Edição 339 | 16 Agosto 2010

Cultura religiosa digital

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Eduardo Gabriel

“O uso de internet para fins religiosos não inibe a convivência real que apregoa o cristianismo”, escreve o sociólogo Eduardo Gabriel no artigo que enviou com exclusividade para a IHU On-Line.

“O uso de internet para fins religiosos não inibe a convivência real que apregoa o cristianismo”, escreve o sociólogo Eduardo Gabriel no artigo que enviou com exclusividade para a IHU On-Line. De acordo com ele, “a internet provocou mudanças inquestionáveis na concepção da vida social das pessoas, e a religião está na esfera tangível desta mudança”. O texto pode ser lido na íntegra a seguir. Os subtítulos são nossos.
Eduardo Gabriel possui graduação e mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). É doutor em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo – USP, com doutorado sanduíche pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia da Religião, atuando principalmente nos seguintes temas: globalização, protestantismo, missões e religião, universidade, catolicismo, RCC. Atualmente, é pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, e trabalha na área da Sociologia da Religião.

Confira o artigo.

Não sou tão velho ao ponto de usar expressões como “na minha época...” Porém, sou obrigado a repensar isto diante de uma coisa chamada internet. Na minha época de adolescente não havia ainda a internet. Eu só comecei a ter contato com a internet na minha época de estudante universitário, e esta “época” foi a partir de 1999. Portanto, entrei na universidade sem saber direito o que era internet, tão pouco eu tinha um email. Meu primeiro endereço eletrônico foi um veterano do curso de Ciências Sociais quem fez para mim, pois ele havia acabado de fazer o dele também e já quis me ensinar a usar. Eu não era o único que não tinha email, pois me lembro de vários amigos cadastrando-se para ter os seus, e os faziam no famoso LIG – Laboratório de Informática da Graduação, único local onde havia internet disponível para acesso dos alunos. Portanto, não mais que dez anos atrás tudo era muito novo e incipiente nos usos da internet, mesmo dentro da universidade, lugar de excelência nos usos das novas tecnologias. E o que se poderia dizer da internet fora da universidade neste momento? Será que algum estudante que ingressou na universidade este ano ainda não tem um email, como eu não tive quando entrei?
Com isso, quero apenas registrar inicialmente a minha percepção sobre esta coisa chamada internet: ela provocou qualquer coisa de grande mudança na última década. Alguém é capaz de viver sem internet nos dias de hoje? Ou ainda, alguma instituição (empresa, poder público, ONG etc.) é capaz de manter suas atividades sem fazer uso da internet? E a religião, que uso faz da internet? É verdade que a internet também provocou uma profunda mudança na dinâmica religiosa, e já ando suspeitando que haja uma “cultura religiosa digital” rondando algumas intocáveis sacristias barrocas e renascentistas.

Altares virtuais
O primeiro susto que eu levei, ou melhor, a primeira notícia que eu soube de usos da internet pela religião foi na apresentação de um trabalho sobre “Altares virtuais”, durante o congresso do CEHILA  em Goiânia, no ano de 2003. Este trabalho gerou um espanto generalizado no público acadêmico que estava assistindo. A inquietude dos ouvintes pode ser traduzida nesta expressão: “já existe até altar virtual na internet?”. Houve até um comentário estupefato de um respeitado historiador das religiões, mas que foi infeliz, pois achou o tema uma aberração demoníaca (eu estava lá e ouvi o comentário dele!). O trabalho tratava de apresentar os sites que disponibilizam velas virtuais para as pessoas inscreverem pedidos a determinados santos de devoção.
Em 2008, quando eu estava em Portugal para meu estágio de pesquisa de doutorado, soube que haveria em Fátima um seminário de comunicações sociais. Quando li o título levei o meu segundo espanto: “O Evangelho Digital”. Que raio de coisa poderá ser um seminário com este título? Fui lá conferir de perto o que seria tratado. A proposta era discutir os usos da internet para divulgação das atividades religiosas das paróquias, movimentos, grupos, pastorais etc. Com apenas cinco anos do primeiro susto sobre internet e religião, a reação já tinha mudado. Porém, neste caso foi uma reação isolada de poucos: “ainda há grupo religioso que não usa a internet?”

É preciso destacar que o auge do evento ficou por conta da apresentação de um convidado secular, sem qualquer vínculo religioso, que foi lá falar sobre os empregos da internet na dinâmica de uma empresa, organização, movimento... A fala deste consultor foi simplesmente uma grande provocação para o quanto a religião estava atrasada no uso da ferramenta em atender a nova demanda simbólica de consumo religioso gerado a partir do mundo virtual. Uma das questões fundamentais que colocou foi: “como os padres e catequistas estão se preparando e construindo conteúdos digitais para catequizar as crianças e adolescentes que já são criados inteiramente sob o jugo da internet?”

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição