer Meira, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Em sua opinião, há uma tendência de lembrarmos somente de São Miguel, esquecendo de outros sítios importantes que ajudam a entender a experiência das missões jesuítico-guarani. Sete desses 30 povos se localizam em território brasileiro, e tal “patrimônio cultural das Missões no Brasil é complementado, por sua vez, pelos remanescentes materiais e imateriais existentes no Paraguai e na Argentina, e mesmo no Uruguai”. Ana Lúcia explica que um dos primeiros bens a ser tombado como patrimônio histórico do Brasil são as ruínas de São Miguel: “A partir daí, em relação à experiência missioneira, a atuação do órgão foi dedicada, prioritariamente, à preservação dos seus testemunhos materiais – as ruínas”. E continua: “Da preocupação centrada no patrimônio arquitetônico e arqueológico, passaram-se a desenvolver ações sobre as referências culturais dos índios mbyá guarani, evidenciando a dimensão imaterial relacionada à experiência missioneira, portanto, as novas dimensões do patrimônio”. A pesquisadora irá conduzir, junto da também arquiteta Candice Ballester, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan, o minicurso Políticas públicas de preservação do patrimônio cultural das Missões Jesuítas Guarani, em 26-10-2010, dentro da programação do XII Simpósio Internacional IHU: A experiência missioneira: território, cultura e identidade.

Graduada em Arquitetura, Anda Lúcia cursou especialização em desenho urbano, mestrado em planejamento urbano e regional e doutorado em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, com a tese O patrimônio histórico e artístico nacional no Rio Grande do Sul no século XX: atribuição de valores e critérios de intervenção. É autora de O passado no futuro da cidade: políticas públicas e participação popular na preservação do patrimônio cultural de Porto Alegre (Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2004) e organizadora, com Sandra Pesavento, de Fronteiras do Mundo Ibérico: patrimônio, território e memória das missões (Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Além das ruínas de São Miguel, dos Sete Povos das Missões e das ruínas do Paraguai, que outros legados restam do período histórico missioneiro?

Ana Lúcia Goelzer Meira - Nós estamos acostumados a ver em reportagens, propagandas, publicações, a imagem das “ruínas de São Miguel” (remanescentes do antigo Povo Missioneiro de São Miguel Arcanjo) como um dos símbolos mais representativos do Rio Grande do Sul. Geralmente nos lembramos de São Miguel e esquecemos os outros sítios que nos ajudam a entender a complexidade da experiência das missões jesuítico-guarani. Os Trinta Povos das Missões, os quais formaram um país que durou muito mais do que muitas nações modernas (aproximadamente 160 anos, até a expulsão dos jesuítas, em 1768), legaram ao território brasileiro, por meio de tratados entre Espanha e Portugal, sete desses povos.

Sobre três desses povoados cresceram cidades: Santo Ângelo, São Borja e São Luiz Gonzaga. Os demais, São Miguel Arcanjo já citado, São João Batista, São Nicolau e São Lourenço Mártir, tiveram seus remanescentes tombados como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

No caso do Rio Grande do Sul, além dos remanescentes referidos, há um enorme legado imaterial, representado pelos elementos culturais que ajudam a construir as nossas identidades regionais. O gosto pela carne e pelo mate, por exemplo, tem suas raízes na experiência missioneira, pois ali ocorreu a domesticação da erva mate e a introdução do gado no estado.
O patrimônio cultural das Missões no Brasil é complementado, por sua vez, pelos remanescentes materiais e imateriais existentes no Paraguai e na Argentina, e mesmo no Uruguai. Alguns sítios, como São Miguel Arcanjo, Santo Inácio Mini, Jesus e outros, foram reconhecidos como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, devido a sua importância excepcional.

IHU On-Line - Quais são as políticas públicas de preservação do patrimônio cultural das missões jesuítico-guarani existentes no Brasil?

