Edição 331 | 31 Mai 2010

Os guarani e o território latino americano: uma relação histórica

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Patricia Fachin | Tradução de Moisés Sbardelotto

Os guarani que vivem no Brasil Meridional, no Paraguai Oriental, no Nordeste da Argentina e nas terras baixas da Bolívia somam, segundo o antropólogo Guillermo Wilde, mais de 100 mil indivíduos.

Geograficamente, os guarani habitaram grande parte do leste da América do Sul e, de acordo com Guillermo Wilde, “trata-se de uma das maiores extensões territoriais alcançadas pelos falantes de uma só língua pré-colombiana na América”. Desde meados do século XX, os guarani foram classificados de acordo com a sua instalação nos territórios das diferentes nações Estado, mas a multiplicidade de nomes adotada entre eles não impede que reconheçam “fortes laços pré-existentes com unidades de organização política e de parentesco que transcendem as fronteiras entre países”. As afirmações fazem parte da entrevista a seguir, concedida, por e-mail, com exclusividade, à IHU On-Line.

Espalhados pela América Latina, os guarani sofreram numerosas adaptações culturais e políticas ao longo de sua trajetória, e elas ajudaram a moldar a “identidade” desse povo, a qual, segundo Wilde, “é muito mais complexa que a nossa”. Para os povos guarani, identidade não significa “falar do nome próprio que aparece em um documento nacional de identidade (o RG) ou de um indivíduo entendido em termos fechados como ‘o idêntico a si mesmo’ e diferente radical do outro e da natureza, ficção da nossa própria modernidade. Para os guarani, a identidade é fundamentalmente um modo de relação (de diálogo) com o entorno visível e invisível (com outros humanos, animais, plantas e seres protetores que compartilham ou não características anímicas com os seres humanos), é o processo de formação da pessoa ao longo da vida (a identidade não está terminada, fechada, mas se transforma, se elabora) seguindo as normas de boa conduta, alimentação e relacionamento de todos os tipos”.

Guillermo Wilde é doutor em Antropologia Sociocultural pela Facultad de Filosofía y Letras, Universidad de Buenos Aires, e atualmente é professor na Universidad Nacional de San Martín – UNSAM, na Argentina. Ele participará do XII Simpósio Internacional IHU – A Experiência Missioneira: território, cultura e identidade, ministrando uma conferência intitulada Religião e poder nas missões, no dia 28-10-2010. A programação completa está disponível no sítio do IHU.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor define a trajetória do povo guarani na América Latina? Que países eles habitavam e qual sua relação com os estados nacionais?

Guillermo Wilde – A distribuição geográfica dos guarani abrangeu uma grande porção do leste da América do Sul. Segundo demonstra a arqueologia, trata-se de uma das maiores extensões territoriais alcançadas pelos falantes de uma só língua pré-colombiana na América. Hoje em dia, existem diversos grupos guarani localizados no Brasil Meridional, no Paraguai Oriental, no Nordeste da Argentina e nas terras baixas da Bolívia. Embora não existam dados demográficos precisos, estima-se que a população total nos quatro países supera amplamente os 100 mil indivíduos. Desde aproximadamente meados do século XX, esse conglomerado complexo do ponto de vista cultural e social foi classificado utilizando-se diferentes etnônimos que variam de acordo com sua instalação nos territórios das diferentes nações Estados. Os mbya guarani, junto com os chiripa (ñandeva ou ava-katú-eté) e os paï-tavyterá (paï ou kaiowá) são reconhecidos como os três subgrupos guarani da área meridional de concentração dos povos que linguisticamente pertencem à grande família linguística tupi-guarani.

Na fronteira entre a Bolívia e a Argentina, existem outros grupos que se autorreconhecem como guarani, como os avá-chiriguano, os tapieté e os izoceño. Apesar da multiplicidade de nomes que os diferentes grupos guarani adotam e de suas diferenciações internas, deve-se destacar que sua presença na região antecede a formação dos Estados nacionais. Por isso, eles reconhecem fortes laços pré-existentes com unidades de organização política e de parentesco que transcendem as fronteiras entre países. Esse aspecto foi reforçado por um alto grau de mobilidade territorial que alguns grupos mantêm até hoje, apesar de o território original ter sido reduzido de maneira dramática no último século, em boa medida devido ao avanço dos Estados nacionais e à expansão acelerada da economia capitalista.

IHU On-Line – Como o senhor caracteriza a identidade do povo guarani?

Guillermo Wilde – A identidade desse povo não pode ser compreendida em profundidade, se não são considerados os múltiplos ângulos ou escalas a partir dos quais o problema pode ser abordado. Não é a mesma coisa falar dos “guarani” como “grupo étnico” e considerar como alguns grupos experimentam seu próprio pertencimento cultural com relação a um passado ou a um Estado particular. Esta última perspectiva, mais histórica e particular, é a que me interessa.

Não podemos esquecer as numerosas adaptações culturais e políticas que esse povo experimentou ao longo de mais de 400 anos, sobre as quais ainda temos poucos dados. Nem se fala de 2.000 anos atrás. O grande dilema para aqueles que investigam o mundo guarani é, precisamente, determinar os aspectos de unidade na diversidade e de diversidade na unidade, o que, como eu digo, responde a processos e situações históricos específicos. Se nos movemos para outro nível, como poderia ser o nível de como os próprios guarani percebem e constroem sua própria identidade, estamos diante de situações diferentes. Sua visão da “identidade” é muito mais complexa do que a nossa.

Para eles, falar de identidade certamente não é falar do nome próprio que aparece em um documento nacional de identidade (o RG) ou de um indivíduo entendido em termos fechados como “o idêntico a si mesmo” e diferente radical do outro e da natureza, ficção da nossa própria modernidade. Para os guarani, a identidade é fundamentalmente um modo de relação (de diálogo) com o entorno visível e invisível (com outros humanos, animais, plantas e seres protetores que compartilham ou não características anímicas com os seres humanos), é o processo de formação da pessoa ao longo da vida (a identidade não está terminada, fechada, mas se transforma, se elabora) seguindo as normas de boa conduta, alimentação e relacionamento de todos os tipos.

A característica fundamental da pessoa humana, o falar e andar de pé, não está dada, mas é adquirida (existe um ritual específico entre os guarani para obter o nome próprio, que é também a própria palavra, ñée) e é preservada seguindo as normas aprendidas dos mais velhos. Por isso mesmo, o estatuto da humanidade é frágil e está sempre em risco. Todos esses aspectos, dentre muitos outros, são parte do que podemos considerar, de fora, como identidade guarani.

IHU On-Line – Que análise o senhor faz da relação hispano-guarani no espaço guarani-missioneiro, desde 1768 até 1800, período estudado em sua pesquisa?

Guillermo Wilde – A dinâmica das relações hispano-guarani depois da expulsão dos jesuítas, em 1768, adquire uma complexidade crescente, em boa parte derivada da intervenção de novos atores políticos e religiosos na região. Depois que os jesuítas partiram para o exílio, foram enviados aos povos guarani sacerdotes de outras ordens religiosas (franciscanos, mercedários e dominicanos), que deviam se ocupar dos assuntos espirituais sem intervenção na economia dos povos, função que foi conferida aos administradores espanhóis, especialmente designados. Isso ocasionou imediatamente muitos conflitos entre esses sacerdotes, dos quais participaram também os membros da elite indígena. O regime de distribuição econômica que havia mantido certo equilíbrio durante a época jesuíta se perdeu, e o clima crescente de desconformidade e decadência econômica levou uma grande quantidade de guarani a fugir de seus povos de maneira temporária ou permanente, tanto para a campanha circundante como para outros povos e cidades da região, onde pudessem ser empregados. Isso estendeu o fenômeno da mescla de população de diferentes origens por toda a campanha.

IHU On-Line – Como o senhor define os guarani das missões antes, durante e depois da presença jesuítica?

Guillermo Wilde – A categoria “guarani” é uma classificação do processo de colonização iniciado antes da chegada dos jesuítas à região. Os colonizadores necessitavam utilizar etnônimos que lhes permitissem contabilizar e controlar populações diversas enormemente estendidas pela região, cuja pertença se circunscrevia menos em termos étnicos do que políticos e parentais. Isto é, era mais comum que os índios se reconhecessem como parentes do cacique tal ou qual do que como “guarani”, “payagúas”, “mbayas” etc., categorias que, em todo o caso, se referiam mais a um status genérico da “humanidade”, do que lhe é próprio, do que a denominações específicas. Isso é particularmente notório no momento da chegada dos jesuítas ao Paraguai, quando se faz referência a caciques e chefes que dominam amplas regiões e com os quais é necessário negociar a criação de povos de missão.

