Edição 347 | 18 Outubro 2010

Uma "ponte" entre culturas

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Márcia Junges – Tradução Benno Dischinger

Missões jesuítas na Ásia promoveram um autêntico intercâmbio entre as culturas, acentua Antoni Üçerler. Em sua opinião, Matteo Ricci via estreita conexão entre a fé cristã e as tradições confucionistas.

“Ricci acreditava que o cerne da fé cristã que ele vinha proclamar podia ser encontrado na verdadeira origem e nos caminhos da cultura chinesa, se fossem cuidadosamente estudadas as formas originais da antiga tradição confucionista”. A afirmação é do padre jesuíta Antoni Üçerler, membro e professor visitante do The Ricci Institute for Chinese-Western Cultural History, da Universidade de São Francisco, nos Estados Unidos. A entrevista foi concedida por e-mail à IHU On-Line, com exclusividade. De acordo com ele, ainda hoje os chineses, cuja maioria é não cristã, “lembram e consideram Ricci como alguém que se tornou um amigo fiel de seu povo”. E continua: “para Ricci não se tratava tanto da questão de transplantar uma “árvore cristã” plenamente desenvolvida para o solo chinês, mas de descobrir os tênues brotos para a fé cristã na cultura chinesa e cultivá-los de modo que pudessem crescer e se desenvolver numa robusta arvora cristã chinesa”. Com as missões desenvolvidas na China e no Japão, os jesuítas realizaram uma verdade “ponte” cultural e humana entre o Ocidente e o Oriente.

Antoni Üçerler é pesquisador do Instituto Histórico Jesuíta em Roma (IHSI). Doutorou-se na Universidade de Oxford. Antes dessa titulação, lecionou por vários anos no Departamento de Cultura Comparativa da Universidade de Sophia, no Japão.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Pode-se considerar Ricci e outros missionários como precursores da globalização com base na religião? Por quê?

Antoni Üçerler - Globalização é uma palavra hoje muito usada e abusada. Tornou-se muito fascinante, mas, com freqüência, refere-se exclusivamente a assuntos econômicos em geral ou, por vezes, ao desequilíbrio no relacionamento entre as multinacionais em países industrializados e países em desenvolvimento. No entanto, Ricci tem sido considerado um precursor da globalização por diversas razões que nada tem a ver com tais questões econômicas. Em primeiro lugar, ele foi o primeiro ocidental a dominar a língua chinesa e a compor livros escolares em chinês clássico. Em segundo lugar, ele foi um dos primeiros estrangeiros que foi admitido à corte chinesa e que foi capaz de engajar estudantes chineses num diálogo sustentável sobre cultura, moralidade, religião, sociedade, astronomia e matemática. Ricci acreditava que o cerne da fé cristã que ele vinha proclamar podia ser encontrado na verdadeira origem e nos caminhos da cultura chinesa, se fossem cuidadosamente estudadas as formas originais da antiga tradição confucionista. Esta atitude de abertura cultural, que não envolvia o uso de poder para se impor, é um modelo de como engajar-se com pessoas que são diferentes de nós. Este modelo é tão válido hoje como o foi no século XVI.

IHU On-Line - Sob que aspectos a missão de Ricci na China mudou a religião e a cultura daquele país?

Antoni Üçerler - É impossível falar de um homem “mudando” um país tão imenso e antigo como a China, especialmente com referência à religião e à cultura. No entanto, a fundamental atitude de amizade e respeito de Ricci pelo “Outro” teve um profundo impacto pelos séculos vindouros, enquanto estabeleceu um padrão pelo qual todos os outros que chegassem ao “Império do Meio” pudessem ser julgados em termos de sua disposição em fazer o esforço de entender uma civilização tão antiga e complexa como aquela da China. Mesmo hoje, diversos chineses, a maioria dos quais não é cristã, lembram e consideram Ricci como alguém que se tornou um amigo fiel de seu povo. O exemplo que Ricci deixou e que seus sucessores tentaram imitar conduziu eventualmente à aceitação, junto ao Imperador, de uma pequena comunidade cristã dentro de seu reino. Foi quando os missionários se tornaram intolerantes nos séculos subsequentes que a Igreja perdeu terreno e o Reino fechou suas portas ao cristianismo e à influência estrangeira.

IHU On-Line - Pode-se dizer, com base na experiência de Ricci na China e as experiências de outros missionários jesuítas no Japão, que o cristianismo foi reinventado no Leste? Por quê?

Antoni Üçerler - O mentor das duas missões no Japão e na China foi Alessandro Valignano, que bem cedo entendeu que essa acomodação cultural era a única via de se ir em frente na Ásia Oriental. Uma de suas grandes intuições foi que o Japão e a China eram semelhantes à Igreja primitiva dos primeiros séculos. Ele escolheu são Paulo como modelo para o apóstolo ideal entre os gentios. Paulo pregou o Deus desconhecido aos gregos reunidos no Areópago de Atenas. De modo semelhante, Valignano acreditou que a mesma mensagem precisava ser transmitida de tal maneira para se tornar compreensível às tão altamente avançadas civilizações do Japão e da China. Neste sentido, era preciso “re-inventar” o cristianismo, ou seja, “descobrir novos argumentos” com os quais se pudesse mover os corações dos povos da “nova Igreja Primitiva” da Ásia oriental e persuadi-los a abraçar a fé cristã. Isso reflete o clássico pensamento do “inventar”, que vem do latim “invenire”, encontrar ou descobrir. Este termo era um conceito-chave na retórica clássica e foi adaptado pelos missionários quando eles falavam de sua missão na Ásia. Resumindo, para Ricci não se tratava tanto da questão de transplantar uma “árvore cristã” plenamente desenvolvida para o solo chinês, mas de descobrir os tênues brotos para a fé cristã na cultura chinesa e cultivá-los de modo que pudessem crescer e se desenvolver numa robusta arvora cristã chinesa.

IHU On-Line - Quais eram as peculiaridades da missão jesuítica no Japão? O que mudou em comparação com a missão promovida na China?

Antoni Üçerler - A missão no Japão foi inicialmente marcada pelo período dos “Estados Guerreiros” da guerra civil. Isso significava que os jesuítas precisavam conquistar o favor dos lordes de guerra locais a fim de serem capazes de atuar. Essa situação criou uma grande batalha repleta de incerteza e dureza. A China, por sua vez, era um império estável, controlado centralmente pela burocracia imperial. Enquanto ambas as nações usavam os caracteres chineses em sua escrita, as estratégias de tradução usadas em ambos os países eram ligeiramente diferentes. O engano inicial de Francisco Xavier em adotar “Dainichi”, um termo tomado do budismo Shingon para traduzir o conceito de Deus conduziu a um mal entendido entre os japoneses que pensaram inicialmente que ele fosse um monge budista. Posteriormente, os jesuítas no Japão foram muito cuidadosos no sentido de evitar o uso da terminologia budista e traduziram palavras latinas para expressar conceitos teológicos comuns. Na China, Ricci abraçou a terminologia confucionista, evitando cuidadosamente qualquer uso de termos budistas ou taoístas que pudessem confundir os chineses.

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