Edição 344 | 21 Setembro 2010

Vontade antropotécnica e biopolítica

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Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

O filósofo Fabián Ludueña relaciona a vontade antropotécnica e a biopolítica, questionando se, ao invés de uma biopolítica, não está surgindo uma nova ordem política mundial

A antropotécnica é um conjunto de “técnicas mediante as quais as comunidades da espécie humana e os indivíduos que a compõem atuam sobre sua própria natureza com o fim de guiar, expandir, modificar ou domesticar seu substrato biológico com vistas à produção daquilo que, primeiro, a filosofia e logo as ciências biológicas e humanas costumam denominar ‘homem’”. A explicação é do filósofo argentino Fabián Ludueña, professor da Universidade de Buenos Aires - UBA, na Argentina. Em sua opinião, “se a memória for dissociada de uma reflexão sobre a temporalidade, corremos o risco de submeter-nos a uma visão distorcida de um presente centrado sobre si mesmo. Neste sentido, a memória só pode ser produtiva quando se torna não só a memória do vivido ou do passado nacional ou étnico, senão também uma forma de memória ancestral, unicamente acessível ao que me agrada denominar a ultra-história das culturas”. Ludueña acentua que precisamos nos perguntar se o “destino das sociedades contemporâneas está marcado pela problemática biopolítica ou, se pelo contrário, não estaria se configurando, no solo do nosso presente, uma nova ordem política mundial, na qual a noção mesma de vida está sofrendo inelutáveis transformações que podem conduzir até sua superação, pelo menos nas formas tradicionais em que as temos conhecido”. As declarações podem ser conferidas na íntegra na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, debatendo aspectos apresentados no minicurso A vontade antropotécnica: a teologia política cristã e o nascimento da ordem biopolítica moderna, ministrado por Ludueña em 16-09-2010, dentro da programação do XI Simpósio Internacional IHU: o (des)governo biopolítico da vida humana.

Fabián Ludueña é licenciado em Sociologia pela UBA, mestre e doutor em História da Civilização pela École des Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris - EHESS com a tese Théologie politique et théologie économique chez Marsile Ficin (1433-1499). É autor de Homo Oeconomicus. Marsilio Ficino, la teología y los misterios paganos (1433-1499) (Madri: Miño y Dávila Editores, 2007).


Confira a entrevista.


IHU On-Line - O que podemos entender por vontade antropotécnica?

Fabián Ludueña -
Trata-se de um conceito que, em muitos sentidos, define melhor o meu trabalho do que o de biopolítica. Entendo com ele as técnicas mediante as quais as comunidades da espécie humana e os indivíduos que a compõem atuam sobre sua própria natureza com o fim de guiar, expandir, modificar ou domesticar seu substrato biológico com vistas à produção daquilo que, primeiro, a filosofia e logo as ciências biológicas e humanas costumam denominar “homem”. O processo de hominização e a própria história da espécie Homo sapiens até a atualidade coincide, então, com a história das antropotecnologias (econômicas, sociais, educacionais, jurídico-políticas, éticas) que buscaram, incessantemente, fabricar o humano como ex-tasis da condição animal.


IHU On-Line - Qual é a relação entre a teologia política cristã e o nascimento da ordem biopolítica moderna?

Fabián Ludueña -
Sem dúvida, de modo muito geral, podemos dizer que o messianismo cristão dos primeiros tempos fez frente ao problema da lei e da instauração de uma comunidade política de ordem absolutamente inédita até esse momento, através da colocação em jogo do conceito de zoé aionios, de vida eterna. Em consequência, por meio desta noção revolucionária, todos os conceitos políticos do mundo romano se viram alterados em função da aparição de uma nova concepção da relação entre o direito e a vida, que impregnará o destino das sociedades ocidentais até a atualidade.


IHU On-Line - Em que medida a memória se torna importante dentro desse cenário biopolítico?

Fabián Ludueña -
As práticas da memória têm sido fundamentais por um sem-número de razões, sobretudo a partir das experiências políticas do século XX. Sem embargo, há certo perigo no auge do “momento memorialístico” que estamos experimentando na atualidade, caso este se realize sem o respaldo nos saberes histórico-filosóficos que desenvolveram metodologias e formas de aproximação ao passado que, necessariamente, se constroem segundo uma dialética diferente daquela da memória. Se a memória for dissociada de uma reflexão sobre a temporalidade, corremos o risco de submeter-nos a uma visão distorcida de um presente centrado sobre si mesmo. Neste sentido, a memória só pode ser produtiva quando se torna não só a memória do vivido ou do passado nacional ou étnico, senão também uma forma de memória ancestral, unicamente acessível ao que me agrada denominar a ultra-história das culturas.


IHU On-Line - Em que aspectos a moderna biopolítica é preponderante na constituição da subjetividade do moderno sujeito?

Fabián Ludueña -
Os trabalhos de Michel Foucault mostraram até que ponto a governabilidade biopolítica tem estado no centro das preocupações dos Estados modernos. Neste sentido, tanto o governo das populações como o governo de si mesmo, a política e a ética dos modernos, sempre estiveram modelados segundo um esquema que seculariza, um modelo teológico-político próprio do cristianismo. Sem dúvida, o verdadeiro desafio consiste em perguntar-nos se verdadeiramente o destino das sociedades contemporâneas está marcado pela problemática biopolítica ou, se pelo contrário, não estaria se configurando, no solo do nosso presente, uma nova ordem política mundial, na qual a noção mesma de vida está sofrendo inelutáveis transformações que podem conduzir até sua superação, pelo menos nas formas tradicionais em que as temos conhecido.


IHU On-Line - Que relações estabeleceria entre o biopoder e a normalização dos sujeitos? Rumamos a uma sociedade que, cada vez mais, apaga as diferenças de cada pessoa, homogeneizando-as?

Fabián Ludueña -
As tendências normalizadoras próprias das sociedades disciplinares e biopolíticas da modernidade constituem, sem dúvida, uma parte importante da deriva atual do biopoder. Porém, ao mesmo tempo, não creio que seja possível afirmar que estamos simplesmente frente a um poder homogeneizante. Junto com este, convivem formas de diferenciação e zonas de singularização que são parte do esquema político das sociedades atuais. As formas de vida proliferam em sua luta contra os dispositivos que produzem certos modos de homogeneidade através dos meios massivos de comunicação, os quais somente agora começam, talvez ainda muito timidamente, a abandonar sua pré-história informacional para adentrar-se em novas e insuspeitadas formas de politização. Apesar disto, provavelmente estejamos frente a um sistema político global que produz elites diferenciadas – tanto ao nível dos saberes como dos hábitos de vida – e massas cada vez mais amplas de população lançadas fora de todo sistema econômico-político. A expulsão dos excluídos gera, sem dúvida, um cenário que atuará como fermento de futuros conflitos e violências, na medida em que avançar este século.

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