Edição 337 | 09 Agosto 2010

“O Apostolado Social faz parte do DNA da Companhia de Jesus”

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Graziela Wolfart

José Ivo Follmann acredita que os jesuítas têm por vocação buscar sempre o bem maior e mais universal e que o trabalho em rede pode ser um importante facilitador para isto

Depois de relatar aspectos da trajetória histórica do apostolado social da Companhia de Jesus, o professor e padre jesuíta José Ivo Follmann afirma, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line: “retomando e reforçando o binômio Serviço da Fé e Promoção da Justiça e a urgência do Diálogo Cultural e Inter-Religioso, as novas dimensões que apontam forte são o cuidado com o meio ambiente (dimensão ecológica) e a atenção às novas fronteiras, num mundo que avança vertiginosamente no meio científico e tecnológico levando às vezes de roldão a dignidade e o sentido da existência humana”. Mas reconhece que “nem sempre o social conseguiu ter a visibilidade e a importância que o carisma inaciano lhe exige”.

José Ivo Follmann é graduado em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira e em Teologia pela Unisinos. Na PUC-SP, cursou mestrado em Ciências Sociais e, na Université Catholique de Louvain (Bélgica), concluiu o doutorado em Sociologia. Atualmente, é vice-reitor da Unisinos, diretor de Assistência Social da Associação Antônio Vieira e coordenador de Apostolado Social da Província Brasil Meridional. Leia uma entrevista que ele concedeu à IHU On-Line intitulada “Há muito ainda a fazer para que aconteça efetivamente Universidade para Todos”, publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU em 12-05-2009 e disponível em http://migre.me/11E0G

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual a postura e as principais ações da rede SJ-CIAS na Província do Sul?

José Ivo Follmann - A Rede SJ-CIAS (Rede Jesuíta de Cidadania e Ação Social) nasce da urgência de termos uma ação articulada e efetiva no Setor Social da Província do Sul. Nasce, sobretudo, da necessidade de aprendermos a trabalhar em rede. A palavra chave é APRENDER. SJ-CIAS quer ser uma escola de aprendizado para que saibamos colocar-nos em rede nacional, latino-americana e mundial. Para trabalhar em rede é necessário que comecemos em nossa própria casa. Precisamos cultivar-nos nesta exigência que se faz sempre mais irreversível para que nossas ações ganhem em força e em amplitude. Como jesuítas, nós temos por vocação buscar sempre o bem maior e mais universal. O trabalho em rede pode ser, sem dúvida, um importante facilitador para isto.

IHU On-Line - O senhor poderia recuperar a história do apostolado social da Companhia de Jesus? Quando isso começa? Quais são as motivações iniciais? Como surgiram os CIAS? Como isto chegou até nós?

José Ivo Follmann - O Apostolado Social faz parte do DNA da Companhia de Jesus. Inácio de Loyola, que era de estirpe nobre, viveu o seu processo de conversão em uma profunda experiência de encarnação na condição de mendigo. Para ele e seus companheiros, na Itália, já a partir de 1537, (portanto dois anos antes da fundação da Companhia), o Apostolado Social (práticas junto aos empobrecidos) era uma das frentes de atividade, ao lado da pregação, do ensino catequético e da confissão. É de destaque uma importante iniciativa social junto às mulheres de rua ou prostitutas, em Roma. Por diversos fatores, o apostolado social, enquanto tal, não chegou a ser colado historicamente à “marca” jesuíta enquanto apostolado próprio da Companhia, até a primeira metade do século XX. Isso está relacionado, em grande parte, com a concepção de pastoral que predominava na Igreja católica e também, mais tarde, com a maneira como esta Igreja se relacionou com o mundo moderno, em todos os campos, mas, sobretudo, no campo social. Também está associado à supressão sofrida pela Companhia de Jesus e a maneira como ela se restaurou buscando, em primeiro plano, afirmar-se no campo educacional. No entanto, alguns nomes são notáveis e exemplares, tais como: o Pe. Francisco Xavier , no Oriente, o Pe. Ricci , na China, o Pe. Nobili , na Índia, o Pe. Pedro Claver , na Colômbia, o Pe. Von Spee , na Alemanha e os padres Nóbrega, Anchieta , Vieira , Malagrida  e outros, no Brasil. Não se pode deixar de referir, sobretudo, o monumental trabalho junto aos povos indígenas guarani, os “povos das missões” , ao longo dos séculos XVII e XVIII. Ao longo do século XX, especialmente nas décadas de 1930 a 1960, foram notáveis algumas presenças organizadoras, promocionais e assistenciais junto à classe operária urbana. Devem ser lembrados, próximos de nós, os padres João Batista Reus, Leopoldo Brentano, Inácio Valle, Cândido Santini, Claudio Mascarello e outros. Destaque grande também deve ser feito à incidência no desenvolvimento e organização social no meio rural. Devem ser citados diversos nomes, neste sentido, mas vamos destacar o nome do Pe. Max Von Lassberg e do Pe. Theodor Amstad . O primeiro como desbravador de novas fronteiras agrícolas ajudando a fundar novas comunidades; e o último pela maravilhosa obra das cooperativas no meio rural. Os quatro últimos Superiores Gerais passaram a sublinhar com maior insistência a importância do Apostolado Social na Companhia de Jesus. A começar pelo Pe. João Baptista Janssens, passando pelo Pe. Pedro Arrupe, depois Pe. Peter-Hans Kolvenbach e hoje o Pe. Adolfo Nicolás .

