Edição 344 | 21 Setembro 2010

Práticas xamanísticas nas missões

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Patricia Fachin

De acordo com a historiadora Eliane Fleck, conscientes dos efeitos que as curas exerciam sobre os indígenas, os jesuítas adotaram estratégias de apropriação de saberes para garantir a devoção e piedade cristãs por eles almejadas

Quando tiveram conhecimento das práticas terapêuticas xamanísticas, os missionários jesuítas as condenaram, “ressaltando sua inadequação, em decorrência do caráter demoníaco e mágico-supersticioso implícito nos rituais de cura”, explica a historiadora Eliane Cristina Deckmann Fleck, à IHU On-Line. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ela esclarece que a perseguição que os missionários empreenderam aos xamãs “devem ser compreendidas como uma disputa de saberes e poderes, pelo controle do universo místico-simbólico, bem como da capacidade de manipulação das curas e não-curas”.
Eliane Cristina Deckmann Fleck ressalta também que a negociação e aproximação “entre ‘modos de percepção e intelecção’ cristãos-ocidentais e indígenas (...) garantiu o êxito da experiência missioneira junto aos guarani”. Segundo ela, foi em razão deste modo de proceder jesuítico que “os guarani conseguiram salvaguardar – no espaço reducional – as manifestações tradicionais de sua espiritualidade”.
O tema xamanismo guarani e práticas de cura nas missões será apresentado pela professora Dra. Maria Cristina dos Santos, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, na próxima quinta-feira, 23-9-2010, às 19h30min, na sala Ignacio Ellacuría e Companheiros - IHU. O evento faz parte do Ciclo de Palestra Jogue Roayvu: História e Histórias dos Guarani. Pré-evento do XII Simpósio Internacional IHU: A Experiência Missioneira: território, cultura e identidade.

Eliane Cristina Deckmann Fleck é graduada e mestre em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Cursou doutorado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, com a tese Sentir, adoecer e morrer – sensibilidade e devoção no discurso missionário jesuítico do século XVII. Ex-coordenadora do curso de História da Unisinos, é docente na mesma universidade.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual a reação dos jesuítas diante das crenças e práticas curativas empregadas pelos guarani no período das reduções jesuíticas?

Eliane Cristina Deckmann Fleck - A reação inicial dos missionários foi de condenação das práticas terapêuticas xamanísticas, ressaltando sua inadequação, em decorrência do caráter demoníaco e mágico supersticioso implícito nos rituais de cura. Os registros jesuíticos, contudo, nos revelam que práticas terapêuticas que previam presságios, o uso de relíquias, rezas, ervas, sopros e sucções, condenáveis quando executadas pelos xamãs, foram largamente aplicadas pelos missionários nas reduções com uma justificativa igualmente mágico-religiosa. Estes, assim como os xamãs, valiam-se da imaginação e do misticismo dos indígenas para que, em situações de epidemias, os sintomas fossem amenizados e houvesse a predisposição para a cura. Considerando que alguns dos procedimentos terapêuticos e, em especial, as plantas medicinais, não sofreram a contestação dos missionários, constata-se que, ao longo do século XVII e da primeira metade do século XVIII, ocorreu uma apropriação cada vez maior da farmacopeia nativa (ervas, resinas e folhas) e das terapêuticas curativas empregadas pelos indígenas, como nos casos dos ferimentos expostos, das otites e conjuntivites decorrentes da varíola. O crescente emprego da farmacopeia indígena na cura de determinadas doenças não só ampliou as possibilidades de manipulação das curas pelos missionários, como reduziu, significativamente, o caráter depreciativo e condenatório inicialmente atribuído a ela. Além disso, revela que, conscientes dos efeitos que as curas e a condução da “boa morte” – em face da não-cura – exerciam sobre os indígenas, os jesuítas não hesitaram em adotar estratégias de apropriação de saberes que garantissem a devoção e a piedade cristãs por eles almejadas.

IHU On-Line - E como os guarani reagiram diante do processo de inculturação religiosa proposto pelos jesuítas?

Eliane Cristina Deckmann Fleck - As referências feitas aos xamãs – líderes espirituais dos guaranis – na documentação jesuítica setecentista se caracterizam pela sua caracterização como sacerdotes do Diabo, ministros do Demônio. Em razão disso, a contestação e perseguição que os missionários empreenderam aos xamãs (hombres–dioses) que profieren amenazas apocalípticas, como escreveu Haubert, devem ser compreendidas como uma disputa de saberes e poderes, pelo controle do universo místico-simbólico, bem como da capacidade de manipulação das curas e não-curas. Desacreditada e afastada esta ‘ameaça’ – materializada nos movimentos xamanísticos de resistência – ao projeto de civilização-conversão, os missionários dedicaram-se a estratégias de negociação e à aproximação entre “modos de percepção e intelecção” cristãos-ocidentais e indígenas, o que garantiu o êxito da experiência missioneira junto aos guarani. Foi, também, em razão desta aplicação efetiva do “modo de proceder” jesuítico que os guarani conseguiram salvaguardar – no espaço reducional – as manifestações tradicionais de sua espiritualidade, como fica demonstrado na ressignificação do chorar copioso e dos lamentos fúnebres que conformaram, de maneira peculiar, a sensibilidade religiosa própria das reduções jesuítico-guaranis.

