Edição 344 | 21 Setembro 2010

Ciências, um conhecimento sempre inacabado

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges

Vera Portocarrero analisa o surgimento das ciências da vida, contemporâneas das ciências empíricas do século XIX. Para Foucault, aponta, as ciências da vida têm relação indiscutível com o contexto político do capitalismo

Longe de serem uma verdade universal, adequadas a objetos “naturais”, as ciências são concebidas como “processo de produção de conhecimento sempre inacabado”, pondera a filósofa Vera Portocarrero na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. Sobre o surgimento das ciências da vida, em específico, ela explica que estas aparecem no contexto das ciências empíricas, “possível somente no início do século XIX, a partir de uma mudança radical no modo de conhecer o vivo; a partir do afastamento do cartesianismo, fundamento da filosofia e das ciências clássicas, inclusive a história natural, destes conhecimentos analíticos que se passam no nível da representação, cujos objetos são representações a serem ordenadas, nomeadas, classificadas”. Segundo ela, Foucault afirma que as ciências da vida têm imbricação direta com o “contexto político do capitalismo, da normalização e da medicalização da sociedade, situando-se como peças de relações de poder, de agenciamentos concretos, de dispositivos de segurança”. O tema foi objeto da conferência O surgimento das ciências da Vida, ministrado por Vera em 14-09-2010, dentro da programação do XI Simpósio Internacional IHU: o (des)governo biopolítico da vida humana.

Professora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Vera é graduada e mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio, com a dissertação Arquivos da loucura. Juliano Moreira e a descontinuidade histórica da psiquiatria (Rio de Janeiro: Fiocruz, 2002). É doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ com a tese O Dispositivo da Saúde Mental: Uma Metamorfose na Psiquiatria Brasileira. Organizou as obras Filosofia, História e Sociologia das Ciências: Abordagens Contemporâneas (3. ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2002) e Retratos de Foucault (2. ed. Rio de Janeiro: Contracapa, 2004). É autora de As ciências da vida. De Canguilhem a Foucault (Rio de Janeiro: Fiocruz, 2009).

Confira a entrevista.


IHU On-Line - O que podemos compreender por ciências da vida?

Vera Portocarrero -
Há um leque de compreensões possíveis - desde a de sistema teórico e neutro, comprovado por experimentação, até a de prática política. Este leque diz respeito às várias formas de analisar a biologia, a fisiologia, a anatomia patológica, integrantes do quadro geral das ciências da vida. Considero muito interessantes as concepções históricas da epistemologia de Canguilhem  e seu vitalismo (incontornável no momento de formação de uma ciência irredutível à física e à química), da arqueologia e da genealogia de Foucault que as concebe como saberes constituídos numa relação de imanência com os poderes, correlacionando-as com os conceitos de vida, morte, norma, relações de forças, governo e biopolítica. Também as de Bruno Latour , como a da microbiologia, como relações de forças múltiplas, simétricas, humanas e não-humanas, ex. Pasteur  e os micróbios. As ciências são concebidas como processo de produção de conhecimento sempre inacabado, não como verdade universal nem como adequação a objetos “naturais”. A epistemologia e a arqueologia as compreendem como ciências empíricas que só se constituíram com o surgimento do conceito de vida, no início do século XIX, ao se formar a noção de objeto concreto, com existência própria e externa ao conhecimento. A arqueologia as define - no nível de sua positividade que é o das condições de possibilidade de sua existência - como saber co-extensivo à filosofia, às outras ciências empíricas (economia e filologia) e às ciências humanas, só constituídas na modernidade; dentre estas condições de possibilidade, situam-se condições políticas, o que permite a Foucault considerá-las como produção a ser investigada em termos dos efeitos operados sobre os indivíduos e as populações.


IHU On-Line - Qual é o contexto do seu surgimento?

Vera Portocarrero -
Restringindo-o ao contexto epistemológico para relacioná-lo com o político, podemos dizer, com Foucault, que se trata de um contexto de ruptura nos níveis do saber e do poder. Ruptura entre o poder soberano e o da modernidade; entre o saber da época clássica (história natural, estudo dos seres vivos, e medicina das espécies ideais) e o da modernidade (biologia, estudo da vida, e medicina clínica). É no contexto do surgimento das ciências empíricas, possível somente no início do século XIX, a partir de uma mudança radical no modo de conhecer o vivo; a partir do afastamento do cartesianismo, fundamento da filosofia e das ciências clássicas, inclusive a história natural, destes conhecimentos analíticos que se passam no nível da representação, cujos objetos são representações a serem ordenadas, nomeadas, classificadas. A história natural não pode se constituir, progressivamente, como biologia. Pois, até o final do século XVIII, não existem nem a noção de vida como objeto empírico, nem a própria noção de objeto empírico. Existem apenas as representações: os seres vivos são representações, espécies ideais.


