Edição 331 | 31 Mai 2010

IHU Répórter - Ana Boessio

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Patricia Fachin e Graziela Wolfart

Ela é formada em Letras, mestra em literatura italiana, especialista em Poéticas Visuais e Doutora em Literatura Inglesa, professora de língua estrangeira, tradutora e artista plástica. Seu nome é Ana Boessio e ensina italiano e inglês no Instituto de Idiomas Unilínguas, da Unisinos. Amante das artes e da cultura italiana, Ana fala sobre sua trajetória pessoal e profissional, sobre a forma como lida com grandes perdas já sofridas e sobre sua crença na doutrina espírita. Confira:

Origens – Nasci em Porto Alegre, mas moro aqui, em São Leopoldo, há 12 anos. Sou de origem italiana.

Línguas – Sempre tive interesse por línguas estrangeiras. Comecei a estudar inglês com 10 anos de idade. Depois, na adolescência, comecei a estudar francês. Sempre tive uma relação com a cultura italiana muito forte porque a família do meu pai é italiana, e lembro de minha avó contanto histórias sobre eles vindo para o Brasil, histórias que vemos até em novelas. Ela nasceu aqui, mas os irmãos todos vieram da Itália. Tem uma carga cultural muito forte em nossa família, e me sinto muito vinculada a ela. Aliás, antes de estudar Letras, eu estudava Arquitetura. Mas só fui realmente me sentir satisfeita e feliz quando fui para a faculdade de Letras. E quando eu comecei a estudar italiano, lembro que houve uma espécie de encaixe da questão cultural, das minhas raízes, com essa linha de trabalho. A partir daí, as coisas foram acontecendo. Ainda, na faculdade, fui monitora de uma professora que desenvolvia um projeto de implantação da língua italiana em centros de língua, o que, na época, não existia. Esse projeto se uniu a um trabalho da secretaria estadual, de pluralismo de idiomas. Com isso, desenvolvemos um trabalho em escola pública, onde trabalhei por dez anos, com o ensino de língua italiana.

Vida na Itália – Morei um tempo na Itália, onde estudei literatura comparada na Universidade de Roma, e essa experiência foi muito forte, até porque há um processo de contraste. Nós temos uma italianidade aqui que não existe lá. Tudo o que nós chamamos de italiano, cultura italiana, que tem a ver com a nossa região, na verdade, está muito distanciado da cultura italiana atual. Na Itália hoje, encontramos um povo extremamente urbano, americanizado, tanto na linguagem quanto nos hábitos. Essas diferenças são marcantes para quem vai à Itália pela primeira vez. O princípio que alimentamos da cordialidade, da simpatia italiana se choca com Roma, que é uma cidade grande e com os mesmos conflitos de qualquer cidade grande do mundo.

Vida nos EUA - Em 1990, minha família e eu fomos para os Estados Unidos, onde fiz meu mestrado em Literatura Italiana. Lá , retomei um projeto antigo, que era estudar artes. Quando voltei ao Brasil, comecei a reconectar essas questões.

Família e projetos pessoais – Sou viúva há nove anos. Meu marido, José Pedro Boessio, era o maestro da Orquestra Unisinos e diretor cultural da universidade. Ele trabalhou muitos anos aqui. Houve um acidente, onde ele faleceu juntamente com dois dos nossos três filhos. Esse foi um momento de zerar todos os relógios, onde foi preciso redimensionar a vida toda, porque ficamos eu e minha filha mais velha, que, na época, tinha nove anos de idade. Essa experiência tem definido todas as minhas escolhas desde então. Meu primeiro projeto pessoal nesses nove anos foi meu doutorado em Literatura Inglesa, realizado na UFRGS, que recém concluí. É uma proposta interdisciplinar na qual trabalho com uma peça de um autor irlandês, Samuel Beckett, e proponho uma poética visual, que é um método de pesquisa utilizado em artes visuais e, dessa forma, partindo dos elementos pictóricos presentes na obra, construo interfaces entre artes visuais, cinema e teatro para analisar o espaço /tempo na obra e suas relações com o leitor-espectador. Uma das coisas mais bonitas que aconteceu no processo de pesquisa foi descobrir os vínculos teóricos de Beckett com a literatura italiana e também com a arquitetura, o que fez com que eu resgatasse saberes de vários momentos da minha vida acadêmica e profissional.