O papel do Pe. Janssens

A começar pelo Pe. João Batista Janssens, que na célebre Instrução Apostólica de 10/10/1949, justifica a necessidade do Apostolado Social como expressão genuína da nossa vocação, explicitada nas prescrições do Instituto, e exigência diante dos danos produzidos pelo comunismo ateu e do liberalismo capitalista e suas consequências indesejáveis: a situação dos trabalhadores, produto nefasto das injustiças sociais e das perturbadoras estruturas econômicas. Em meados da década de 1950, o mesmo Pe. Janssens confiou ao Pe. Foyaca, uma visita a todas as Províncias da América Latina, tendo como ponto de atenção: os jesuítas e a questão social. É a partir da Instrução Apostólica de 1949 e desta visita do Pe. Foyaca, que devemos ler a origem dos CIAS (Centros de Investigación y Acción Social). Em carta a todos os Provinciais da América Latina, em 24/12/1962, Pe. Janssens incentivava, na época, a promoção e o desenvolvimento dos CIAS no contexto latino-americano. O Pe. Pedro Arrupe, ao assumir como Superior Geral, em 1965, herdou, assim, um grande dinamismo no Setor. Já em 1966, registrava-se a existência de 23 CIAS, com 165 jesuítas neles atuantes, em toda a Companhia Universal. Sendo que, destes, 11 na América Latina, com 87 jesuítas neles atuantes. Em Carta sobre o Apostolado Social na América Latina, 12/12/1966, o Pe. Arrupe anunciava a criação do CLACIAS (Consejo Latino Americano de CIAS), e escrevia o seguinte: “O objetivo fundamental dos CIAS (e, consequentemente, do Apostolado Social) será a transformação da mentalidade e das estruturas sociais no sentido da justiça social, preferentemente no setor da promoção popular, com a finalidade de possibilitar uma maior dedicação, participação e responsabilidade, em todos os níveis da vida humana”.

