Edição 332 | 07 Junho 2010

Uma história geopolítica da pílula

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Graziela Wolfart e Márcia Junges

Para a historiadora argentina Karina Felitti, além do que se havia planejado como objetivos demográficos, econômicos e políticos, a pílula revolucionou a vida sexual e afetiva da sociedade

Na visão de Karina Felitti, historiadora argentina, “a aparição da pílula anticoncepcional no mercado farmacêutico não pode ser interpretada de modo descontextualizado, considerando a importância que estavam tendo, na década de 1960, os debates sobre a explosão demográfica e as teorias de desenvolvimento”. Do mesmo modo, continua ela, “não se pode deixar de lado a importância do feminismo da segunda onda e seus reclames no terreno da liberdade sexual, assim como a extensão de novas relações familiares e de gênero”. Em entrevista concedida, por e-mail, para a IHU On-Line, Karina Felitti explica alguns elementos que levantou na sua tese de doutorado em História, defendida no ano passado e intitulada Regulação da natalidade na história argentina recente (1960-1987). Discursos e experiências. Ela argumenta que a recepção da pílula na Argentina “se deu em um contexto de profundas transformações nas relações de gênero e nos modelos familiares. Uma crescente mobilização social e política que levava a denunciar as tentativas de controle por parte dos Estados Unidos”. Segundo sua análise “a pílula é um método anticonceptivo eficaz, sem efeitos negativos na saúde das mulheres e que é exclusivamente feminino. Pensá-la como um modo de reduzir a pobreza é pensá-la em termos geopolíticos como se pensava nos anos 1960. É uma falácia crer que o problema dos países que não alcançam o desenvolvimento seja o fato de que têm muitos habitantes. O que deve se considerar é como se distribui a riqueza a nível global e entre os distintos setores sociais a nível local”.

Karina Alejandra Felitti é professora de História na Universidade de Buenos Aires - UBA e membro do Instituto Interdisciplinario de Estudios de Género (IIEGE) da Faculdade de Filosofia e Letras da UBA. É mestre em História Argentina e contemporânea pela Universidad Torcuato Di Tella (UTDT) e doutora em História pela Faculdade de Filosofia e Letras da UBA. Leia, no sítio do IHU, uma matéria com ela, publicada em 19-05-2010.
 
Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em que sentido podemos analisar a pílula anticoncepcional sob o olhar geopolítico, ideológico e social?

Karina Felitti - A aparição da pílula anticoncepcional no mercado farmacêutico não pode ser interpretada de modo descontextualizado, considerando a importância que estavam tendo, na década de 1960, os debates sobre a explosão demográfica e as teorias de desenvolvimento. Do mesmo modo, não se pode deixar de lado a importância do feminismo da segunda onda e seus reclames no terreno da liberdade sexual, assim como a extensão de novas relações familiares e de gênero.

IHU On-Line - Quais os principais mitos que envolveram historicamente a invenção da pílula anticoncepcional?

Karina Felitti - Um dos mitos mais recorrentes é associar a pílula com a libertação sexual de mulheres jovens, sem considerar que muitas mulheres casadas e com filhos/as eram quem mais reclamavam um método de controle da natalidade eficaz. Tampouco é um símbolo do feminismo da segunda onda, uma vez que as feministas afro-americanas e muitas feministas latino-americanas denunciaram os testes que eram feitos com populações de baixos recursos, e as premissas neo-malthusianas , que responsabilizavam as mulheres pela falta de desenvolvimento em seus países.

IHU On-Line - De que maneira as discussões internacionais sobre a "explosão demográfica", os métodos anticonceptivos "modernos" e o planejamento familiar foram assumidos pelo Estado argentino?

Karina Felitti - Na Argentina, temos uma situação distinta se compararmos com outros países latino-americanos, uma vez que seu problema não era o excesso de população, mas a carência. A precoce transição demográfica, processo que se dá entre o final do século XIX e a década de 1930, fez com que o Estado reforçasse seus discursos populacionistas, ainda que isso não repercutisse em uma política concreta, ao menos até a década de 1970. Por isso, mesmo considerando que o planejamento familiar não foi apoiado pelo Estado, tampouco se promoveram medidas que o proibiram até 1974. Ainda depois deste ano, pouco se atuou em consequência das medidas restritivas que haviam imposto.

IHU On-Line - Como a pílula foi recebida nestes últimos 50 anos pelo campo intelectual argentino, bem como a corporação médica, as organizações católicas, a indústria cultural, o feminismo e a militância política de esquerda no país?

Karina Felitti - De modo geral, pode-se dizer que a recepção da pílula se deu em um contexto de profundas transformações nas relações de gênero e nos modelos familiares. Uma crescente mobilização social e política que levava a denunciar as tentativas de controle por parte dos Estados Unidos. Nesse sentido, há coincidências nos repúdios, tanto da direita, por questões de geopolítica, nacionalismo e alinhamento com os postulados da hierarquia católica, quanto da esquerda, contra o que consideravam reclames do feminismo "burguês" e os desígnios imperialistas.

IHU On-Line - A pílula foi recebida pelo mundo todo como arma para acabar com gestações indesejadas, reduzir o número de divórcios e controlar o crescimento populacional e a pobreza. Por que, até hoje, nada disso aconteceu?

Karina Felitti - Não diria que isso não aconteceu. A pílula é um método anticonceptivo eficaz, sem efeitos negativos na saúde das mulheres e que é exclusivamente feminino. Pensá-la como um modo de reduzir a pobreza é pensá-la em termos geopolíticos como se pensava nos anos 1960. É uma falácia crer que o problema dos países que não alcançam o desenvolvimento seja o fato de que têm muitos habitantes. O que há que se considerar é como se distribui a riqueza a nível global e entre os distintos setores sociais a nível local.

IHU On-Line - Por que a pílula nunca foi realmente abraçada em países em desenvolvimento como forma de controle populacional?

Karina Felitti – Ela foi aplicada, ainda que os efeitos tenham sido além das políticas neo-malthusianas. Ou seja, a pílula ajudou as mulheres a poder separar o prazer sexual da reprodução; e as famílias a planejar o número de filhos e o momento de tê-los. Nesse sentido, além do que se havia planejado como objetivos demográficos, econômicos e políticos, a pílula revolucionou a vida sexual e afetiva da sociedade. 

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