Edição 334 | 21 Junho 2010

IHU Repórter - Maria Cristina Bohn Martins

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Patricia Fachin

Serena, de voz tranquila e extremamente didática, Maria Cristina Bohn Martins, professora do curso de História, exerce a profissão aprendida com o pai. Há 25 anos na instituição, ela acompanhou, como aluna e, depois, como professora, a consolidação do curso de pós-graduação em História e se orgulha de fazer parte deste projeto. Na entrevista a seguir, ela conta alguns aspectos de sua trajetória acadêmica, fala da família e da admiração pela universidade. Confira.

 

Origens – Nasci em Torres, num domingo de carnaval. O parto da minha mãe estava previsto para abril, mas nasci no início de fevereiro. Meu pai contava que eu era muito pequena e que, diante da ausência de um enxoval para mim no litoral – eles estavam passando as férias na cidade -, meu primeiro berço foi improvisado em uma caixinha de uva de dois quilos. Eles a forraram e a usaram como berço até que retornássemos para Hamburgo Velho. Algumas das boas memórias da minha infância são das viagens para o litoral.

Meus três irmãos mais velhos nasceram em Hamburgo Velho. Meus pais viveram na cidade até a década de 60, quando então vieram para São Leopoldo. Nessa segunda fase da vida deles, nasceram minha irmã mais nova e eu. Meu pai veio para São Leopoldo para trabalhar no SENAI; ele foi professor a vida inteira. Ele sempre foi minha grande referência: amoroso, dedicado, correto e muito amado por todos que o conheceram. Faleceu em junho do ano passado e todos os  familiares tinham doces lembranças dele.  Somos 5 irmãos de diferentes profissões: uma dentista, um engenheiro, uma advogada e duas professoras.. Minha mãe sempre foi dona de casa; se casou aos 16 anos e com 20 vinte já tinha 3 filhos. Ela está enfrentando com coragem  a recente viuvez depois de um casamento de 60 anos!

Estudos – Me dei conta, no segundo grau, de que gostava de estudar temas que envolvessem  História e Antropologia. A escolha pela Unisinos para cursar a Universidade  foi muito tranqüila. Eu era muito jovem, pouco dada a aventuras e nem pensei em estudar longe de casa. Olhando a “cartela” de ofertas da Universidade me decidi por cursar Licenciatura em História, em 1978. Nesse momento, não tinha ideia de que queria ser professora;  sabia apenas que gostava de estudar História.  Contudo, acho que fiz a melhor escolha da minha vida porque sou uma professora muito identificada com a profissão; adoro lecionar.

Os meus professores universitários não eram pesquisadores, com exceção da professora Helga Pícolo. A pesquisa ainda não tinha a institucionalização que tem hoje. Justamente no momento em que comecei a lecionar na Unisinos, a pós-graduação começou a se consolidar no Rio Grande do Sul, e a pesquisa e o ensino, então, passaram a ser duas partes inseparáveis da vida de um professor universitário.

A minha primeira professora foi a melhor e também a mais importante: Beatriz Franzen. Ela foi e é uma referência ética e profissional. Como colegas viemos a sr muito amigas, mas naquela época a relação entre alunos e professores era mais formal.. Também fui aluna do professor José Alberto Baldissera, uma figura marcante na formação de qualquer aluno do curso de História. Diria que os professores Helga, a Betriz e o Baldissera definiram o que era este  curso nos anos em que eu o frequentei. Também havia outros professores, de outras licenciaturas, que foram muito significativos para a história da universidade e foram importantes  para a minha formação como, por exemplo, a professora Janira Silva, que  sempre foi  uma das vozes mais autorizadas da universidade no campo da Pedagogia. As professoras Lia Becker, Mariazinha Beck Bohn que hoje estão aposentadas, também foram  figuras importantes. Aliás, quero dizer que,  no caminho da minha titulação a professora Marizinha, juntamente com os padres Wetzel e Malmann  foram essenciais  pelo apoio concedido. Sou e serei sempre muito reconhecida a eles por isto.

