Edição 348 | 25 Outubro 2010

A dinâmica das populações reducionais

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Patricia Fachin e Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

Com a chegada dos europeus, do século XVI em diante, os aborígenes das Américas foram diretamente influenciados sob diversos aspectos, afirma Ernesto Maeder. Ele avalia, também, a importância da vasta documentação sobre as Missões, como as Cartas Ânuas

A leitura das Cartas Ânuas “proporciona um caudal de informações interessantes sobre a própria atividade, o mundo indígena que atendiam em suas missões e a vida de cada um dos colegas fundados nas cidades rio-platenses. Não se deve esquecer que as Cartas Ânuas também tinham a intenção de estimular o fervor missionário dos jesuítas europeus, sobretudo o dos jovens noviços, e de atraí-los para a evangelização dos povos americanos, de modo que sua leitura atual requer que também se tome em conta o aspecto edificante de seus textos”. A afirmação é do historiador Ernesto Maeder, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Ele explica que a vinda dos europeus repercutiu enormemente entre as comunidades originárias da América do século XVI em diante. Esses temas serão aprofundados na conferência que Maeder irá proferir em 26-10-2010, intitulada A dinâmica das populações reducionais.

Maeder é membro do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas – Conicet, da Argentina, e da Academia Nacional da História. É designado acadêmico correspondente na Província do Chaco pela Academia Nacional de Educação, membro titular da Junta de Estudos Históricos do Chaco, presidente do Comitê Argentino de Ciências Históricas (2002-2005), e integrante da Comissão Assessora em Ciência e Tecnologia da Secretaria Geral de Ciência e Técnica da Universidade Nacional do Nordeste – UNNE. Dirige a Comissão de Publicações da Academia Nacional da História, além de integrar a comissão acadêmica encarregada de preparar a história das províncias argentinas (1930-2001), atualmente em execução.

Confira e entrevista.

IHU On-Line - Geograficamente, em que regiões se situaram as missões jesuíticas? Qual é a influência delas no Brasil e no Paraguai?

Ernesto Maeder - As missões que, desde 1609, os jesuítas iniciaram com os guarani se situaram inicialmente no Paraguai e pouco depois se deslocaram para outras regiões, como o Guairá, o território entre os rios Paraná e Uruguai e também o Tape e o Itatín. Tais territórios correspondem hoje à Argentina, ao Paraguai e ao Sul do Brasil, mas naquela época eram de domínio espanhol e se encontravam em áreas praticamente marginais com respeito aos centros urbanos mais importantes daquelas províncias. Durante certo tempo, se mantiveram e se desenvolveram nessas regiões. Porém, na década de 1630, tiveram que emigrar, pressionados pelas acometidas dos “bandeirantes” paulistas, concentrando-se, então, no sul do Paraguai e no nordeste da Argentina atuais. Entre 1685 e 1718, seu desenvolvimento demográfico impeliu-os a criar novos povos e a repovoar, com essas missões, o oeste do atual Rio Grande do Sul, enquanto o resto dos 30 povos ficou disseminado entre o sul do Tebicuary e o nordeste de Corrientes, Argentina. Nesta área ficou conformado o distrito que se conhece hoje como Misiones, densamente povoado e urbanizado até 1767 e que ainda perdurou ali depois da secularização das Misiones, até a segunda década do século XIX.

IHU On-Line - É possível dizer que, com a chegada dos europeus, as comunidades indígenas da América sofreram um choque demográfico-cultural? Por quê?

Ernesto Maeder - Sem dúvida, a chegada dos europeus impactou, e muito, as comunidades aborígenes da América. Isso ocorreu desde o século XVI em diante, já que a irrupção dos europeus, espanhóis e portugueses, e mais tarde de outras nacionalidades europeias, deu lugar a uma conquista em diferentes épocas e lugares. Seus resultados foram diversos, segundo as estruturas sociopolíticas dos países indígenas e o modo como estes aceitaram ou repeliram a intromissão ou a submissão aos conquistadores. A isso cabe agregar o impacto demográfico que padeceram, segundo as condições de vida a que ficaram submetidos e a devastação causada pelas epidemias. No caso dos guaranis, os mesmos tiveram um destino muito particular nas Missões, que, em grande medida, os preservou da hecatombe que ocorreu em outras regiões, como as Antilhas. Trata-se de um tema de grande amplitude, que não pode ser resumido aqui em poucas linhas.

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