Unilínguas – Sou professora de língua inglesa e italiana no Instituto Unilínguas, onde desenvolvemos uma gama de atividades. O Unilínguas oferece serviços in-company para empresas dentro e fora do campus, serviços de tradução e interpretação e eu trabalho, muitas vezes, nesse tipo de projeto. Além disso, há sempre projetos dos quais o Instituto se torna parceiro da universidade, sendo que eu tive a oportunidade de participar de alguns deles. Também trabalho como tradutora autônoma.

Produção com arte visual – No momento, minha produção pessoal com arte visual está mais parada; acho que em razão de ter ficado muito mergulhada na questão teórica da arte visual em função do doutorado. Mas é uma das minhas paixões.

Ser professora - Gosto muito de ser professora e de realizar as atividades que desenvolvo. Não há nada mais importante e desafiador do que conseguir ser um educador. Aí não depende do que se ensina. A grande questão é a carga que nós, enquanto professores, trazemos e que afeta o aluno, às vezes, indireta e inconscientemente. O grande desafio é sair da condição de um mero instrutor, para a condição de professor, de educador. 

Horas livres – Amo ir ao cinema. De tudo, é o que eu mais gosto de fazer. Sou cinéfila. Gosto também de passeios alternativos, de ir para a natureza. Não sou muito agitada. Pelo menos um dia do final de semana gosto de passar em casa. Adoro de ter minha filha por perto. Ela estuda aqui na Unisinos, faz o curso de Design.

FilmeOrgulho e preconceito e A Festa de Babete. São filmes que tratam de questões relacionadas ao universo feminino, e que não canso de ver. O último filme que vi e gostei realmente foi O segredo dos seus olhos, um filme argentino maravilhoso.   

Religião – Sou espírita. Tenho um trabalho, há muitos anos, numa sociedade espírita em Porto Alegre, e honro muito essa atividade. Seja o que for que eu faça, sempre reservo e preservo esse tempo, porque ele é altamente nutridor. Nem tenho a presunção de achar que vou lá ajudar aos outros. Com certeza, em primeiro lugar, estou me ajudando. A doutrina espírita tem sido o grande diferencial na minha vida, até para administrar essas perdas todas. Foi fundamental nesse processo de renascimento. Eu venho de família espírita, comecei a assumir algumas tarefas na casa por volta dos 20 anos. Desde então, tenho mantido isso. É um elemento de sustentação muito importante na minha vida.

Sonhos – É meu projeto e espero poder, muito em breve, desenvolver um trabalho numa linha interdisciplinar, tanto em sala de aula quanto em pesquisa, onde possa principalmente estabelecer um dialogismo entre as várias linguagens artísticas. Como a minha filha é americana, é também um projeto fazermos outra viagem para lá e também para a Europa. São projetos que estão no meu horizonte mais próximo. Em termos de sonhos e desejos da alma, o que eu mais quero é ver minha filha feliz.    

Unisinos – A Unisinos representa muitas coisas para mim. Primeiro, pela minha história pessoal, pois a Unisinos foi o espaço de trabalho do meu marido, e ele tinha um vínculo de profundo amor com a universidade e com o trabalho que ele desenvolvia aqui. Isso gera em mim um sentimento de gratidão pela instituição. Até mesmo pelo apoio que me deram naquele momento, que foi muito importante. Além disso, a Unisinos tem sido o meu espaço de trabalho, que eu honro, com certeza. Além da facilidade de morar a 7 minutos de distância e do campus ser um espaço físico extremamente agradável, não tiro daqui apenas meu salário no final do mês, obtenho aqui um ganho e um crescimento pessoal muito grande.

IHU – É um projeto desafiador para os tempos atuais. Pelo que entendo, a grande função do IHU é o resgate da dimensão humana em todos os níveis do espaço acadêmico, na questão da diversidade, da inclusão, mas também no nível das inter-relações. O trabalho que o IHU desenvolve na área do diálogo inter-religioso, por exemplo, é algo maravilhoso. Qualquer espaço onde se possam oxigenar os muitos saberes é fundamental.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição