Edição 340 | 23 Agosto 2010

O desafio de retomar os mitos e reencantar o mundo a partir do Sumak Kawsay

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Moisés Sbardelotto | Tradução de Moisés Sbardelotto

Tatiana Roa Avendaño, ativista e ambientalista colombiana, defende que o sumak kawsay permite aos países latino-americanos retomar a utopia de que outros mundos são possíveis

Em contraponto a uma visão de mundo desencantada, colonizada e europeizada, o Sumak Kawsay, ou Bem-Viver, para os índios andinos, é a expressão de uma retomada de um horizonte de vida almejado por esses povos há milhares de anos.

Para ativista e dirigente ambientalista colombiana Tatiana Roa Avendaño, o Sumak Kawsay “nos desafia a estabelecer outras relações com a natureza e entre os seres humanos, a recuperar o diálogo que os povos tradicionais tiveram com a terra”. Por outro lado, é uma ética de vida que nos ajuda a “entender as identidades culturais dos diversos sujeitos sociais que integram esses países”.

Por isso, nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Avendaño afirma que a retomada dessa proposta ética nas Constituições da Bolívia e do Equador nos últimos anos é “o reconhecimento das propostas de atores sociais que tradicionalmente foram invisibilizados e deslegitimados pelas elites do poder” e que hoje “exigem seu reconhecimento e sua participação, defendendo assim o respeito à diferença do pensamento não ocidental”.

Ela explica que o paradigma ocidental – diferentemente do Sumak Kawsay – tem duas referências: o mito bíblico do Jardim do Éden e a visão aristotélica da Boa Vida. Porém, o Sumak Kawsay ou suma qamaña “desafia-nos a construir um novo paradigma civilizatório que nos leve a enfrentar as crises ambiental e social que a humanidade sofre”.

Na prática, defende, nos desafia a superar a ideia de homogeneização cultural que foi construída com a ideia de nação. Porém, ela nos deixa a pergunta: “Como conseguir isso?” Uma possível resposta encontra-se na superação da abstração, da separação e da oposição entre sujeito e objeto, entre fins e meios, que não existe na cosmovisão andina. Por isso, é preciso retomar os mitos, afirma Avendaño e reencantar o mundo, retomando a imaginação, a dependência mútua entre seres humanos e natureza, a afinidade, a interdependência.

Tatiana Roa Avendaño é engenheira, ativista e dirigente ambientalista colombiana. É membro da equipe de trabalho do CENSAT Agua Viva – Centro Nacional Salud Ambiente y Trabajo, em Bogotá, Colômbia, fundado em 1989, e da ONG Amigos de la Tierra Colombia. Também está vinculada à Universidad Andina Simón Bolívar (Equador), no Mestrado de Estudos Latino-Americanos – Política e Cultura. Como ambientalista, promoveu campanhas contra a exploração petroleira e a mineração, e em defesa da água, da vida e do patrimônio natural e cultural.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Quais são os aspectos centrais dos conceitos indígenas Sumak Kawsay (quéchua equatoriano) ou Suma Qamaña (aimará boliviano) e como surgem historicamente?

Tatiana Roa Avendaño –
O Sumak Kawsay, como fundamento das cartas constitucionais da Bolívia e do Equador, representa uma alternativa de repensar as relações entre os seres humanos e a natureza. Ele coloca-nos diante da encruzilhada de estabelecer um novo contrato social que recupere as relações éticas entre os seres humanos. O Viver Bem nos propõe um novo horizonte de vida, que não pode ser assumido a partir de uma noção monocultural.

Com a modernidade, as sociedades tradicionais foram desagregadas. Os Estados buscaram articular estas por meio de processos de cultura de massa, de processos de construção de Estados-nação, o que pressupôs a homogeneidade cultural. Porque, como nos propõe Renato Ortiz, “a modernidade não é apenas indústria, também é nação”.

O processo de modernização associado ao progresso e ao desenvolvimento, por sua vez sinônimo de vida boa no mundo ocidental, tem levado à urbanização da terra. A lógica moderna é a fábrica, é a cidade, e nela a pobreza, as favelas, a contaminação e a destruição da natureza. O bem-estar do Ocidente está associado à competição, à liberdade e ao indivíduo.