Saber fraturado

Na modernidade, seu primado é contornado; com Kant , a uniformidade do saber clássico é fraturada em dois níveis: o empírico, das ciências empíricas, e o transcendental, da filosofia. É no contexto desta fratura que surge o objeto das ciências da vida que é empírico, pesquisado como mecanismo e como função dos organismos, com leis próprias e um espaço interno próprio que é exterior à representação. A função é invisível e será definida a partir do efeito produzido pelos órgãos. Esta mudança é coetânea de uma mudança no olhar médico e científico: do olhar voltado para diferenças justapostas às identidades visíveis dos seres vivos, passa-se para o olhar moderno dirigido a elementos sem identidade visível, ligados por uma unidade funcional que sustenta o organismo em segredo – a vida. Segundo Foucault, as ciências da vida ligam-se cada vez mais ao contexto político do capitalismo, da normalização e da medicalização da sociedade, situando-se como peças de relações de poder, de agenciamentos concretos, de dispositivos de segurança, cujo alvo é a gestão da vida dos indivíduos e da população tomados como entidades biológicas, por meio da inserção controlada dos corpos no aparelho de produção e de um ajustamento dos fenômenos de população ao exercício do poder, que não é mais do tipo soberano.


IHU On-Line - Em que aspectos a obra de Foucault dialoga com as ciências da vida?

Vera Portocarrero -
O principal aspecto resume-se na relação, por ele estabelecida, do campo biomédico com o político, a partir da qual questiona a medicalização e a normalização efetuadas em nossa sociedade. Esta relação fornece importante fundamentação (arqueológica e genealógica) para uma crítica tanto ao pensamento antropológico da modernidade, centrado no conceito moderno de homem, quanto ao biopoder em seu caráter de agenciamento biomédico-jurídico e de governamentalidade. Esta relação é estabelecida, principalmente, a partir de algumas hipóteses: que as ciências do homem são um prolongamento das ciências da vida, porque se fundam biologicamente; que os conceitos biológicos não são pensados apenas por meio da estrutura interna do ser vivo organizado, mas se articulam com dispositivos de poder diretamente ligados a processos fisiológicos; que o nível biológico e o histórico se ligam, de acordo com uma complexidade crescente, à medida que se desenvolveram tecnologias modernas de poder, cujo alvo é a gestão da vida dos indivíduos e da população, e que se ampliaram em práticas patológicas de poder de morte (holocaustos, racismos). Trata-se de um diálogo crítico interessado em pontos de resistência possível e de práticas políticas inovadoras.


IHU On-Line - Em que sentido esse pensador propõe uma nova compreensão sobre o normal e o patológico?

Vera Portocarrero -
De um modo geral, no sentido de crítica à normalização e à medicalização, que integra seu projeto de crítica da atualidade cuja meta é constituir-se em contra-poder. Para ele, as formas de poder que se exercem em nossa sociedade ligam-se à sua medicalização, estabelecendo uma distinção permanente entre o normal e o patológico; são práticas de restituição do sistema de normalidade, que operam por meio de uma função médico-política, que estende indefinidamente os limites de intervenção do saber médico, a partir do surgimento do problema da saúde em diferentes pontos da sociedade. De um modo muito específico, no sentido em que esta crítica se refere à normalização, atacada por ele e por Canguilhem, do ponto de vista dos procedimentos das ciências da vida e de uma medicina positivistas. Trata-se da inversão do pressuposto médico que privilegia o normal, considerando a doença um desvio de normas fixas, que seriam as constantes. Neste sentido, podemos pensar numa nova compreensão, afastada da prática médica hegemônica que busca estabelecer cientificamente estas normas, para seguir a teoria e trazer de volta ao estado de saúde, de normalidade, o organismo doente, através do restabelecimento da norma.

Como explica Foucault, parece que essa patologia baseada na normalidade caracterizou, durante muito tempo, todo o pensamento médico. E ele ressalta, a partir de O Normal e o Patológico de Canguilhem, que a normatividade – a instituição de novas normas – é própria do ser vivo, é constitutiva da vida. A normalidade consiste, assim, na capacidade de adaptação, de variação, do organismo às mudanças circunstanciais do meio externo e interno que, por sua vez, é variável. A normalidade é a própria capacidade de normatividade. A doença, ao contrário, é uma redução a constantes. O que caracteriza a saúde é a possibilidade de transcender a normalidade, de tolerar as infrações da norma habitual e instituir novas normas em situações novas.


Leia mais...

>> Confira outra entrevista concedida por Vera Portocarrero à IHU On-Line.

* Foucault e a antipsiquiatria, um vínculo possível. Edição número 13, Cadernos IHU Ideias, de 03-01-2007

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição