Edição 335 | 28 Junho 2010

Do gozo Ubu ao gozo degenerado: a afirmação de sexualidades heréticas a partir de Foucault

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Alexandre Filordi

“Para Foucault, os corpos são sucessivamente investidos por essas relações de poder ubuescas. Nelas, os corpos são trabalhados intensamente desde as mais banais ações que passam a ser vistas como ‘normais’”. A afirmação é do filósofo Alexandre Filordi, no artigo que escreveu especialmente para a IHU On-Line

De acordo com ele, “não é sem sentido, então, que Foucault concebe a sexualidade como uma das funções mais bem fabricadas a partir do corpo, portanto, intensamente controladas, cuja função deve ser irremediavelmente normal”. Ele continua: “o gozo Ubu diz respeito à redução das sexualidades singulares ao prazer conectado a um centro dominante de práticas e de sentidos”.

Graduado em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul (SPS), em Campinas, e em Pedagogia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Filordi é especialista em Psicoterapia Familiar e de Casal pelo Centro de Formação e Assistência à Saúde (CEFAS) e um dos integrantes do Grupo de Estudos sobre Diferenças e Subjetividades (DiS/UNICAMP. Cursou mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), doutorado em Filosofia pela USP e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com a tese Da sujeição às experiências de si na função educador: aproximações foucaultianas. Docente de Filosofia da Educação na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), é autor de Foucault e a função-educador: sujeição e experiências de subjetividades ativas na formação humana (Ijuí: Unijuí, 2010), além de possuir publicações em revistas especializadas e capítulos em livros organizados com temáticas foucaultianas.

Confira o artigo.

O dramaturgo francês Alfred Jarry  (1873-1907) redigiu uma peça de teatro denominada de Ubu Rei. Protagonizada pelo Pai Ubu, um rei golpista que reverte o trono a seu favor à custa de desmesurada e banal ganância, a peça, dividida em cinco atos, acentua o caráter comicamente cruel, cínico e covarde ao extremo daquele rei. Com o único intuito de forjar fortuna, o Pai Ubu tem em mente e em prática um sistema perverso de confisco dos pertences de seus “súditos” cuja finalidade é simples: “Com este sistema, eu irei fazer rapidamente fortuna, então eu matarei todo mundo e partirei”. O caráter eminentemente desastroso exercido por uma soberania grotesca, produzida pela desqualificação de seu regente, mas autorizada por seu estatuto, permitiu que Ubu se transformasse em adjetivo dicionarizado. O ubuesco, neste caso, passou a se referir ao absurdo, ao grotesco, ao cínico e ao caricatural.

Foucault, em suas aulas de 8 e de 15 de janeiro de 1975 do curso Os anormais, ministrado no Collège de France, convoca Ubu Rei. A sua intenção é a de evidenciar como os aparatos normativos que são produzidos coextensivamente pelas relações de poder são mantidos no tecido social às custas do grotesco. O odioso, o infame e o ridículo são expressões que comportam o aparato ubuesco do poder incontornável que nos toca no cotidiano. Poder “abjeto, infame, ubuesco ou simplesmente ridículo”, porém inevitável, que faz circular as regras de sua racionalidade violenta, “mesmo quando está nas mãos de alguém efetivamente desqualificado”, para normalizar o seu próprio funcionamento. É neste sentido que nos deparamos, sempre segundo Foucault, com o Ubu burocrata, o Ubu médico, o Ubu psiquiátrico-penal, enfim, representantes das relações de poder banalizadas e diagnosticadas, sobretudo, nos discursos que são, de modo concomitantes, estatutários e desqualificados, e por isso mesmo ridículos.

Para Foucault, os corpos são sucessivamente investidos por essas relações de poder ubuescas. Nelas, os corpos são trabalhados intensamente desde as mais banais ações que passam a ser vistas como “normais”, já que são cotidianas, a ponto de impregná-los com finalidades que são interpostas a cada um, à revelia de suas vontades próprias. É por isto que este poder disciplina, regula, normaliza tudo que diz respeito ao corpo, aliás, o corpo e tudo o que a ele diz respeito não passaria de uma massa bruta se não fosse por ele fabricado. Este poder “fabrica corpos sujeitados, vincula exatamente a função-sujeito ao corpo”, argumenta Foucault em O poder psiquiátrico (2006, p.69).

Não é sem sentido, então, que Foucault concebe a sexualidade como uma das funções mais bem fabricadas a partir do corpo, portanto, intensamente controladas, cuja função deve ser irremediavelmente normal. Desde cedo, no Ocidente, a imaginação e o prazer atinentes ao gozo sexual foram objetos de regulações desastrosas. Com efeito, na virada do século XIX para o XX, “o prazer não ordenado à sexualidade normal” passou a ser suscetível a toda série de psiquiatrização, ou seja, o prazer passou a ser um “objeto psiquiátrico ou psiquiatrizável”, pois não podia descarrilar da sexualidade normal (Cf. FOUCAULT, 2001). Desde então, o gozo deve ser normal e ele torna-se ubuesco. Mas como assim?

