Edição 331 | 31 Mai 2010

“Novos Princípios de Economia Política”, de Jean-Charles-Léonard Simonde de Sismondi

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Graziela Wolfart

Conforme análise da tradutora Fani Figueira, a obra Novos Princípios de Economia Política representa uma reviravolta nas ideias econômicas de Sismondi

A Segesta Editora (www.segestaeditora.com.br), de Curitiba, acaba de publicar o nono volume da coleção Raízes do Pensamento Econômico. Trata-se da obra clássica de Jean-Charles-Léonard Simonde de Sismondi, Novos Princípios da Economia Política, cuja primeira edição é de 1819. A segunda é de 1827. Fani Figueira é a tradutora do livro e uma das editoras da Segesta. Na entrevista a seguir, concedida, por e-mail, à IHU On-Line, ela explica que as conclusões de Sismondi representam divergências fundamentais com relação aos princípios de vários pensadores, que acreditavam que o capitalismo era capaz de criar a sociedade do bem-comum. “Sismondi não nega o potencial revolucionário do capitalismo, sua capacidade quase ilimitada de produzir um volume de riquezas cada vez maior. Nega, no entanto, e por isso seu livro se intitula Novos Princípios de Economia Política, que todas as classes se beneficiem com o aumento da riqueza. Afirma – e esta provavelmente é a ideia central de sua obra – que o aumento da riqueza é, ao mesmo tempo, aumento da pobreza. Conclui que o capital é uma riqueza que vive daquilo que o capitalista não paga ao trabalhador. Tendo chegado a este ponto, Sismondi conclui que a atual forma econômica só pode gerar sofrimento e tormentos para a classe trabalhadora”. E Fani dispara: “seu livro pode ser considerado como um alerta para a necessidade de mudanças profundas”.

Fani Goldfarb Figueira é socióloga e doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo - USP.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual a principal contribuição de Sismondi para o pensamento econômico clássico mundial?

Fani Figueira - Além dos Novos Princípios de Economia Política, Sismondi  é autor de outras obras em que expõe as teses mais gerais da economia clássica. Os Novos Princípios, que ele publica em 1819 e 1827, representam uma reviravolta em suas ideias econômicas. Ele próprio faz referências a essa mudança em suas ideias. Essa mudança significa um rompimento radical com o pensamento de Adam Smith  e uma total discordância com relação ao que defendia David Ricardo  e seus seguidores. É uma característica geral da Economia clássica a ideia de que o aumento da riqueza beneficiaria a todas as classes da sociedade. É neste ponto que toma vulto a discordância de Sismondi com relação aos princípios da Economia Política. Por isso é que, se podemos falar da contribuição de Sismondi para entender a economia clássica, muito provavelmente ela estará presente nos termos em que ele organiza o seu pensamento para mostrar que os fundamentos nos quais se baseia aquela ciência carecem de confirmação prática. E, neste sentido, suas conclusões representam divergências fundamentais com relação aos princípios de Adam Smith, Ricardo e todos os pensadores, tanto franceses quanto ingleses, que acreditavam que o capitalismo era capaz de criar a sociedade do bem-comum. Sismondi não nega o potencial revolucionário do capitalismo, sua capacidade quase ilimitada de produzir um volume de riquezas cada vez maior. Nega, no entanto, e por isso seu livro se intitula Novos Princípios de Economia Política, que todas as classes se beneficiem com o aumento da riqueza. Afirma – e esta provavelmente é a ideia central de sua obra – que o aumento da riqueza é, ao mesmo tempo, aumento da pobreza. Conclui que o capital é uma riqueza que vive daquilo que o capitalista não paga ao trabalhador. Tendo chegado a este ponto, Sismondi conclui que a atual forma econômica só pode gerar sofrimento e tormentos para a classe trabalhadora. Ele afirma: “O lucro do empresário não é outra coisa senão uma espoliação do trabalhador que ele emprega. Ele não ganha porque sua empresa produz muito mais do que ela lhe custa, mas porque ele não paga tudo o que ela lhe custa...”. (p. 81)

IHU On-Line - O que resume os princípios de economia política de Sismondi?

Fani Figueira - As teses defendidas por Sismondi são uma frontal oposição aos economistas políticos. Quando Sismondi afirma a respeito deles “que se suas teorias tendiam a tornar os ricos mais ricos, tornavam, também, os pobres mais pobres, mais dependentes e mais espoliados”, podemos dizer, na verdade, que vem abaixo todo um edifício teórico construído em três séculos pelas cabeças pensantes mais capazes da França e da Inglaterra. Se não podemos esquecer que entre os princípios solidamente estabelecidos por Adam Smith e sua crítica implacável elaborada por Sismondi decorre tão-somente meio século, menos ainda podemos esquecer que apenas dois anos separam a obra-prima de David Ricardo, seus Princípios de Economia Política e Tributação, e os Novos Princípios de Sismondi.
 
IHU On-Line - Em que consiste a crítica de Sismondi à riqueza obtida por meio do trabalho assalariado?

Fani Figueira - Já vimos como Sismondi parte da crítica ao modo como a ciência econômica clássica concebe a participação das classes que participam da produção, ou seja, capitalistas e trabalhadores assalariados, no usufruto da riqueza. Cabe aqui lembrar que já Ricardo havia chegado à conclusão de que os resultados trazidos pela industrialização não beneficiavam igualmente as classes sociais. Em passagem brilhante dos seus Princípios ele afirma que, ao contrário do que se divulgava então, os benefícios que cabiam aos industriais estavam na ordem inversa daqueles que eram colhidos pelas classes trabalhadoras. Sismondi se pergunta: “Esta opulência nacional, cujo progresso material nos ofusca a todos, terá, por acaso, trazido, finalmente, alguma vantagem para o pobre?”. E responde: “De jeito nenhum”. (p. 28)

IHU On-Line - Como definir a posição de Sismondi sobre a revolução industrial e o ingresso das máquinas na produção que antes era mão-de-obra humana?

Fani Figueira - Vimos que Ricardo chega a uma conclusão surpreendente, se considerarmos os próprios fundamentos da Economia Política, com relação ao papel da indústria na distribuição da riqueza entre as classes ligadas à sua produção. Indo ainda mais fundo, Marx, em seu estudo sobre a acumulação do capital, nos mostra que a máquina entra na produção para aumentar a parte correspondente ao trabalho não pago. Acusado de se opor ao uso das máquinas, Sismondi se defende, de maneira brilhante, demonstrando que o propalado benefício que elas poderiam trazer para os trabalhadores era uma conclusão a que a organização social existente não permitia chegar. Deixemos que o próprio Sismondi explique suas ideias a respeito das máquinas: “Peço, pois, que me prestem atenção: não é contra as máquinas, nem contra novas descobertas, nem contra a civilização que se voltam as minhas objeções, mas contra a moderna organização da sociedade, organização que, ao despojar o homem que trabalha de toda e qualquer propriedade, com exceção de seus braços, não lhe dá nenhuma garantia contra a concorrência, contra uma competição exacerbada que se faz em seu prejuízo, e da qual ele é necessariamente a vítima. Suponhamos que todos os homens partilhem igualmente entre si os produtos do trabalho para o qual concorreram e que toda nova descoberta na indústria represente, então, um benefício para todos eles, pois, após cada progresso na indústria, eles poderão, sempre, escolher entre ter menos trabalho e um repouso mais longo ou o mesmo trabalho e mais coisas para usufruir. Atualmente, não é uma nova descoberta que constitui um mal, mas a injusta partilha que o homem faz de seus frutos”.

IHU On-Line - Em linhas gerais, quem foi Jean-Charles-Léonard Simonde de Sismondi? Como podemos entender a afirmação de Marx, de que Sismondi teria sido um pensador pequeno-burguês? 

Fani Figueira - Sismondi foi, primeiramente, um adepto da Economia Política. É também conhecido por sua vasta produção como historiador. E, como tal, escreveu uma história da França e outra da Itália, ambas compostas de vários volumes. Sismondi nasceu na Suíça de língua francesa. Viveu vários anos na Inglaterra, onde aprofundou seus estudos econômicos e onde chegou às conclusões que formam o centro de seu pensamento contido nos Novos Princípios. Seu rompimento com a Economia Política é um dos fatos mais relevantes de sua trajetória como economista. Segundo os critérios de avaliação de Marx, Sismondi é um pensador ímpar. Classificá-lo como um pensador pequeno-burguês decorre, para Marx, do fato de que ele vê a solução dos problemas inerentes à sociedade capitalista, não numa profunda transformação que supere o próprio capitalismo, mas no papel do Estado. Como, para Marx, o Estado representa a classe capitalista, ele só pode sancionar a sociedade dominada pelo capital. No entanto, ao destacar o fato de que Sismondi considera que “a riqueza sempre tem por pressuposto a pobreza, e só se desenvolve na medida em que promove a pobreza”, Marx faz-lhe um elogio que só reservava àqueles que rompiam o cerco ideológico com que os capitalistas cercam sua visão da sociedade moderna.