IHU On-Line - Em que medida o medo da não-cura, da morte e dos mortos foram essenciais no processo de conversão dos guarani ao cristianismo?

Eliane Cristina Deckmann Fleck - A introdução e a propagação de doenças desconhecidas afetaram intensamente a dinâmica populacional guarani, provocando a desestruturação e a desterritorialização tribal que levou à desnutrição, às mudanças de dieta que, por sua vez, produziram novos distúrbios de saúde devidos à fome ou à introdução de novos alimentos. Enquanto resultantes do contato, as epidemias colocaram, portanto, os guarani frente a uma necessária reformulação de atitudes diante da doença e da morte. As doenças trazidas pelos espanhóis colocaram, portanto, estes indígenas frente a uma necessária reformulação, não somente de percepções, mas também de práticas, o que pode ser observado tanto no Tesoro de la Lengua Guarani, quanto no Bocabulário de la Lengua Guarani, organizados pelo Pe. Antônio Ruiz de Montoya , e que registram, entre outras, as expressões ligadas às doenças, às epidemias e às reações dos guarani frente às suas desastrosas consequências. As epidemias, definidas como peste ou enfermedad pelos jesuítas, foram denominadas pelos guarani como mbaba, taçi ai, maraa, mbae açi. Entre as doenças epidêmicas, destacam-se: tepotí ugui ou tepoti pyta = camaras de sangre/desinteria; mbirua = ampollas/sarampo; acanundu yrundi ara – naboguara = quartãns/malária. Como expressões reveladoras da percepção e dos efeitos das epidemias destacamos: nache mo amongueri taci = “a enfermidade levou minha gente”; chembotiabo mbar raci = “a enfermidade acabou com a minha gente”; y pichibi tabaa oupa hacipabamo = “está a aldeia espantada com tantos enfermos”; mbae aci oqui rucu ore rehe = “chove a enfermidade sobre nós”.
Cabe observar que em alguns registros os padres admitem que as doenças não decorriam, exclusivamente, da divina justicia, mas que “a consecuencia de la transmigración y el cambio de clima aparecieron frecuentes dolencias en el pueblo”, oportunidade para “experimentalismos”, como na referência a que “aplicaron las medicinas del campo de aquella región, pero sin ningún resultado”, e ainda para recrutar enfermeiros entre os índios sãos, “para investigar si los había [enfermos] en las casas, campos y selvas” e vigiar “contra la antigua superstición de los hechiceros” (Maeder , 1984, p. 88). Várias são as passagens das Cartas Ânuas que ilustram o senso de observação prática dos missionários e a relação que eles estabeleceram entre as doenças e as condições de assentamento das populações indígenas. A cura das epidemias e a oferta de alimentos e segurança diante da expansão das frentes de conquista são, em razão disso, apresentadas como determinantes para a permanência dos guarani nas reduções e para o abandono das antigas práticas.

IHU On-Line - Quais as diferenças entre os guarani pré-cristãos e os cristãos?

Eliane Cristina Deckmann Fleck - Alguns registros jesuíticos do século XVII, referentes à Província Jesuítica do Paraguai, permitem dimensionar as alterações introduzidas pelos missionários, em relação, especialmente, aos rituais funerários, evidenciadas na referência aos andores, ao cortejo, à mortalha e às louvações. Através desses relatos, percebe-se a normatização que passou a orientar os rituais fúnebres, destinada a introduzir procedimentos sucedâneos de práticas rituais anteriores, como na clara referência à substituição das “lamentações fúnebres” no cortejo em direção à igreja, pela louvação a Deus. Nas reduções – de acordo com estes mesmos registros –, as expressões da sensibilidade guarani diante da morte assumiram uma uniformidade e publicidade bastante distantes das espontâneas manifestações originais. Algumas das descrições, no entanto, apontam para a sobrevivência de determinadas práticas rituais tradicionais guaranis, pois, apesar de os enterros nas reduções ocorrerem ao final da tarde – como recomendado pelos missionários –, o cortejo fúnebre era acompanhado de “rezos y cantos de los músicos, pero también ‘desentonados’ lamentos de indias viejas – antigua costumbre que muchos años de misión no han podido desarraigar – y en los que lloran y elogian al difunto por lo que ha sido ya hecho o al menos por lo que hubiera podido hacer y hubiera podido ser, de haber seguido viviendo.” (Melià, 1986, p. 207). Vale ressaltar, ainda, que o uso recorrente nas Ânuas de expressões como “con que se van aficcionando a las cosas de nra. santa fé”, “q. Dios le havia sanado por medio del sto. baptismo” e “con mucha fe i devoción”, mais do que revelar a estreita relação entre cura e conversão, refletem a aceitação dos novos saberes e terapêuticas curativas pelos indígenas, sem, no entanto, promover a descaracterização do componente mágico tradicional próprio da terapêutica guarani.

Leia mais...
>> Eliane Cristina Deckmann Fleck já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Elas estão disponíveis no sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br).
• Hans Staden: um tupinambá? Edição 212, intitulada Rock ’n’ Roll na Veia, de 19-03-2007;
• A psicologia do povo brasileiro. Edição 205, de 20-11-2006, intitulada Raízes do Brasil. 70 anos interpretando o Brasil.
• Adoecer: Morrer ou Viver? Reflexões sobre a cura e a não-cura nas reduções jesuítico-guaranis (1609-1675). Cadernos IHU Ideias n° 66, de 2007.

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