Colocado no âmbito da significação dominante, o gozo ubuesco representa a sexualidade instrumentalizada que iguala tudo, simplesmente pelo fato de nela se encontrar o prazer equalizado pelas discursividades e práticas cotidianas que insistem em desqualificar, em anatematizar e em anormalizar os prazeres que fogem do controle do corpo. Dito de uma forma mais simples, o gozo Ubu diz respeito à redução das sexualidades singulares ao prazer conectado a um centro dominante de práticas e de sentidos. Ele está, ironicamente, na denúncia do protagonista e narrador de a História do Olho, de Georges Bataille  (2003, p.58): “para os outros, o universo parece honesto. Parece honesto para as pessoas de bem porque elas têm os olhos castrados. Em geral, apreciam os ‘prazeres da carne’, na condição de que sejam insossos”. E isto não é juízo de valor, é indicação de limites para o gozo. Numa palavra, a sexualidade que forja limites prévios para si mesma, que se conecta às normalizações ansiosas por verdades, que esgota o corpo em sua capacidade de gozar, que prolifera o medo à diferença pelo fato de ser o medo à indeterminação, e que se pauta pelo verdadeiro sexo, faz o sentido do que chamo de gozo Ubu.

Desessencialização do gozo

Entretanto, a partir do momento em que Foucault (1999, p.100) concebeu a sexualidade como um dispositivo histórico, tramada à superfície em que “a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder”, uma operação de desessencialização do gozo também ocorreu. Resistir ao gozo Ubu, neste caso, também é componente normal da sexualidade; é acontecimento histórico deslocado de uma natureza subterrânea qualquer que predisporia os prazeres sexuais como finalidades prévias das funções corporais.

O que prevaleceu nesse dispositivo histórico, contudo, foram os jogos normativos que, desde cedo, tomaram o gozo extraviado de uma expectativa média social qualquer como aberração. Desde então, “o degenerado é aquele que é portador de perigo”, como tratou de evidenciar Foucault em Os anormais. Ele é perigoso simplesmente pelo fato de sua experiência com a sexualidade ser periférica. Ele é o extravio normativo em relação ao gozo, ele é heterogozador.

Enquanto o “verdadeiro” sexo aspira pela manobra do gozo dentro das casas pretas ou brancas do tabuleiro da sexualidade e de sua anatomia, para Foucault, a anatomia incerta, o lado sem fronteira, a heterogeneidade de prazer sem morfologia prescritiva, o experimentalismo deslocado e inventivo de cada um, os amores que não ousam dizer o nome, são possibilidades de intervenção no complexo de fixação em torno dos prazeres que são extraídos ou infligidos ao corpo. Mais do que isso, são maneiras ou caminhos de não desdobrar de forma ubuesca o estado de miséria sexual no qual vivemos. São possibilidades de dizer: Não ao sexo rei.

Nesse sentido, o gozo degenerado opõe-se ao gozo Ubu. Aquele é herético enquanto insiste em contrariar as cartilhas, os credos, as normas e as prescrições em torno dos prazeres, bem como ao redor da utilização correta do corpo, do posicionar-se na escolha certa – sexualidade colonizada e atravessada por afirmações grotescas e cínicas. É preciso sacudir a “cartografia da sexualidade”, afirmou Foucault em Não ao sexo rei. Ali mesmo, ele invocou as sexualidades heréticas neste sentido: “é preciso fabricar verdadeiramente outras formas de prazer, de relações, de coexistências, de lugares, de amores, de intensidades” (1994, p.261).

Este imperativo não deve ser visto como uma ordem universal por parte de Foucault, mas como um convite que ora se deslinda, sem a pretensão de ser uma imposição ao gozo de alguém. De outro lado, contudo, é sim uma ordem àqueles que insistem, doutrinariamente, senão de modo ortodoxo, a impor, não importa a quem, qualquer forma de gozo e a condenar as suas heresias. 

 

REFERÊNCIAS

BATAILLE, G. História do Olho. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
FOUCAULT, M. Os anormais. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
   . História da sexualidade 1: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1999.
   . O poder psiquiátrico. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
   . “Non au sexe roi”. In. Dits et Écrits. Paris: Gallimard, 1994, p.256-269.

Leia mais...
>> Alexandre Filordi já publicou outro artigo na IHU On-Line:
* Foucault e a questão da crítica em torno da biopolítica. Artigo publicado na edição 203 da Revista IHU On-Line, de 06-11-2006, disponível para download em http://migre.me/S7Mj 

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