IHU On-Line - Que relação podemos estabelecer entre os Princípios de economia política, de David Ricardo e os novos princípios da obra em questão, de Sismondi?

Fani Figueira - Uma relação de oposição radical. Os Novos Princípios de Economia Política de Sismondi representam uma crítica direta e profunda a Ricardo e a seus discípulos. Sismondi procura mostrar que os princípios que servem de fundamento à obra de Ricardo são puras abstrações que não resistem à prova da prática. Mostra que um dos pressupostos que serve de alicerce à construção teórica dos economistas, a felicidade de todos, não se realiza no mundo real, mas apenas nas abstrações dos economistas. Desta constatação, nasce a crítica de Sismondi.

IHU On-Line - Para Sismondi, qual seria a relação ideal entre o progresso e o bem-estar das classes trabalhadoras?

Fani Figueira – Ele não trata da relação ideal, mas da relação existente, aquela que torna os ricos sempre mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres. Para ele, relação necessária em se tratando da “moderna organização da sociedade”.

IHU On-Line - Em que medida a obra ajuda a pensar nos rumos do capitalismo, considerando a recente crise financeira global?

Fani Figueira - A razão principal pela qual a Editora Segesta resolve publicar os Novos Princípios de Economia Política de Sismondi consiste exatamente no fato de que as suas formulações críticas ajudam a entender, num plano bem mais geral e profundo, o funcionamento da sociedade capitalista e as contradições que fazem parte de sua natureza. Como, apesar de todas as transformações por que passou essa sociedade nos últimos dois séculos, ela guarda o que a sua natureza tem de fundamental, ou seja, aquela contradição apontada por Sismondi, seu livro pode ser considerado como um alerta para a necessidade de mudanças profundas.

IHU On-Line - Qual a importância de publicar, em português, uma obra da envergadura de Novos Princípios de Economia Política?

Fani Figueira - Como diz Sismondi, a ciência social deve ter como objetivo a felicidade humana. Esta sua afirmação encerra, na verdade, o conteúdo principal de sua crítica aos economistas clássicos, pois ele cobra dos economistas políticos aquilo que eles próprios anunciaram como razão de ser da ciência econômica, ou seja, a felicidade de todos. Nós, da Editora Segesta, também tivemos como orientação principal, ao publicar em língua portuguesa os Novos Princípios de Economia Política de Sismondi, este objetivo que, segundo ele, deve nortear a ciência social. Pouco menos de dois séculos nos separam da data em que eles foram publicados e, no entanto, suas críticas aos economistas clássicos e aos fundamentos da sociedade capitalista, sobretudo neste momento de crise, são de uma grande atualidade. Sobretudo porque, para Sismondi, o Estado tem um papel relevante na proteção aos trabalhadores frente à ganância do capital. Os trabalhadores, para Sismondi, encontram-se, nesta luta, em uma situação de terrível inferioridade, e, se não forem protegidos pelo Estado, não terão como escapar às condições de vida mais dramáticas. Em poucos períodos da história, como agora, esta foi uma discussão tão premente. Esta é outra forte razão que levou a Editora Segesta a publicar uma tradução daquela obra. Os leitores que se interessarem por nossas publicações poderão acessar o site da editora (www.segestaeditora.com.br). Somos uma pequena editora que tem se dedicado com exclusividade à divulgação dos economistas clássicos. Entre os nove livros publicados, podemos mencionar: Da Moeda, de Ferdinando Galiani , Economistas Políticos, que reúne autores como Benjamin Franklin, David Ricardo, Adam Smith, William Petty , Turgot  e outros, e Ensaio sobre a Natureza do Comércio em Geral, de Richard Cantillon .

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