Edição 348 | 25 Outubro 2010

As missões e a religiosidade brasileira

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Patricia Fachin

Missões jesuíticas contribuíram para que a religiosidade brasileira fosse marcada pela presença próxima de Deus, menciona Fernando Torres Londoño

Inspirados no carisma religioso, os jesuítas queriam catequizar, além dos índios, os habitantes da África e da Ásia. Nesse processo, explica o filósofo Fernando Torres Londoño, “eles compreenderam que os aspectos ‘materiais’ como a sobrevivência, a proteção dos neófitos era também importante e definitivo para a pregação do evangelho. A partir daí, em todos os lugares aonde chegaram – fosse no Brasil, na Índia, no Paquistão, no Tibet –, eles fizeram diversas adaptações para realizar o fim último: a salvação das almas”.

As missões “eram espaços de uma vida cotidiana regrada, prescrita, regida na sua temporalidade por calendários marcados por festas que se repetiam ano a ano”, pontua Fernando Torres Londoño. Em entrevista à IHU On-Line concedida por e-mail, o pesquisador menciona que a experiência missioneira marcou a religiosidade brasileira. “Nossa religiosidade está marcada pela presença próxima de Deus, pela festa, pelos rituais, veja só a festa de Nossa Senhora de Nazaré em Belém”.

Fernando Torres Londoño possui graduação em Filosofia e Letras pela Pontifícia Universidad Católica Javeriana e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é titular no Departamento de História da mesma universidade, onde também participa do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião. É organizador de Paróquia e Comunidade no Brasil. Perspectiva Histórica (São Paulo: Paulus, 1997). Londoño apresentará a conferência Entre fronteiras portuguesas e espanholas, às 9h do dia 26-10-2010.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que relações se estabeleceram, nas missões, a partir de temas como religião, fé e crenças?

Fernando Torres Londoño – Hoje, nós, que estudamos esse tema, estamos trabalhando com a ideia de que as missões foram muito determinadas pelas condições específicas de cada uma delas. Quer dizer, mesmo na América do Sul, as missões do Paraguai não foram iguais às de Chiquitos ou as do Orinoco. Os processos de relação de ambos os lados absorvendo novidades, aprendendo a língua e o tempo de cada um, foram em uns casos mais lentos que em outros.

IHU On-Line - Como se deu o processo de catequização dos índios no Brasil colonial? Que aspectos o senhor destaca dessa experiência?

Fernando Torres Londoño - Os missionários mais experientes foram compreendendo que o domínio da língua e a independência de tradutores, os chamados línguas, eram definitivos para iniciar uma catequese que efetivamente levaria ao cristianismo.

IHU On-Line - O que levou os jesuítas a optarem pelo sistema reducional? Quais eram as características desse modelo e a quem favorecia?

Fernando Torres Londoño - Os jesuítas tiveram que lidar desde o início com uma grande mobilidade indígena e com o que eles chamaram de “inconstância dos índios”. Por ser “inconstantes”, os índios precisavam dos missionários permanentemente. Também eles teriam que ser reunidos em aldeamentos fixos, com roças para a produção de mantimentos e com edificações como igreja e casa dos padres.

IHU On-Line - Quais os fundamentos ético-morais e filosóficos das missões jesuíticas?

Fernando Torres Londoño - Os jesuítas inspirados pelo seu carisma religioso queriam trazer os “gentios” que não eram só os índios, mas também os habitantes da África e da Ásia para a fé cristã. Nesse processo eles compreenderam que os aspectos “materiais” como a sobrevivência, a proteção dos neófitos era também importante e definitivo para a pregação do evangelho. A partir daí, em todos os lugares aonde chegaram – fosse no Brasil, na Índia, no Paquistão, no Tibet –, eles fizeram diversas adaptações para realizar o fim último: a salvação das almas.

IHU On-Line - Como analisa a experiência reducional no seu aspecto religioso?

Fernando Torres Londoño - No caso reducional, desde o século XVII todas as fontes coincidem: os índios são cristãos. Depois da expulsão, os documentos redigidos por autoridades e outros, que evidentemente não eram jesuítas, registram que se trata de índios cristãos.

IHU On-Line - Qual a influencia dos jesuítas na constituição da religiosidade brasileira, considerando o período de catequização dos indígenas? A relação estabelecida entre eles no Brasil colônia foi decisiva para a cristianização brasileira?

Fernando Torres Londoño - As missões que permaneceram anos eram espaços de uma vida cotidiana regrada, prescrita, regida na sua temporalidade por calendários marcados por festas que se repetiam ano a ano. Eram espaços de realização de sacramentos e de rituais como as procissões. Deus estava presente o dia todo, o tempo todo. Nossa religiosidade está marcada pela presença próxima de Deus, pela festa, pelos rituais, veja só a festa de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém.

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