Edição 334 | 21 Junho 2010

A pátria de chuteiras

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

José Afonso de Oliveira

Recebemos e publicamos o artigo que segue, de autoria do professor José Afonso de Oliveira. No texto, ele considera a Copa do Mundo como “nosso único ato cívico por excelência”.

José Afonso de Oliveira é professor de sociologia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE. Tem especialização em sociologia, educação ambiental e história. É ainda professor de sociologia na União Dinâmica de Faculdades Cataratas - UDC, e professor de História da Secretaria Estadual de Educação do Paraná, além de professor de História e Sociologia do curso pré-vestibular do Colégio Caesp.

Eis o artigo.

Estamos em clima de Copa do Mundo de Futebol, tudo está modificado para que possamos participar desse que é o nosso único ato cívico por excelência.

As cores nacionais enfeitam as nossas casas, shoppings, supermercados. Bandeiras são vistas por todo o lado. Estamos envolvidos nesta grandiosa festa cívica. Nada exalta mais o nosso nacionalismo do que esse maior evento esportivo do mundo, agora transformado no maior espetáculo global.

Em 29 de junho de 1958, tinha 9 anos de idade e vibrava com o fato de termos sido campeões do mundo na Suécia. Estava em minha cidade natal, Santos, de onde provinha o fenômeno do Pelé, então com apenas 17 anos de idade.

Mas a Copa do Mundo da Suécia foi vencida pelo Brasil que tinha seus bons jogadores, todos jogando em clubes, sempre os mesmos. Para tanto, basta lembrar o fenômeno Mané Garrincha do Botafogo ou do estreante Pelé, do Santos. O nosso técnico, ora dispensável, era o Vicente Feola , com seu peso descomunal, mal podendo andar.

O improviso, a distância, o choque cultural, tudo isso colaborou para que pudéssemos brilhar nos campos da Suécia e, pelo rádio, ficássemos sabendo das peripécias dos nossos craques. Com eles vibrávamos, colecionávamos figurinhas, fazíamos álbuns. Tudo isso é um passado glorioso, belíssimo, muito diferente de tudo aquilo que estamos assistindo agora.

O nosso técnico desfila moda, diga-se de passagem, de gosto muito duvidoso. Não fala com a imprensa, dá entrevistas coletivas, treina em segredo, sem que ninguém possa saber o que está ocorrendo.

Mas, digamos assim, tudo isso é secundário, fazendo parte do jogo da mídia. O principal mesmo é que nosso time está vazio de jogadores, todos eles nasceram por aqui, mas jogam por lá, provenientes que são de clubes europeus. Evidente que o fato é repetido à exaustão pelos demais grandes times.

Temos assim uma Copa do Mundo de craques, e não de times de futebol. Muito mais do que isso, há uma tremenda disputa pelos patrocinadores que vão desde aqueles que ofertam materiais esportivos até os de bebidas.

A organizadora do espetáculo, a FIFA, como é sabido, age imperialmente, sem consultar a ninguém, tem todos os patrocinadores nas mãos, não pode ser tributada nos países onde as Copas se realizam, constituindo-se assim num poder acima do Estado. Mais do que isso, tem mais representantes em suas assembleias do que as Nações Unidas, sendo tudo isso obra de um dirigente brasileiro.

Mas voltemos ao nosso time de craques europeus, ou, se for mais conveniente, europeizados. Gastam-se fortunas exageradas, provenientes dos bolsos dos cidadãos, através de cenas da vida. Treinos, atendimentos especializados, profissionais que são não fazendo outra coisa na vida. Tudo isso para produzirem um espetáculo pífio, medíocre, sem entusiasmo algum.

Fica a proposta que os times que disputam a Copa só possam ter participantes nascidos nos respectivos países, valendo para o Brasil que os jogadores sejam provenientes de times brasileiros que disputam os nossos vários campeonatos. O fato de não levar jogadores altamente competentes mostra bem a ideia dos jogadores estrangeiros que, vencedores, terão maior valor de mercado.

Mas é esse tal de mercado também que faz com que eles não joguem, pois podem sofrer contusões sérias e terem grandes prejuízos. Por isso é melhor ficar passeando em campo e, num tremendo esforço, os comentaristas durante o jogo tentam criar um time entusiasmado, dizendo que após o intervalo eles voltarão melhor. Que nada, eles têm mesmo outras preocupações, e o prepotente do técnico nada fala, pois que não tem mesmo nada a dizer, a não ser patrocinar moda, de gosto duvidoso.

Mas tudo isso é a reprodução mais fiel possível do atual mundo globalizado, onde tudo é reduzido ao capital. Assim o esporte hoje é mera forma de acumulação, perdendo completamente todo o seu potencial criativo, artístico.

A diferença da Copa de 1958 para agora está exatamente aí, um futebol gostoso, bonito, contra um futebol técnico, pesado, sem nenhuma graça, que não empolga mesmo.

Pior é a transformação de uma festa de aproximação dos povos, em uma competição altamente política e de domínio de mercado. Não espanta se tivermos brigas reais, pois o clima é mais para isso do que para grandes comemorações.

Últimas edições

  • Edição 549

    Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

    Ver edição
  • Edição 548

    Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

    Ver edição
  • Edição 547

    Clarice Lispector. Uma literatura encravada na mística

    Ver edição