Perante essa realidade, o Sumak Kawsay nos desafia a estabelecer outras relações com a natureza e entre os seres humanos, a recuperar o diálogo que os povos tradicionais tiveram com a terra, mas também nos desafia a entender as identidades culturais dos diversos sujeitos sociais que integram esses países. De alguma forma, teríamos que superar a noção como foi assumida pelos cientistas sociais e os políticos assumiram. Estes idealizaram a existência de uma nação homogênea, na qual a diversidade estaria orgânica e, se possível, harmonicamente articulada ao todo.

IHU On-Line – O bem viver, recentemente, entrou no debate político sobre as Constituições do Equador e da Bolívia. O que significa o resgate dessa ideia no atual momento político e histórico da América Latina?

Tatiana Roa Avendaño –
As novas constituições da Bolívia (2007) e do Equador (2008) incorporaram o conceito de Viver Bem ou Sumak Kawsay como um eixo articulador de suas cartas magnas. Dessa forma, ele representa uma alternativa, pois propõe as relações entre os seres humanos e a natureza, propõe-nos um novo horizonte de vida e uma alternativa frente à noção monocultural da atual cultura ocidental.

A incorporação do Sumak Kawsay ou suma qamaña nessas constituições andinas é o reconhecimento das propostas de atores sociais que tradicionalmente foram invisibilizados e deslegitimados pelas elites do poder, que exigem seu reconhecimento e sua participação, defendendo assim o respeito à diferença do pensamento não ocidental. Há décadas, esses atores sociais têm demandado o reconhecimento dos territórios coletivos, de outros sistemas de crenças, de outras formas de administração da justiça, em geral, de outras formas de compreender e assimilar o mundo.

Sem dúvida, nesses países andinos, deu-se um passo importante: é a busca de setores tradicionalmente subalternizados que vêm fazendo rupturas para desocidentalizar e descolonizar o pensamento. No entanto, o que foi expressado nas novas constituições – a plurinacionalidade, o conceito de bem-viver – deve ser a base para a construção de alternativas, mas deve se fundamentar em um processo plural, e de forma alguma unidirecional. Não é possível uma única rota, nem um único ator. Deve ser um processo participativo, deve incluir a maior quantidade de setores.

O Sumak Kawsay no centro dos debates constitucionais de dois países andinos foi muito importante, dentre muitas outras coisas porque nos permitiu retomar a utopia de que outros mundos são possíveis.

IHU On-Line – O que o Bem-Viver pode nos ensinar em um momento de crise ambiental e climática? Qual relação com a natureza ele nos ensina a ter?

Tatiana Roa Avendaño –
É importante fazer a distinção e evidenciar as diferenças que existem entre os conceitos ocidentais de boa vida ou bem-estar e viver-bem, Sumak Kawsay ou suma qamaña dos povos ameríndios andinos.

O paradigma ocidental do Bem-Viver tem duas referências: o mito bíblico do Jardim do Éden e a visão aristotélica que liga a vida na cidade. Dessa forma, o conceito de viver bem no Ocidente estabelece diferenças substanciais com o paradigma do Bem-Viver andino.

A primeira e central delas é a separação que o Ocidente estabelece com relação à natureza. A boa vida de Aristóteles é concebida como desligada do mundo natural, é assumida como a vida na cidade, nas polis. Fora dela está o incivilizado, a vida do campo, da agricultura, a vida na floresta. É essa a concepção que tem aprofundado a crise ambiental atual.

A natureza não foi só domesticada, mas também transformada, manipulada, urbanizada, mercantilizada. Nada escapa dos circuitos do capital: a água, as florestas, os alimentos, a vida, os genes, a atmosfera. Os processos de destruição das bases naturais são tão agressivos que se está pondo em risco a própria existência da humanidade.

IHU On-Line – Em uma sociedade globalizada e mundializada, como o Bem-Viver entende a noção de alteridade e de comunidade?

