Edição 341 | 30 Agosto 2010

Congresso Latino-Americano de Teologia: uma análise da situação sociorreligiosa-eclesial atual

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Greyce Vargas

“Em tempos de profundas transformações e de crise em todos os campos, sem dúvida, um grande desafio, diante do medo em arriscar criar o novo, é não fazer do passado um refúgio”, aponta o teólogo Agenor Brighenti

O ano de 2012 é significativo para a Igreja na América Latina. “São os 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II, pelo Papa João XXIII (11 de outubro de 1962) e os 40 anos da publicação da obra de Gustavo Gutiérrez, Teología de la liberación. Perspectivas (Lima: Centro de Estudios y Publicaciones, 1971), que inaugura a rica trajetória da teologia em nosso Continente”, explica Agenor Brighenti durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line, por e-mail. É por isso que acontece em 2012 o Congresso Continental de Teologia com o objetivo de analisar a situação sociorreligiosa-eclesial atual do continente.
“A definição do local foi fruto de um longo e difícil discernimento. Dado o momento eclesial que vivemos, sobretudo da Igreja Católica, não é em qualquer país que é possível realizar um evento com a agenda e a metodologia do Congresso”, justifica Brighenti. Foi por este motivo que o Brasil e, mais precisamente o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, sediará o evento. “A academia precisa de autonomia para pensar e de liberdade para criar, o que nem sempre, infelizmente, estão presentes em muitos espaços eclesiais nos diferentes países do Continente”, disse.

Agenor Brighenti é licenciado em Filosofia e graduado em Teologia pela Universidade do Sul de Santa Catarina. É especialista em Pastoral Social e Planejamento Pastoral pelo Instituto Teológico-Pastoral do Celam e doutor em Ciências Teológicas e Religiosas pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica). Atualmente, é professor no  Programa de Pós-graduação em Teologia da PUC-Paraná.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que contexto eclesial se dará o Congresso Continental de Teologia?

Agenor Brighenti – A V Conferência dos Bispos da América Latina , realizada em Aparecida do Norte no ano de 2007, deu um novo impulso à tradição latino-americana, tecida em torno à “recepção criativa” do Concílio Vaticano II. Sem dúvida, o principal avanço de Aparecida foi muito mais do que ter evitado um retrocesso, na perspectiva do atual processo de “involução eclesial” no seio do catolicismo, que vem desde os anos 1980. Este momento resgatou o Vaticano II em suas intuições básicas e eixos fundamentais, assim como o “rosto latino-americano”, plasmado em torno às Conferências anteriores.
Diante deste momento novo na Igreja, pareceu bem à Ameríndia convidar outros segmentos e instâncias da Igreja no Continente e juntar esforços na convocação de um Congresso Continental de Teologia. É um momento oportuno para mobilizar a comunidade teológica ligada à teologia latino-americana da libertação, depois de anos particularmente difíceis, marcado por tensões, desencanto, falta de perspectivas, dispersão e inclusive por certa desmobilização dos teólogos e teólogas.

A decisão de realizar este Congresso Continental de Teologia no ano de 2012 deve-se ao fato de ser um ano muito significativo para a igreja na América Latina. São os 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II , pelo Papa João XXIII  (11 de outubro de 1962) e os 40 anos da publicação da obra de Gustavo Gutiérrez , Teología de la liberación. Perspectivas (Lima: Centro de Estudios y Publicaciones, 1971), que inaugura a rica trajetória da teologia em nosso Continente.

Estes dois referenciais comemorativos dão a ótica do evento: reler, desde o novo contexto em que vivemos, a tradição latino-americana, tecida em torno da “recepção criativa” do Vaticano II, das práticas das comunidades eclesiais inseridas num contexto de injustiça social, da centralidade da Palavra e da leitura popular da Bíblia; também em torno da opção pelos pobres, do testemunho dos mártires das causas sociais e de nossa peculiar reflexão teológica, em perspectiva libertadora.

IHU On-Line – O senhor pode nos explicar o que é esse Congresso? Quais são os principais objetivos dele?

Agenor Brighenti – A finalidade primeira do Congresso não é fazer balanço da trajetória da teologia na América Latina. Em grande medida, esta difícil e importante tarefa já foi feita em diversos congressos nacionais e internacionais, nos últimos anos. O que mais urge na atualidade é voltar nosso olhar para o futuro, ousar olhar longe e, portanto, a oportunidade de um congresso prospectivo. É importante que se pergunte sobre os desafios e tarefas futuras da teologia na América Latina, desde nosso novo contexto cultural, social, político, econômico, ecológico, religioso e eclesial, globalizado e excludente.
Para isso, o Congresso Continental de 2012 quer propiciar uma análise da situação sociorreligiosa-eclesial no momento atual, para que, a partir da identificação dos novos desafios, a Inteligência da fé não perca de vista o “real da realidade” de nossos povos e continue sendo instância retroalimentadora das comunidades eclesiais, inseridas no mundo em perspectiva libertadora.

IHU On-Line – Quais são as respostas que o Vaticano tem dado às questões da América Latina?

