Edição 348 | 25 Outubro 2010

Um aprendizado sobre a convivência das diferenças

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Patrícia Fachin

O período colonial significou a “união do trono com o altar”, menciona Paula Montero, professora da Universidade de São Paulo – USP. Por três séculos, a Igreja Católica foi parte constitutiva das formas de organização e gestão do Estado.

“A atividade missionária foi sempre um braço, que se pretendia pacífico, da construção da soberania do Estado sobre o território. No Brasil colônia, esse papel pertenceu aos jesuítas”, define Paula Montero, à IHU On-Line. Na entrevista que segue, concedida por e-mail, a pesquisadora explica que, ao colaborar nas políticas de “pacificação” do Estado brasileiro, “os missionários também produziram condições culturais para colocar no mapa da nacionalidade as diferenças indígenas”. Práticas como a tradução das línguas, produção de gramáticas e descrição de costumes, aponta, podem ser compreendidas como um “esforço de tradução das diferenças em nacionalidade e civilidade, isto é, formas abrangentes de vida em comum que possam comportar um certo nível de diferenças reconhecíveis e aceitáveis”.
Fazendo uma releitura da ação missioneira, Paula Montero afirma que a “atividade missionária é boa para pensar”. Entre as necessidades atuais, enfatiza, “o mundo contemporâneo globalizado precisa enfrentar o grande problema da convivência das diferenças em um mesmo quadro normativo”. Nesse sentido, o estudo da atividade missionária seria um exemplo, pois “nos permitiu construir instrumentos teóricos para pensar esse problema de maneira menos ideologizada. As polaridades opressores/oprimidos, desenraizamento/autenticidade, entre outras, só produzem discursos políticos e dividem os atores entre bons e maus. Essas simplificações não ajudam a pensar”.

Paula Montero possui graduação em Psicologia pela Université René Descartes Sorbonne, graduação em Ciências Sociais pela Université de Paris VII, mestrado em Antropologia Social, pela mesma universidade e doutorado em Antropologia, pela Universidade de São Paulo - USP. Atualmente é presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e coordenadora adjunta da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - Fapesp.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como descreve a mediação cultural entre índios e missionários no Brasil?

Paula Montero - A mediação cultural é uma maneira de abordar as relações entre grupos portadores de formas de conhecimento muito diferentes que privilegia a análise das interações em detrimento das formas cognitivas. Não é necessário supor que as pessoas entendam a “cultura” do outro tal como ela é para estabelecer uma vida em comum. No caso que eu estudei, as etnografias salesianas, essa interação visava em grande parte estabelecer e descrever a diferença indígena em termos de suas particularidades religiosas. Esse processo é pensado por eles como uma forma de tradução.

IHU On-Line - Que relações interculturais emergem do encontro entre missionários e as comunidades indígenas nas missões?

Paula Montero - Toda sorte de problemas. Nas missões salesianas era preciso, em primeiro lugar, convencer os índios a viver nas aldeias missionárias. Para tanto, eles precisavam produzir comida, casas e meios de saúde e proteção. Os chefes indígenas queriam aumentar o seu poder ocupando uma posição privilegiada na distribuição de bens, roupas e alimentos. Os xamãs pretendiam dominar os poderes sobrenaturais dos padres. Já os padres queriam manter os índios nas suas aldeias missionárias, convencê-los a trabalhar para a garantia da sobrevivência das missões, batizá-los e casá-los para que vivessem civilizadamente e controlar a força persuasiva do xamã através dos sacramentos e seus conhecimentos farmacêuticos. Era um contínuo esforço de concessões e imposições de parte a parte para manter essa aliança. Em muitos casos ela falhou e os índios desertaram a missão. A vida nessas aldeias missionárias era ordenada pelo ritual. Ao longo do tempo e da convivência foi-se inventando a religião indígena como ponte de interlocução privilegiada com o universo cristão.

IHU On-Line - Quais os reflexos da relação entre índios e missionários na construção da cultura brasileira moderna?

Paula Montero - A atividade missionária foi sempre um braço, que se pretendia pacífico, da construção da soberania do Estado sobre o território. No Brasil colônia, esse papel pertenceu aos jesuítas. Nas disputas de Portugal com a Espanha, a língua era um fator decisivo para definir as fronteiras territoriais nas colônias. As populações indígenas tiveram, portanto, um papel estratégico no trabalho político da Coroa Portuguesa para manter seus vastos territórios. No final do século XIX e metade do XX, os salesianos tiveram um papel-chave na consolidação das novas fronteiras no Mato Grosso e no rio Uaupés, na Amazônia. Ao colaborar nas políticas de “pacificação” do Estado brasileiro, os missionários também produziram condições culturais para colocar no mapa da nacionalidade as diferenças indígenas. Seu esforço de tradução das línguas, produção de gramáticas e descrição de costumes é um esforço de tradução das diferenças em nacionalidade e civilidade, isto é, formas abrangentes de vida em comum que possam comportar um certo nível de diferenças reconhecíveis e aceitáveis.

IHU On-Line – Nesse período, qual a influência das religiões na constituição da cultura e da identidade brasileiras?

Paula Montero - O período colonial foi, como se sabe, um período de união do trono com o altar. Foram, portanto, mais de três séculos em que a Igreja Católica era parte constitutiva das formas de organização e gestão do Estado. Isso deixa marcas profundas. Com a República veio a separação das duas burocracias. Nesse processo, a disputa político-jurídica pela laicização do Estado que pautou os termos da expulsão da Igreja Católica para fora do Estado acabou por engendrar um espaço civil dominado pela forma religiosa cristã. Nesse sentido, a esta Igreja, até muito recentemente, era reconhecida como a expressão das aspirações e da voz legítima do povo. Por ter sido Estado e por permanecer associada a um Estado (Vaticano), é ainda a única religião “nacional”, e que ainda pode reivindicar para si a ideia de Igreja - espaço político-religioso no qual a comunidade de fé coincide com a comunidade política.

IHU On-Line - Como a senhora revisa, criticamente, o instrumental antropológico de análise da atividade missionária no Brasil desde o início do século XVI ao longo da história?

Paula Montero - O estudo da atividade missionária é recente, mas ficou, preponderantemente, na mão dos historiadores. No caso do Brasil, a missiologia jesuíta tem sido amplamente estudada. A atividade missionária contemporânea inspirou pouco interesse. Muitos se surpreendem em saber que essa atividade ainda persiste. Não interessa muito aos historiadores porque os obrigaria a fazer uma história do presente. Não interessa muito aos antropólogos, que não veem com bons olhos o que eles fizeram com as populações indígenas. Portanto, é preciso revisar a atitude heurística diante desse tema.
Parafraseando Lévi-Strauss , diria que a atividade missionária é boa para pensar. O mundo contemporâneo globalizado precisa enfrentar o grande problema da convivência das diferenças em um mesmo quadro normativo. O estudo da atividade missionária nos permitiu construir instrumentos teóricos para pensar esse problema de maneira menos ideologizada. As polaridades opressores/oprimidos, desenraizamento/autenticidade, entre outras, só produzem discursos políticos e dividem os atores entre bons e maus. Essas simplificações não ajudam a pensar.

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