Tatiana Roa Avendaño –
O Sumak Kawsay implica em rupturas importantes, de um lado porque nos propõe a necessidade de provocar profundas transformações nas relações sociais, mas também nas relações com a natureza. O bom viver ou viver bonito poderia contribuir para a articulação das alternativas que são construídas a partir das experiências das mulheres, dos índios, dos negros, dos agricultores e dos ambientalistas, mas também daquelas que são construídas a partir dos movimentos urbanos e de jovens, a partir dos trabalhadores e trabalhadoras, a partir do movimento pela diversidade, para que se possa superar a fragmentação e a setorização das propostas.

O Sumak Kawsay ou suma qamaña nos propõe um novo horizonte de vida, desafia-nos a harmonizar na realidade nossas relações com a natureza. Isto é, construir a partir daí um novo paradigma civilizatório que nos leve a enfrentar as crises ambiental e social que a humanidade sofre.

No caso equatoriano, a incorporação do bem-viver na constituição levou a uma espécie de transculturação de um conceito que, embora provenha das cosmovisões dos povos ameríndios andinos, foi introduzido na Constituição como “direitos do bom-viver e regime do bom-viver” (Título VII da Constituição Política). Isto é, ligado aos direitos liberais: acesso à água, ao alimento, ao trabalho, à saúde, ao meio ambiente sadio, à cultura, à informação e à comunicação, estabelecidos em acordos e tratados internacionais, como a carta dos direitos humanos universais e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, direitos de segunda e de terceira geração.

Mas, sem dúvida, o Sumak Kawsay não está sendo concebido de forma excludente ou pensado apenas para um único setor da sociedade. Ele foi incorporado levando em consideração essa diversidade. Na prática, ele nos desafia a superar a ideia de homogeneização cultural que foi construída com a ideia de nação. A pergunta é: como conseguir isso?

IHU On-Line – A modernidade ocidental tem provocado grandes mudanças no campo e na agricultura. Como entender a relação com a terra a partir do Bem-Viver?

Tatiana Roa Avendaño –
De acordo com a cosmovisão andina, vivemos em um mundo vivo e vivificante, um mundo de criação, onde cada um desfruta sua vida ao criar e deixar-se criar. Somos seres, famílias em permanente criação. Essa noção de vida é integral, complexa e holística, simbiótica. No mundo andino, não há lugar para a abstração, para a separação e para a oposição entre sujeito e objeto, entre fins e meios. Como disse o boliviano Javier Medina, “o mundo somos nós mesmos”.

No entanto, sobre essa noção de respeito e de compreensão da natureza e da vida como tecidos em permanente evolução, impôs-se a visão do Ocidente, que rompeu os fios entre natureza e cultura, natureza e sociedade, alma e corpo, céu e terra. O mecanicismo cartesiano substituiu a noção de mundo andino pela de uma máquina, e esta, de acordo com Capra, “tornou-se a metáfora dominante da era moderna”. Essa descrição mecânica da natureza tornou-se o paradigma dominante da ciência no período posterior a Descartes.

Com o Iluminismo, impôs-se a razão humana, com o propósito de combater a ignorância, a superstição e, com isso, libertar os seres humanos do medo, já que os espíritos e demônios nada mais são do que o reflexo de seres humanos que se deixam amedrontar pela natureza. A dissolução dos mitos significou o desencantamento do mundo, a derrubada da imaginação por meio da ciência.

A visão cartesiana do universo como um sistema mecânico outorgou uma permissão por meio da ciência para a manipulação e a exploração da natureza, que foi imposta pela cultura ocidental. O que o ser humano deve fazer é se adonar e possuir a natureza, e, para isso, o conhecimento científico seria determinante.

Ao contrapor céu e terra, alma e corpo, cultura e natureza, cimentou-se a espoliação sem limites da natureza. Ao romper-se a dependência mútua entre os seres humanos e a natureza, a afinidade foi transformada em antagonismo; a interdependência, em dominação.

Pelo contrário, o Suma Kawsay implica em uma estreita relação com a terra, com as fazendas onde florescem a vida e o alimento, com o cuidado e a criação dos animais com a festa no trabalho coletivo, no mutirão. O Sumak Kawsay andino está associado à vida em comunidade. A vida doce ou a vida bonita dos povos andinos nos propõe um mundo austero e diversificado, em equilíbrio com a natureza e com o mundo espiritual.

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