Edição 347 | 18 Outubro 2010

Padrão nipo-brasileiro de TV digital: expansão e incertezas

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Ana Maria Oliveira Rosa

Enquanto os governos do Brasil e do Japão disputam territórios para o Serviço Digital Integrado de Transmissão Digital Terrestre – ISDB-T (sigla em inglês) ao redor do mundo, alavancando a economia em escala, o mercado interno brasileiro aponta incertezas e fragilidades não apenas em relação à tecnologia eleita, mas principalmente em relação ao interesse do público pela conversão digital da televisão. Leia o artigo de Ana Maria Oliveira Rosa.

Por Ana Maria Oliveira Rosa*

Enquanto os governos do Brasil e do Japão disputam territórios para o Serviço Digital Integrado de Transmissão Digital Terrestre – ISDB-T (sigla em inglês) ao redor do mundo, alavancando a economia em escala, o mercado interno brasileiro aponta incertezas e fragilidades não apenas em relação à tecnologia eleita, mas principalmente em relação ao interesse do público pela conversão digital da televisão.
A busca por novos mercados para o ISDB-T é interessante, com certeza, tendo em vista que o crescimento no número de pessoas que utilizam o padrão o fortalece e oferece maior interesse aos empresários que pretendam produzir equipamentos para operacionalizá-lo. A maior parte dos países da América Latina seguiu o Brasil nessa definição: Bolívia, Peru, Chile, Venezuela, Argentina, Equador, Costa Rica e Paraguai já adotaram o padrão nipo-brasileiro. Além dessa propagação na região latino-americana, o sistema também foi adotado pelas Filipinas e está em negociação com 14 países africanos (África do Sul, Angola, Botsuana, Congo, Lesoto, Madagascar, Malawi, Maurício, Moçambique, Namíbia, Suazilândia, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue).

O aumento de escala é o que garantiria preços baixos para os equipamentos necessários para transmissão e recepção de TV digital em todos os países adeptos desse padrão. No entanto, apesar de se falar em conversores a um custo próximo de cem reais desde a implantação do Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre (SBTVD-T), em 2007, o fato é que a indústria fabricante ainda não chegou nesse valor, nem mesmo com negociações feitas pelo governo federal, que já pensa em oferecer incentivos fiscais para os produtores dos equipamentos.

Embora muitas vezes tenha sido discutido o custo da migração para digital nas emissoras de televisão, que realmente terão de substituir grande parte dos equipamentos que possuem, a experiência de migração digital internacional mostra que a dificuldade principal dessa mudança não está nos agentes de mercado, mas sim nos consumidores. Ao ser encerrada a transmissão analógica nos Estados Unidos, o chamado switch-off, cerca de 3 milhões de pessoas ficaram sem receber sinal de televisão terrestre – não adquiriram o equipamento novo.

Ainda é cedo para falar em número de domicílios com TV digital em funcionamento no Brasil. Mas não é segredo para ninguém que a migração tem acontecido de forma majoritária em função da troca de televisor, impulsionada nesse ano pela Copa do Mundo de Futebol. Quando o telespectador decide que é hora de ter um equipamento com melhor resolução de imagem e novas funções, acaba comprando um televisor preparado para a TV digital, caso não opte pela compra de um aparelho antigo em uma oferta tentadora.

Mesmo assim, é pequeno o número de pessoas que optam pelo televisor porque ele é digital, e menor ainda o dos que vão efetivamente utilizá-lo para receber o sinal digital da televisão terrestre. Ainda com preços elevados, muitos desses equipamentos serão conectados à rede de televisão por assinatura, a cabo ou por satélite, que também cobra um valor mais alto pela assinatura digital, onde o sinal recebido pelo telespectador é digital e em alta resolução.

Além de estar disponível em apenas 42 municípios, há outros motivos óbvios para a baixa taxa de adoção da TV digital: nem mesmo a capacidade de recepção de sinal em alta resolução, atrativo mais alardeado pelos comerciantes, tem sido ofertada em tempo integral pelas emissoras. Outros pontos atrativos da transmissão digital, como a interatividade, ainda estão em fase inicial de utilização, sendo ofertados apenas aplicativos básicos e de baixo valor agregado.

Nesse passo, apesar de o ISDB-T estar ganhando adeptos, o SBTVD-T parece estar angariando poucos telespectadores. Enquanto o que chamamos de padrão nipo-brasileiro parece ser uma oferta tentadora aos países que escolhem uma forma de fazer a migração da televisão, o nosso sistema de televisão digital não oferece, internamente, impactos importantes para o cidadão comum.
É importante observar que isso também faz parte do interesse do mercado midiático já presente no Brasil. Muito mais proveitoso para esse mercado é manter a forma de produção, comercialização e distribuição de seus produtos no mesmo formato que vem sendo feito há décadas – através de uma grade organizada de horários, com espaços comerciais bem definidos. Enquanto as empresas que exploram esse mercado puderem manter a TV digital o mais próximo possível do antigo modelo analógico, melhor para seus bolsos.

Encarar mudanças como a questão da interatividade, que quebra o conceito de programação em grade e cria espaços diferenciados na programação, onde aparecem questões como a inserção de uma programação sobrepondo a outra, realmente se mostra mais trabalhoso e até mesmo arriscado para o padrão que vem sendo praticado. Como organizar, por exemplo, os espaços publicitários interativos, para que não interfiram um no outro e nem interrompam a programação em fluxo da emissora? São essas e outras questões que atrasam o desenvolvimento dos novos espaços que a televisão digital disponibiliza, mas que mudam a relação entre o telespectador e o emissor.

A aposta, então, fica na mudança do telespectador como forma de impulsionar as novidades do mercado. O uso de tecnologias e o barateamento de equipamentos como câmeras digitais e celulares aproxima os cidadãos de ideais de comunicação que já não concebem um emissor dentro do modelo de radiodifusão padrão: é preciso que haja espaço para atuação também de quem está assistindo.

* Mestranda em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos

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