Edição 340 | 23 Agosto 2010

Erwin Kräutler

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Patricia Fachin

Acostumado com as altas temperaturas da Região Norte do Brasil, Dom Erwin Kräutler estranhou o frio na semana em que esteve no Rio Grande do Sul. O clima mais ameno, no entanto, não tirou a disposição de falar sobre temas que fazem parte de seu projeto de vida nos últimos 40 anos: defender os povos indígenas brasileiros e combater a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu. O bispo da prelazia do Xingu e presidente nacional do Conselho Indigenista Missionário – CIMI foi convidado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU a ministrar algumas palestras e, na ocasião, entre um chimarrão e outro, contou um pouco de sua história de vida à IHU On-Line. Confira.

O quadro de um índio Kayapó com sua mulher e filho, pendurado em uma parede da casa da família Kräutler, foi um dos primeiros contatos de Dom Erwin com o Xingu. Histórias dos indígenas brasileiros eram conhecidas por meio de cartas enviadas por seu tio, Dom Eurico Kräutler, seu antecessor na prelazia do Xingu, que vivia no Brasil e escrevia para família austríaca, relatando a realidade do país e contando os costumes e estilo de vida de um povo diferente. Foi assim que, ainda menino, Dom Erwin passou a ter um carinho especial pelas comunidades indígenas.
Erwin Kräutler nasceu em Koblach, na Áustria, poucos anos antes da Segunda Guerra Mundial e lembra, até hoje, do dia em que o pai foi chamado para ir ao front: “Ele colocou minha irmã e eu no braço, fez o sinal da cruz com água benta e, enquanto isso, a mãe, ao lado, chorava. Graças a Deus, voltou”.

Durante a infância, estudou em sua cidade natal. Na adolescência, ao fazer o exame de maturidade para ingressar na universidade, ele sabia que precisava tomar uma decisão sobre seu futuro, mas ainda não tinha certeza de sua vocação. Jovem ativo na comunidade, Erwin sempre era convidado a participar das festas, de grupos de teatro e tocava violão. Queria ser médico. Mas, por estar engajado com a juventude, pensava que deveria seguir a carreira de professor.

Com outros colegas, ajudou a formar a Juventude Católica Operária – JOC , embora nunca tenha trabalhado como operário. Sua família não tinha posses e ele se dedicava, além dos estudos, ao trabalho na roça e, nas férias do colégio, era ajudante de pedreiro. Foi nesta ocasião que começou a conhecer o ambiente operário. Ele conta que, na época, as fábricas têxteis tiveram um boom, pessoas de outras províncias da Áustria migraram para Koblach e a Juventude Operária Católica Operária teve a função de conquistar os imigrantes e inseri-los na comunidade. Essa atividade começou a despertar nele o interesse em se tornar padre, mas como ainda não tinha certeza de sua vocação, preferiu refletir sozinho. “Só contei para meus familiares no dia em que fiz o exame para ingressar na universidade. Os estudantes tinham o costume de pôr na lapela a cor do curso: vermelho representava Direito; verde, Medicina; azul, Filosofia e preto, Teologia. Escolhi a cor preta”. Ele conta que a família ficou surpresa com a decisão e que o pai o repreendeu: “Não faça brincadeira com coisa santa e sagrada”. Mas ele estava decidido e ingressou na Congregação Missionários do Sangue de Cristo, da qual seu tio já fazia parte. Depois de concluir o noviciado, cursar Filosofia e estudar Teologia, Dom Erwin falou a seus superiores do desejo de ir ao Brasil e atuar no Xingu. Eles aceitaram, mas antes de confirmar sua viagem pediram que fizesse uma bateria de exames para ter certeza de que estava saudável e teria condições de se adaptar ao clima tropical. “Eu praticava esportes e tinha bastante disposição. O médico disse que poderia viver em qualquer lugar do mundo”.
Foi ordenado padre em 3 de julho de 1965 e em 2 novembro embarcou para o Brasil com a vontade de encontrar aquele povo distante, que apenas conhecia por cartas. Naquele tempo, quando um sacerdote mudava para outro país, só poderia retornar para visitar a família depois de 10 anos, mas para ele, isso não era problema. “Quando se é jovem se tem vontade de conhecer o mundo. Posso dizer que, em toda a minha vida, não tive um minuto de arrependimento”.

