Edição 347 | 18 Outubro 2010

Uma missão de respeito e em pé de igualdade

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Márcia Junges | Tradução Luís Marcos Sander

Aceito no Império do Meio e respeitado pelos conhecimentos científicos que trouxe, Matteo Ricci teve sucesso em sua empreitada, sobretudo porque não subestimou o país e a cultura. A força usada por outros missionários ficou fora de seu projeto, assinala Qian Xiangyang

“Ricci teve sucesso por várias razões. Em primeiro lugar, ele respeitava a cultura chinesa. Falava e escrevia bem chinês; aceitou o conselho de se vestir como um erudito chinês tradicional; praticava a etiqueta chinesa. Dessa forma, ganhou o respeito dos chineses. Só quando fosse, primeiro, aceito pessoalmente como um de ‘nós’, ele poderia ter a oportunidade de fazer com que seus ensinamentos religiosos fossem aceitos”. A afirmação é do advogado chinês Qian Xiangyang, em entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. De acordo com ele, “o que é especial na missão de Ricci é que ela era realizada numa atitude de respeito e em pé de igualdade, e não com a ajuda de soldados e da força, como pregavam outros missionários”. E completa: “Experiências com uma cultura estranha podem ser uma bênção para encontrar o verdadeiro sentido do Senhor de todas as raças. Neste sentido, a política de Ricci e sua aparente solução conciliatória podem ter seu fundamento bíblico”.

Qian Xiangyang nasceu em Shenxian, na Província de Shandong, na China. Advogado, é professor da Universidade de Sichuan desde 2005. Cursou Direito na Universidade de Edimburgo, e Língua Inglesa e Literatura na Universidade Sichuan. Também é graduado em Engenharia Mecânica pelo Shandong Light Industry College, na China. Escreveu The Principles of Positive Law: Meditations on the First Philosophy of Law (Commercial Press, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como se deu a inserção dos jesuítas na China? Quais foram os principais paradoxos desse encontro de culturas e religiões?

Qian Xiangyang - A inserção dos jesuítas não foi a primeira vez em que a China se encontrou com uma religião de fora. Esse país já tinha feito experiências semelhantes com o budismo e o islã, por exemplo. Entretanto, a cultura chinesa tende a sentir orgulho de sua natureza secular e, por conseguinte, tolerante com problemas espirituais. A cultura chinesa não parece ter um conceito como heresia ou herético, nem a incompatibilidade que muitas vezes o acompanha. Em consonância com isso, as religiões budista, taoísta, cristã e islâmica puderam ter uma longa história de coexistência dentro da cultura chinesa, o que poderia ser difícil para culturas baseadas numa religião. Embora tenha havido, ocasionalmente, perseguições contra religiões específicas, como o budismo, o taoísmo ou até o cristianismo, por parte dos imperadores, na maioria dos casos elas ocorreram por razões políticas, e não religiosas. Assim, quando os jesuítas chegaram com os ensinamentos novos e estrangeiros, não seria tão difícil aceitá-los se eles fossem entendidos como questões espirituais a serem exploradas, e não impostos como um problema de conversão que só admitisse um “sim” ou um “não”.
As exposições a respeito dos problemas da morte, da alma, etc. no livro de Ricci intitulado Os dez paradoxos, demonstram as diferenças existentes entre a cultura chinesa tradicional e o catolicismo. Entretanto, a publicação e popularidade do livro provaram que a China, enquanto cultura, não rejeitou a nova religião, mas, mais provavelmente, entendeu as novas ideias como compreensíveis e negociáveis, e não como paradoxos indissolúveis.

IHU On-Line - Por que a iniciativa de Matteo Ricci teve sucesso? O que ele fez para que os jesuítas fossem respeitados e aceitos no Império do Meio?

Qian Xiangyang - Ricci teve sucesso por várias razões. Em primeiro lugar, ele respeitava a cultura chinesa. Falava e escrevia bem chinês; aceitou o conselho de se vestir como um erudito chinês tradicional; praticava a etiqueta chinesa. Dessa forma, ganhou o respeito dos chineses. Só quando fosse, primeiro, aceito pessoalmente como um de “nós”, ele poderia ter a oportunidade de fazer com que seus ensinamentos religiosos fossem aceitos. Em segundo lugar, devem-se mencionar os progressos da civilização ocidental nas ciências. Ricci demonstrou seu grande conhecimento de geometria, astronomia, geografia, etc. e levou junto mapas, quadros, relógios, pianos, globo terrestre e outros dispositivos que eram novidade para os chineses. Tudo isso atraiu e fascinou a intelligentsia chinesa e foi, em consequência, útil para que a pregação moral e religiosa de Ricci fosse aceita. Sem o desenvolvimento da civilização ocidental nesses campos não religiosos, não teria havido Ricci nem seu sucesso.
Em terceiro lugar, ele foi amigo pessoal de chineses da classe alta. Embora não tenha conseguido batizar o imperador chinês, seu foco na elite da classe alta e sua habilidade nas relações pessoais foram um fator importante para seu sucesso. Outros fatores, como suas qualidades e talentos pessoais, também ajudaram.

IHU On-Line - Pode-se falar numa política de conversão realizada por Ricci? Por quê?

Qian Xiangyang - Pessoalmente, penso que sim, e acho que ela foi uma política importante. Em primeiro lugar, porque essa política era sustentada por respeito e igualdade, o que é essencial diante de uma cultura estrangeira e das pessoas que fazem parte dela. Não é a forma aparentemente arrogante do “eu converto você”, mas aparentemente uma “conversão mútua” para se encontrar um ao outro a meio caminho. Assim, quando de sua morte, Ricci se tornou o primeiro missionário ocidental a quem o imperador concedeu um local de sepultamento, porque “ele já é chinês”.
Em segundo lugar, nessa “conversão mútua”, o sentido central do ensino religioso não é abandonado por essa política, mas mantido rigorosamente no nível fundamental. Por exemplo: embora Ricci pudesse ser acusado por seus colegas ocidentais por usar vestes chinesas e aceitar rituais tradicionais de adoração dos ancestrais e valores confucionistas, ele nunca cedeu ante a forte tradição chinesa da poligamia, que era, obviamente, contrária aos ensinamentos católicos. Sua reinterpretação dos valores confucionistas e da adoração dos ancestrais em termos católicos parece necessária e semelhante à que acontece quando uma religião que está se disseminando topa com uma cultura estranha bem estabelecida, e algo semelhante já tinha acontecido nos primórdios da história do cristianismo quando este foi difundido entre os romanos e gregos.
Em terceiro lugar, a aparente solução conciliatória poderia ser tecnicamente interpretada como uma estratégia, mas é bem mais do que isso. Ela não contradiz necessariamente o ensino bíblico, mas poderia ser uma apreensão melhor dele. Deus está lá fora, além do poder humano, e nenhum ser humano pode estar certo de que seu próprio conhecimento de Deus é necessariamente mais verdadeiro do que o de outros. Experiências com uma cultura estranha podem ser uma bênção para encontrar o verdadeiro sentido do Senhor de todas as raças. Neste sentido, a política de Ricci e sua aparente solução conciliatória podem ter seu fundamento bíblico.

IHU On-Line - Quais são os principais pontos de contato e diálogo estabelecidos por esse jesuíta entre o Oriente e o Ocidente?

Qian Xiangyang – Eu cito quatro pontos fundamentais:
1) As ciências, especialmente a geometria, astronomia e geografia. Embora recentemente tenha surgido uma controvérsia entre pesquisadores chineses a respeito do conhecimento geográfico de Ricci, as ciências, aos olhos dos chineses, são sempre a parte mais valiosa na comunicação entre o Oriente e o Ocidente iniciada por Ricci.
2) A religião. O que é especial na missão de Ricci é que ela era realizada numa atitude de respeito e em pé de igualdade, e não com a ajuda de soldados e da força, como pregavam outros missionários. Infelizmente, esta última forma de missão era exatamente a que tinha sido feita na China desde o final do século XIX, o que também resultou na posterior suspensão do cristianismo no século XX e nos ressentimentos que muitos chineses instruídos têm para com a religião até mesmo na atualidade.
3) A língua. Ricci foi um dos antepassados na constituição do sistema fonético para os caracteres chineses usando o alfabeto latino, e o sistema Pinyin atualmente em uso é um dos resultados que se desenvolveram a partir dos esforços dele. Muitos termos chineses na matemática, na religião cristã, etc. foram cunhados por ele e seus colaboradores.
4) A sinologia. Ao mesmo tempo em que apresentava a civilização ocidental à China, a tradução de clássicos chineses feita por Ricci criou uma oportunidade para que os ocidentais conhecessem a China real. Diferentemente de Marco Polo, a apresentação da China feita por Ricci não se baseava apenas no que ouviu dizer.

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