Trajetória profissional – Meu pai empenhou-se para que nós não trabalhássemos ao mesmo tempo em que estudávamos. Então, só comecei a lecionar no último ano da faculdade, no Colégio São Luiz, que naquela época pertencia a uma congregação italiana de religiosos pavonianos. Quando estava trabalhando no colégio, em 1986, a professora Beatriz Franzen me telefonou convidando para lecionar no Ciclo Básico, na universidade. Acho que foi em função de eu ter sido uma aluna bastante dedicada uma vez que, como disse, tinha condições de me dedicar integralmente aos estudos. Neste mesmo ano, depois de um namoro rápido, me casei. Meu marido trabalha com máquinas e implementos agrícolas, e suas preocupações passam muito longe daquelas do mundo acadêmico que me ocupam. Mas ele sempre me apoiou incondicionalmente, mesmo quando o caminho da qualificação profissional me tornava quase ausente de casa. Este respeito, entre outras coisas, permitem que vivamos um casamento muito feliz nestes quase 25 anos! Depois de tanto tempo posso dizer que  com ele eu começaria tudo de novo.

O convite de atuar como professora na universidade ficou atrelado ao compromisso de fazer o mestrado. De todos os professores, apenas a professora Helga tinha doutorado, e o professor Elmar Jonas Manique era mestre. No estado, havia um único curso de Pós-Graduação consolidado, na PUC. A Unisinos, numa ação pioneira da professora Beatriz Franzen, ofereceu seu primeiro curso de Pós-Graduação em História e, em 1987, tornei-me aluna de curso. Tivemos como professores o padre Pedro Ignácio Schmitz , o professor Melià , que era professor visitante, o professor Rushel, e o padre Wetzel , que tinha sido reitor da universidade. Os outros professores eram convidados de outras instituições, porque a Unisinos não tinha o quadro de professores com a alta qualificação que tem hoje. Esses 25 anos mudaram, impressionantemente, o perfil da universidade. Quando me dou conta dessa trajetória, percebo que mais da metade da minha vida eu passei na Unisinos.

Participei de uma etapa de um concurso na universidade federal com boas condições de aprovação. Ele era para a minha área (História da América), eram poucos candidatos, eu já era doutoranda e tinha um currículo sólido. Não fui até o fim do concurso porque não consegui romper esse laço com a universidade. Não consegui me ver fazendo parte de outro projeto. Nunca me arrependi disso porque gosto muito do que faço na Unisinos e me sinto parte dela e do curso de História.

Filhos – Tenho dois filhos muito amados e que são a melhor parte da minha vida.  O Eduardo tem 19 anos e é estudante do curso de Direito, na Unisinos. Ele nasceu quando eu estava finalizando o mestrado, em 1991. Hoje, trabalha com meu esposo.  Ele gosta muito de  surf e e de futebol. Como eu é um gremista apaixonadíssimo, apesar do pai ser colorado! A Rafaela nasceu em 1995, quando eu estava começando o doutorado. Ela tem 16 anos, é uma menina linda, corajosa, positiva e determinada. Uma série de características que me faltam, percebo nela. Não sou tímida, mas me movimento mais lentamente e a determinação dela, a coragem diante dos desafios me emociona. Ela está cursando o segundo ano no Colégio Sinodal, mas ainda não tem nenhuma definição vocacional.

Família – Minha família é muito unida. Meus filhos cresceram com os avós, primos e tios sempre próximos.  Minhas irmãs são minhas melhores amigas e os laços que nos unem são muito fortes.

Lazer – Há três anos parei de fumar. Junto com essa decisão agreguei outra: tentar trazer um pouco de qualidade à minha vida no campo da saúde. Então, passei a caminhar e a correr. Isso me dá tremendo prazer e muita energia. Também passei a frequentar a academia, onde pratico pilates junto com minha mãe. Esse é um momento da semana em que aproveito para ficar com ela. Gosto de cinema, leitura e televisão.

Tenho muitos amigos... Algumas de longuíssima data, da adolescência. Nos tornamos “comadres”,  sendo madrinhas dos filhos umas das outras. Por sua vez, as crianças cresceram juntas e se sentem compondo uma mesma família... Tenho também outro grupo de amigas, todas mulheres, que se reúne para celebrar os aniversários do mês, para um ou outro happy  hour   e alguns passeios. Vamos à Rivera, ou para alguma praia, “jogar conversa fora”, cantar e dançar, enfim, descontrair. Meu esposo e eu também afazemos parte de um grupo de amigos que se reúne regularmente para  jogar carta e comer pizza. Gosto muito de ir para a casa da praia. É o lugar em que me sinto mais feliz porque fico próxima dos meus filhos e meus irmãos. Nesse momento, a vida familiar fica muito intensa.