No Brasil, Erwin foi para Altamira, Pará. Imediatamente quis aprender o idioma para falar igual aos moradores da região. Fez um curso em Belém e depois estudou, durante um mês: manhã, tarde e noite. Ele lembra que a professora de Português era exigente e o fazia repetir as palavras diversas vezes até a pronúncia estar perfeitamente correta. Aprendeu tão ligeiro que meses depois foi convocado pelo bispo a dar aulas na escola da cidade. Afeiçoou-se ao novo país e decidiu naturalizar-se brasileiro. “Quando me perguntam o que sou, digo que sou brasileiro nascido na Áustria. Essa é a mais pura verdade”.
Enquanto pároco na região, Erwin tomou conta de muitas comunidades e viu Altamira se transformar a partir da construção da Transamazônica, nos anos de 1970. “Aconteceu uma migração do Sul para o Norte, do Sudeste para o Norte, e então Altamira aumentou do dia para a noite. Estradas foram feitas, as comunidades aumentaram e a cidade mudou”.
Em 1980, foi nomeado bispo. Ele não tinha essa pretensão e tampouco aguardava receber o convite porque seu tio, Dom Eurico, já era bispo. Ao ser convidado, relutou. “Eu resisti, mas me disseram que todos confiavam em mim e acabei aceitando”. Depois de nomeado, preocupado em desenvolver um trabalho que favorecesse a comunidade da região, ele se reuniu com padres, irmãs, leigos e leigas e pediu que tipo de bispo queriam. Entre as respostas, “os leigos disseram que gostariam de ter um bispo que possa sentir, na sua própria pele, o que o povo sente”. O compromisso estava selado e ficou ainda mais forte quando, em 1983, ao ser preso pela Polícia Militar por solidarizar-se com canavieiros da Transamazônica, explorados e maltratados, ouviu o grito do povo: “Larga ele! Ele é nosso bispo!”
Dom Erwin conhece todas as comunidades de Altamira e visita, com frequência, as paróquias da região, permanecendo de quatro a quinze dias em cada uma delas. A proximidade com a população e com os indígenas lhe rendeu algumas inimizades e até ameaças de morte. “Sou ameaçado por defender o meio ambiente e os povos indígenas da Amazônia, especialmente no Xingu, e isso contraria interesses de poderosos. Também não aceitam meu posicionamento contra a hidrelétrica de Belo Monte”.

Há quatro anos, por decisão do Estado, Dom Erwin é escoltado 24 horas por dia. Quatro policiais o acompanham em Altamira. “Tinha o hábito de correr todas as manhãs. Nos primeiros meses, os policiais me acompanhavam, mas, posteriormente, fui aconselhado a parar com a atividade física em função da segurança”. A falta de privacidade não o faz desistir. “Eu me posicionei nesse sentido e sei que não estou sozinho”. Apesar de receber acompanhamento policial, as ameaças continuam e, frequentemente, numa festa comunitária ou mesmo na procissão, alguém grita: “Tem de matar esse bispo! Ele vai morrer”. Segundo Dom Erwin, um dos fatos pelo qual também sofre ameaças é a exigência do esclarecimento da morte da Irmã Dorothy Stang , executada em 2005. Como bispo, ele exigiu a investigação do caso e defendeu a existência de um consórcio do crime na região.

Há quase cinquenta anos no Pará, Dom Erwin diz que ser padre é ser irmão do povo e, seguindo os exemplos de Jesus Cristo, vai ao encontro de seus semelhantes. Simples e entusiasmado, defende, acima de sua própria vida, a luta indígena e os direitos humanos.

Leia mais...

Confira outras entrevistas concedida por Erwin Kräutler à IHU On-Line.
* Belo Monte. ''Lula será lembrado como o presidente que acabou com os povos indígenas do Xingu''. Entrevista especial com Dom Erwin Kräutler, publicada nas Notícias do Dia 14/08/2009;
* Belo Monte. 'Projeto faraônico e gerador de morte''. Entrevista especial com Dom Erwin Kräutler, publicada nas Notícias do Dia 17/12/2009;
* “Só os índios, hoje, se preocupam com o futuro. Os brancos só olham para o presente”. Entrevista especial com Dom Erwin Kräutler, publicada nas Notícias do Dia 15/04/2008;
* “Desenvolvimento na Amazônia se tornou sinônimo de derrubar, queimar, arrasar, matar”. Entrevista especial com dom Erwin Kräutler, publicada nas Notícias do Dia 19/02/2008;
* Estado é incapaz de remediar a justiça social, entrevista publicada na edição 266, de 28-07-2008, da Revista IHU On-Line.

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