Ana Lúcia Goelzer Meira - É importante retomar a trajetória dessas políticas, pois elas não ocorreram de uma hora para outra; pelo contrário, vêm se afirmando ao longo de várias décadas. A preservação do patrimônio material missioneiro se confunde com a trajetória das políticas públicas de preservação no estado, especialmente das políticas federais. A ação pioneira foi iniciativa do governo estadual: São Miguel foi classificado como “lugar histórico” a partir do Regulamento de Terras de 1922. E pouco depois, o presidente do estado autorizou a execução das primeiras obras de estabilização das paredes de pedra. Se não fosse isso, São Miguel teria desabado devido ao estado de abandono em que se encontrava no início do século XX.
O órgão federal de preservação – o atual IPHAN, foi criado em 1937. As ruínas de São Miguel foram dos primeiros bens a serem tombados no Brasil. A partir daí, em relação à experiência missioneira, a atuação do órgão foi dedicada, prioritariamente, à preservação dos seus testemunhos materiais – as ruínas.
Foi fundamental nesse processo a vistoria realizada pelo arquiteto Lucio Costa  (o mesmo que projetou Brasília) às Missões, em 1937, que estabeleceu as bases para o paciente trabalho de consolidação das alvenarias de pedra e para a preservação das imagens religiosas e fragmentos esculpidos que se espalhavam pelos sítios. 
A partir daí, iniciaram-se as obras de consolidação da igreja de São Miguel e a construção do Museu das Missões – uma das obras mais importantes do modernismo no Brasil. A conservação do sítio arqueológico teve continuidade até os dias de hoje e se estendeu aos demais sítios missioneiros.

Reconstituição computadorizada
Nos anos 1980, quando São Miguel das Missões foi considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o reconhecimento valorizou ainda mais o patrimônio protegido e incentivou diversas ações de preservação relacionadas à arqueologia, educação patrimonial, difusão, incluindo a reconstituição computadorizada do povoado missioneiro realizada pela Unisinos.
Mais recentemente se consolidou uma ampliação importante no trabalho institucional. Da preocupação centrada no patrimônio arquitetônico e arqueológico, passaram-se a desenvolver ações sobre as referências culturais dos índios mbyá guarani, evidenciando a dimensão imaterial relacionada à experiência missioneira, portanto, as novas dimensões do patrimônio. Iniciadas na aldeia Inhacapetum, em São Miguel das Missões, as ações sobre o patrimônio imaterial foram estendidas a todos os estados brasileiros onde há presença mbyá com o apoio da AECID espanhola e, mais recentemente, estendida a outros países que fazem parte do Centro Regional do Patrimônio Imaterial da América Latina – Crespial.

Também há um trabalho iniciado no âmbito do Mercosul, que é voltado aos Itinerários Culturais das Missões, que vem sendo desenvolvido conjuntamente pelo Brasil, Argentina e Paraguai.  Além disso, o Brasil vem trabalhando com um conceito muito novo, que é o de paisagem cultural da região das Missões.
 
IHU On-Line - Qual é a atual situação do patrimônio cultural das missões jesuítico-guarani no Rio Grande do Sul?

Ana Lúcia Goelzer Meira - No que se refere aos quatro sítios tombados, que são também propriedade da União, propôs-se a criação do Parque Histórico Nacional das Missões, que está em fase de concepção (há apenas dois Parques Históricos no Brasil – o outro é o de Guararapes em Pernambuco).

Os quatro sítios missioneiros no RS têm um trabalho permanente de conservação e para a preservação dos fragmentos arqueológicos foi implantado um laboratório de arqueologia em São Miguel das Missões. Mas há muito mais a ser pesquisado, pois a rede formada pelos antigos trinta povos ocupava um vasto território que hoje pertence a vários países e seus testemunhos precisam ser melhor conhecidos.
Em relação aos grupos indígenas, há também um trabalho enorme a ser realizado, buscando superar preconceitos e o processo de exclusão a que são submetidos na nossa sociedade. O problema da terra é crucial. A falta de um território com matas, fontes de água e animais silvestres, a sua destruição por práticas predadoras sobre a natureza, fatalmente acabarão com o extraordinário modo de vida dos guarani.
Finalmente, creio que um desafio grande é desenvolver o afeto das populações que se radicaram mais recentemente na região (e que por isso não se identificam com o legado missioneiro), com o patrimônio cultural das missões, pois ele é importante para toda a humanidade.

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