Religião – Fui educada em uma família católica e bastante religiosa. Hoje me percebo, repetindo para os meus filhos os conselhos e as orientações que recebi dos meus pais e cobro deles os valores éticos e morais que estão sedimentados nesta formação religiosa e no pertencimento a uma igreja. 

Sonho – Neste momento os sonhos mais importantes são aqueles que dizem respeito ao Eduardo e a Rafaela. Quero vê-los se estabelecer como adultos felizes, saudáveis, eticamente comprometidos, afetivamente resolvidos, amados, amorosos e com um bom futuro profissional. Desejo que meu marido e eu ainda possamos sonhar juntos, aproveitar a vida e continuar tendo uma relação sólida e respeitosa.

Unisinos – É difícil falar da universidade sem ser saudosista. A Unisinos de hoje apresenta  avanços notáveis em relação àquela em que eu estudei e comecei a trabalhar. A universidade alcançou o perfil de excelência acadêmica que se comprometeu a ter. Não é à toa que pela segunda vez ela é escolhida a melhor universidade particular do sul do país. É evidente o impacto e a força que isso representa para uma instituição que assumiu, efetivamente, esta tripla dimensão: ensino, pesquisa e extensão. Não há como deixar de  reconhecer e apontar este amadurecimento, o reconhecimento que obtivemos em nível nacional, e nem como não se orgulhar de fazer parte disto.

Fui uma estudante que começou sua vida acadêmica na antiga sede e integrante de uma das primeiras turmas que se mudou para o câmpus, quando ele ainda era um canteiro de obras. Sob esse outro aspecto, é rico observar a consolidação  deste espaço. Das universidades que conheço no Brasil, essa é a mais bonita, convidativa e agradável. Às vezes, envolvidos em nossas tantas atividades cotidianas  não nos apercebemos disto, ou não usufruímos desta qualidade tal como seria desejável.

Mas, não há como deixar de ter saudades de uma outra Unisinos, em que as relações eram mais próximas. As carreiras dos professores não eram tão competitivas. Nosso  encaminhamento profissional criou a necessidade de uma eficiência e desempenho, que são constantemente mensurados, avaliados e, que, embora acrescentam qualidade para a instituição e méritos para as carreiras individuais, também determinam um aumento do individualismo porque passamos a ser todos, de alguma maneira, medidos uns pelo desempenho dos outros. Não estou dizendo que isso desqualifique as relações, mas  é inegável que as transforma.  A intensidade do trabalho e a enorme demanda diária também não nos deixa espaço para atividades de sociabilidade e de troca.

Mais marcante que isso, é o fato de que era mais fácil, nos anos 90, nos sentirmos convidados a participar de um projeto coletivo. Esse senso de que estávamos construindo, juntos e, que éramos, coletivamente responsáveis por esta construção, era mais perceptível naquele momento. Recordo que nossa primeira coordenadora, Professora Beatriz Franzen, costumava reunir-se conosco (e não apenas nas situações formais de Colegiado) para avaliar e planejar cada passo importante do PPGH.   Embora o reitor, constantemente, reforce esse convite e sinalize para os professores a importância de que nos sintamos assim partícipes, às vezes, não é tão fácil, até pelo perfil que a gestão da universidade assumiu.

Outra sensação que acompanha os professores atualmente é de que estamos sempre em “regime de urgência”. As demandas são tantas, que por mais que nos esforcemos,  elas nunca são atendidas na medida e velocidade requeridas. Não conseguimos terminar as atividades que foram planejadas e há sempre outras e  outras solicitações.

IHU – Conheço as iniciativas  do IHU e tenho profunda admiração pelo enorme dinamismo e qualidade dos trabalhos do Instituto. O IHU assumiu plenamente um papel essencial para a universidade: o de ser um espaço de reflexão, o promotor e inspirador de várias das melhores reflexões que nossa instituição  propõe para a comunidade acadêmica. Sempre acompanhei o trabalho do IHU por meio da Revista IHU On-Line e dos eventos. No último ano, por conta do XII Simpósio Internacional IHU - A experiência Missioneira: território, cultura e identidade, tive a oportunidade de me aproximar mais concretamente do Instituto. Pude confirmar a impressão que tinha. Percebi que a rede de eficiência que o IHU forma se manifesta no apoio em que a equipe presta, no  esteio que torna mais fácil o  caminho da promoção de eventos. É estimulante fazer parte desta equipe.

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