Edição 334 | 21 Junho 2010

Sepé, um emblema que ultrapassa fronteiras

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IHU Online

Figura plástica que simboliza resistência, Sepé Tiaraju vai além do Rio Grande do Sul, afirma a antropóloga Maria Eunice Maciel. Paradoxalmente, tem sido evocado para representar tanto os trabalhadores sem terra, quanto ruralistas.

Um emblema muito forte, de nossa terra, que faz parte do processo identitário do Rio Grande do Sul. Assim é Sepé Tiaraju, que ultrapassa fronteiras, analisa a antropóloga Maria Eunice Maciel, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “A bravura de Sepé vai além do Rio Grande do Sul. Ele pode (e está sendo) usado em lutas onde se enfrentam forças desiguais”, disse na entrevista que concedeu, com exclusividade, por e-mail, à IHU On-Line. Por outro lado, destaca, “a figura de Sepé é plástica”, pois simboliza “resistência tanto por parte dos trabalhadores sem terra, como para os ruralistas”.

Graduada em Ciências Sociais e especialista em História do Rio Grande do Sul pela pela UFRGS, Maria Eunice Maciel é especialista, também, em Antropologia Social pela Universidade de Paris. Cursou mestrado em Antropologia Social pela UFRGS e doutorado na Universidade de Paris com a tese Le gaucho bresilien – identite culturelle dans le Sud du Bresil. De sua produção bibliográfica, destacamos O lugar comum da diferença (Porto Alegre: UFRGS, 2009) e Temas em cultura e alimentação (Aracaju: Editora da Universidade Federal de Sergipe, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Sepé Tiaraju é interpretado como símbolo de resistência por alguns pesquisadores, e como mito, por outros. Como a senhora o define e o caracteriza?

Maria Eunice de Souza Maciel - Colocaria diferente. A figura de Sepé é plástica, ou seja, é símbolo de resistência tanto por parte dos trabalhadores sem terra, como para os ruralistas. Os trabalhadores o representam enquanto o guerreiro, aquele que luta contra um poder muito maior do que ele. Já os ruralistas se apropriam de uma frase atribuída à Sepé: "esta terra tem dono".

O símbolo é arbitrário. Ele vai simbolizar aquilo que o grupo quiser que ele represente. Porém, não há dúvida que a identificação com os trabalhadores sem terra é a que restou hoje. Embora alguns ruralistas ainda se reivindiquem do dístico (às vezes), Sepé permaneceu como um símbolo de resistência, uma figura emblemática. Sepé é um emblema muito forte. Já mito, (diferentemente do senso comum que o tem como sinônimo de falsidade) para a antropologia é uma narrativa significativa, particular, de um determinado grupo, como por exemplo, os mitos de origem. Eles dão conta, organizam o mundo. Assim, não está em questão falsidade ou não.

IHU On-Line - Como a figura de Sepé Tiaraju se insere na história do Rio Grande do Sul? Qual a influência dele para a construção da história gaúcha?

Maria Eunice de Souza Maciel - A figura de Sepé Tiaraju, assim como a epopéia jesuítica das Missões, se incluem com destaque na história do nosso Estado. Há algum tempo atrás, ainda havia aqueles que discutiam "para quem" eles lutavam, argumentando até mesmo que Sepé teria lutado ao lado "dos espanhóis". Hoje esta discussão está (ainda bem) tão deslocada que parece risível. A perspectiva que temos atualmente é ver a construção de uma sociedade como um processo. E nele, podemos ver Sepé como protagonista de um momento muito especial e um dos emblemas identitários. É importante salientar que hoje ele, enquanto emblema, ultrapassa as fronteiras. A bravura de Sepé vai além do Rio Grande do Sul. Ele pode (e está sendo) usado em lutas onde se enfrentam forças desiguais.

IHU On-Line - Qual é a contribuição de Sepé Tiaraju para a construção da cultura gaúcha?

Maria Eunice de Souza Maciel - Eu diria que ele é uma figura emblemática desta terra. Sepé representa aquilo que os gaúchos querem que os outros pensem sobre eles. Assim, faz parte do processo identitário riograndense.

IHU On-Line - Como entende a apropriação das lutas de Sepé pela cultura gaúcha?

Maria Eunice de Souza Maciel - Trata-se do processo de construção de uma identidade. E identidade se refere àquilo que inclui e exclui. Assim, na construção da figura emblemática que representa esta terra - o gaúcho - são evocados os indígenas como antepassados e, entre eles, a figura de Sepé.

IHU On-Line - Sepé é aclamado entre os indígenas, mas seu reconhecimento e admiração se estendem também ao povo gaúcho. A que atribuir esse fenômeno?

Maria Eunice de Souza Maciel - Ele é aclamado entre os indígenas? Eu não sei. Os guarani que conheço não sabem quem é ele. Mas meu conhecimento e de poucas aldeias, não é significativo como amostra. Também pelos kaigangs? Acho melhor perguntar para um especialista em sociedades indígenas.

IHU On-Line - Como a imagem de Sepé, enquanto herói indígena, se manifesta no imaginário do povo gaúcho?

Maria Eunice de Souza Maciel - Enquanto imagem de bravura ele pode se identificar com outra figura: a do gaúcho. É interessante lembrar que na construção da figura do gaúcho entram sempre elementos do índio. Mas de um indígena idealizado, um indio "lendário". O índio real, atual, com seus inúmeros problemas, o maior dele, de terras, é deixado de lado. Ou seja, me perdoem se a frase é forte, mas para estas pessoas que endeusam Sepé e não querem saber de seus descendentes, "índio bom é índio morto". A imagem de Sepé em seu cavalo é uma imagem forte, leva à identificação. A imagem dos indígenas atuais (guaranis ou não) é de miséria. Pergunto se não há muito de hipocrisia nisso.

Leia mais...
>> Maria Eunice de Souza Maciel já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line:

* Pelos caminhos do gauchismo. Notícias do Dia 14-09-2006;
* A cozinha e seus mitos. Edição 172 da Revista IHU On-Line, de 20-03-2006.


Baú da IHU On-Line
>> Sepé Tiaraju já foi tema de outras entrevistas da IHU On-Line. Confira.
 
* Essa terra tem dono, nós a recebemos de Deus e de São Miguel. Edição 156 da Revista IHU On-Line, de 19-09-2005;
* São Sepé Tiaraju. Edição 331 da Revista IHU On-Line, de 31-05-2010;

* A demolição do Oratório dedicado a Sepé Tiaraju. Entrevista com Guilherme Abib, publicada nas Notícias do Dia 14-07-2010;
* Uma conversa sobre gauchismo, Sepé Tiaraju e Simões Lopes Neto. Entrevista com Agemir Bavaresco e Luís Borges, publicadas nas Notícias do Dia 22-06-2006.

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