Agenor Brighenti – A tradição latino-americana é herdeira do Vaticano II. Mais do que “ponto de chegada”, o Vaticano II para a Igreja na América Latina foi um “ponto de partida”. Em suas inovações, a Igreja da América Latina não rompe com o Concílio, apenas faz desdobramentos de suas intuições básicas e eixos fundamentais. O Vaticano II continua inspirando nossa Igreja e respondendo a nossos desafios. Como ilustração disso, podemos fazer menção às raízes de alguns dos traços do rosto próprio de nossa Igreja.
Por exemplo:

a)    o Concílio concebe a Igreja como Povo de Deus, a comunidade dos batizados, na comunhão da radical igualdade em dignidade de todos os ministérios; para a Igreja na América Latina, só há Igreja-comunidade em pequenas comunidades e a forma mais adequada de se fazer uma real vivência da fraternidade cristã é no seio de comunidades eclesiais de base, inseridas profeticamente no mundo;
b)    o Vaticano II, ao afirmar a base laical da Igreja, fundada no tríplice ministério da Palavra, da Liturgia e da Caridade, faz da comunidade dos fiéis o sujeito eclesial; Medellín verá a Igreja, toda ela e em cada um de seus membros, sem distinção, como os sujeitos da missão evangelizadora;
c)    o Vaticano II, na perspectiva de João XXIII,  propõe “uma Igreja dos pobres para ser a Igreja de todos”; para Medellín não basta uma Igreja “dos pobres”, é preciso uma “Igreja pobre”, solidária com sua situação e comprometida com sua causa, de um mundo onde caibam todos;
d)    o Vaticano II, rompendo com uma fé metafísica e abstrata, fala de Deus e partir do ser humano e busca servir a Deus, servindo o ser humano; para a Igreja na América Latina, optar pelo ser humano, dado o contexto marcado por escandalosa exclusão da maioria, que são os preferidos de Deus, significa optar antes pelos pobres, pois se trata de promover a fraternidade de todo o gênero humano;
e)    o Vaticano II, superando o eclesiocentrismo, afirma que a Igreja, ainda sem ser deste mundo, está no mundo, existe para ser mediação de salvação do mundo e, portanto, precisa inserir-se no mundo; a Igreja na América Latina se perguntará: a Igreja deve inserir-se no mundo, mas dentro de que mundo? Do mundo dos incluídos ou dos excluídos para promover um mundo inclusivo de todos? Por isso, além da opção pelo sujeito social – o pobre –, a missão evangelizadora em vista da salvação, já na história, e que passa pela construção de uma sociedade justa e solidária, implica igualmente a opção pelo lugar social dos pobres.

E, assim, poderíamos continuar fazendo a lista dos pontos de chegada do Concílio, que a Igreja na América Latina fez e precisa continuar fazendo ponto de partida.

IHU On-Line – A Teologia da Libertação ainda é atual na América Latina? Que teologia surge no atual contexto da América Latina?

Agenor Brighenti – A eclosão de uma nova consciência na Igreja da América Latina é o resultado de uma nova sensibilidade da fé em relação com a situação política e social. Era preciso dar resposta a uma pergunta crucial: como ser cristão nesse contexto de opressão e de injustiça. A Teologia da Libertação  (TdL) seria incompreensível fora destas circunstâncias. Antes de qualquer elaboração mais sofisticada, ela foi necessidade vital de pensar teologicamente a experiência viva e concreta da comunidade eclesial. De uma experiência que era, ao mesmo tempo, experiência de Deus e responsabilidade pela realidade humana e social. Mais ainda, de uma tomada de consciência da situação social inseparável de uma experiência espiritual, isto é, de uma exigência de conversão provocada por uma finalidade maior ao Deus cristão, ao Deus que, em Jesus Cristo, se tinha feito carne e história humana. Essa foi a matriz da Teologia da Libertação, “momento segundo”, sem dúvida, mas indispensável como esforço reflexivo para iluminar essa complexa experiência.
A evolução posterior e, sobretudo, os embates aos quais foi submetida a TdL deixaram na penumbra este dado simples e, à primeira vista, sem grande importância, sem o qual, porém, é impossível compreender a originalidade desta teologia e interpretar algumas de suas características que só depois viriam a ser completamente explicitadas.
Em primeiro lugar, a vida da comunidade eclesial como lugar natural da teologia. Com isso, se afirmava não só que a teologia é inseparável da consciência viva da Igreja, mas a convicção reflexa de que a vida e a experiência de uma Igreja situada precedem a teologia. A TdL é uma teologia contextualizada original, não necessariamente pelo seu método e muito menos pelo seu produto final, mas antes pela experiência eclesial que a sustenta. O essencial deste paradigma teológico não é a teologia, mas a libertação, a experiência encarnada da fé. É a partir dali que nasce a teologia como inteligência da fé, de maneira deliberada, intencional e reflexa em, desde e para o contexto desta experiência de fé. Em última instância, a TdL inova em relação a outras teologias por mudar de lugar e de função.
Aqui está uma das grandes motivações da convocação deste Congresso, pois temos, cada vez mais, também na América Latina, uma teologia órfã de sociedade e de Igreja. Ora, nossa teologia não pode perder de vista seu novo lugar e sua nova função, para poder continuar sendo instância retroalimentadora das comunidades eclesiais inseridas, em perspectiva libertadora, num mundo que apresenta hoje novos desafios, que exigem novas respostas.

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