A condução de Pe. Arrupe

A partir da Congregação Geral XXXI, o Pe. Arrupe assim se refere ao Apostolado Social: “O que o Apostolado Social diretamente pretende, com todo o empenho, é informar as próprias estruturas da convivência humana de mais justiça e caridade, para poder qualquer homem participar em pessoa, e exercer a sua iniciativa e responsabilidade em todos os setores da vida social”. A Congregação Geral XXXII, em grande parte devido à forte liderança do Pe. Pedro Arrupe, ao definir a Missão da Companhia, deu centralidade ao binômio integrado: serviço da fé e promoção da justiça, recuperando para os dias de hoje o que está expresso, em outras palavras, na Fórmula Originária do Instituto. Nem tudo foi tranquilo e sem sofrimento no seguimento fiel a esta Missão. Houve desconfortos e desilusões, para não falar de perseguições. O Pe. Peter Hans Kolvenbach, mesmo que marcado inicialmente pelo cuidado por curar algumas feridas no tecido social da Companhia e em sua relação com o corpo todo da Igreja, ao longo de sua longa trajetória como Superior Geral, no entanto, manifestou de forma crescente a sua apreensão e preocupação para que se encontrassem formas de redimensionar e revigorar o Apostolado Social na Companhia, como expressão importante de sua Missão nos dias de hoje. A Congregação Geral XXXIV, sob a sua liderança, reafirmou a formulação da Missão, seguindo a Congregação Geral XXXII, que apresentara o binômio integrado do Serviço da Fé e Promoção da Justiça e acrescentou novos aspectos, chamando a atenção, também, para a importância fundamental do Diálogo Cultural e Inter-Religioso. Com o Pe. Adolfo Nicolás, amparado pela Congregação Geral XXXV, o Apostolado Social desponta com novas dimensões e renovado vigor. Retomando e reforçando o binômio Serviço da Fé e Promoção da Justiça e a urgência do Diálogo Cultural e Inter-Religioso, as novas dimensões que apontam forte são o cuidado com o meio ambiente (dimensão ecológica) e a atenção às novas fronteiras, num mundo que avança vertiginosamente no meio científico e tecnológico levando às vezes de roldão a dignidade e o sentido da existência humana. Mais do que nunca, a partir da Congregação Geral XXXV, se insiste na importância de um vigoroso trabalho em rede para termos condições de fazer algo que tenha efetivo impacto e alcance.

IHU On-Line - Nesse contexto histórico e dentro da proposta dos CIAS, como surgem o Cedope e o IHU? O que influencia o fato de surgirem dentro de uma universidade?

José Ivo Follmann - Eu tive, pessoalmente, a sorte de acompanhar o CEDOPE  ao longo de toda a sua história desde o ato formal de sua criação em 1971 até o ato formal de sua extinção em 2001. Também fiz parte da criação do IHU em 2001, liderando como Diretor do então Centro de Ciências Humanas da Unisinos o longo processo de reflexão, e, por que não, negociação, relativo a esta nova criação. O CEDOPE foi liderado na sua criação e grande parte de sua existência, nas primeiras duas décadas, pelo Pe. Pedro Calderan Beltrão que adotou uma postura diferenciada com relação aos CIAS (Centros de Investigación y Acción Social). Ele postulava um trabalho social mais científico e de caráter acadêmico. O Pe. Beltrão nunca quis de fato que o CEDOPE fosse considerado como um CIAS, pois ele tinha diferenças ideológicas e teóricas com relação à linha em geral adotada nos CIAS. No final de três décadas de existência o CEDOPE talvez estivesse mais próximo da ideia originária de CIAS, mas estava se sentindo a necessidade de maior foco e também integração com a universidade. Foi o que desencadeou a ideia da criação do que hoje é o IHU (Instituto Humanitas Unisinos) somando-se neste processo, além do CEDOPE, o Núcleo de Humanismo Social Cristão e a própria Pastoral da universidade.
 
IHU On-Line - Qual seria a principal diferença do IHU em relação aos outros CIAS?

José Ivo Follmann - O IHU nasce como proposta de renovação ou de ressignificação da própria ideia de CIAS para os nossos tempos. Ele foi construído inspirado basicamente na ideia dos CIAS, mas dando a esta ideia um novo rosto e uma nova dinâmica de interlocução dentro dos grandes debates presentes nos dias de hoje, tendo como apoio facilitador a interface e a estrutura da universidade. O IHU, no meu entender, consegue ser a expressão daquilo que, em muitos momentos, foi e está sendo almejado por diversos CIAS, na busca de uma maior aproximação com o debate acadêmico, sobretudo quando se trata de trabalhos de pesquisa.
Integrando o IHU na Rede SJ-CIAS está se buscando também uma maior interlocução do mesmo com as diferentes frentes de Ação Social da Província.

IHU On-Line - O senhor, de fato, vê a questão social como central na Companhia de Jesus?

José Ivo Follmann - Para mim, a questão social é central na Companhia de Jesus. Como eu disse no início, faz parte do seu DNA. Sempre me empenhei por isto. Entrei na Companhia de Jesus com esta perspectiva no meu horizonte. Mas creio que existem entendimentos diferentes do que significa questão social e de como fazer frente a ela. São entendimentos que se expressam em posturas teóricas e metodológicas diferenciadas, às vezes até opostas.

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