Com a ação dos jesuítas, aprofunda-se um processo de “etnogênese missional”, que, em parte, já havia sido delineado pelos franciscanos, mas que tinha características próprias. Essa “etnogênese missional” consistia em juntar populações dispersas que antes haviam aceitado a vida cristã, para que vivessem em povos de missão com uma estrutura urbana definida, falassem uma mesma língua, o guarani da missão, padronizada mediante catecismos e vocabulários, e respeitassem o cânone litúrgico.

O “guarani missional” é o resultado de um longo processo que se inicia a princípios do século XVII, com a criação de missões nas regiões do Guayrá, do Itatín, do Tape, em boa parte destruídas nesse mesmo século, e com o translado de seus restos para o sul, para a região do Uruguai e do Paraná, para formar os 30 conhecidos povos guarani missioneiros. Essa formação sociocultural particular sobreviveu em muitos de seus aspectos básicos depois da expulsão dos jesuítas e se fragmentou politicamente de maneira definitiva a princípios do século XIX, com a formação dos Estados provinciais primeiro, e nacionais, depois. O interessante é que “o guarani”, nesse período posterior, define uma configuração linguística e cultural que não é propriamente indígena e que será apropriada, mais tarde e de maneira bastante contraditória e ambígua, por Estados nacionais em processo de formação como o Paraguai.

IHU On-Line – Como o senhor analisa a evolução histórica da colonização na província de Misiones, na Argentina, e seus efeitos sobre as populações indígenas mbyá-guarani?

Guillermo Wilde – A colonização da província argentina de Misiones ocorreu em várias etapas desde o final do século XIX. Esse processo se inicia antes no sul do Brasil e do Paraguai, significativamente depois da guerra da Tríplice Aliança  (1865-70). Na Argentina, inicialmente, o processo de colonização foi diretamente impulsionado pelo Estado Nacional argentino, que promoveu a imigração europeia ao país, a criação de colônias e a exploração industrial distribuindo enormes superfícies de terra entre as elites crioulas.

Esse processo foi acelerado durante o século XX com a expansão privada de uma frente agrícola-produtora de gado e florestal de grande escala depois. Essa expansão econômica representou o fim de importantes superfícies da floresta nativa conhecida como “Selva paranaense” ou “Mata atlântica”, onde os mbya-guarani habitam há várias centenas de anos. A selva ficou reduzida a 1% de sua superfície original, literalmente expulsando a população indígena, que não só viu ser diminuída de maneira radical sua capacidade tradicional para a mobilidade, mas também, em muitos casos, experimentou situações de profunda marginalidade econômica e social.

É importante dizer que essa situação alarmante está em curso hoje em dia e é reversível, na medida em que o estado provincial e nacional, seguindo a Constituição nacional, detenha o avanço da indústria madeireira, sojeira e da cana-de-açúcar sobre os territórios indígenas e reconheça o direito original dessas populações de habitar e administrar de maneira exclusiva e autônoma esses territórios.

IHU On-Line – Em que sentido o massacre e a resistência marcaram a trajetória guarani?

Guillermo Wilde – Esses dois aspectos da experiência guarani devem ser considerados em relação a contextos específicos de interação entre os indígenas e as sociedades envolventes desde antes da época colonial até o presente. Por isso, é muito difícil fazer referência de maneira breve às formas guarani de resistência e de adaptação. Podemos também falar, como fizeram alguns autores para outras regiões e períodos, de “adaptação em resistência”. Nesse sentido, inclusive na época colonial, em que é mais comum falar desses termos, não é a mesma a situação dos guarani reduzidos nas missões jesuítas, dos guarani encomendados pelos assuncenhos [de Assunção], dos guarani escravizados pelos bandeirantes, dos guarani artesãos e os peões que fogem para as cidades e estâncias. Cada uma dessas situações expressa formas de adaptação. Assim como determinadas transformações nas lideranças contemporâneas.

A resistência guarani também deve ser inscrita historicamente, na medida em que é uma resposta a condições e variáveis específicas de um contexto. Os movimentos messiânicos e proféticos da época colonial e a ocupação atual das praças exigindo melhores condições de vida ou de títulos de terras são situações de resistência, mas com lógicas completamente diferentes, relacionadas com formas de dominação diferentes, o Estado colonial e as instituições do Estado moderno, e inclusive de certas circunstâncias globais que fazem com que seja possível um espaço para essas modalidades de protesto. Cada uma implica na elaboração de formas singulares de contestação ao regime estabelecido e à opressão. A tarefa da pesquisa social é, precisamente, indagar sobre essas condições históricas de contexto.

IHU On-Line – Em que consistem as práticas sócio-políticas do povo guarani?

Guillermo Wilde – É correto falar de “práticas sócio-políticas” na medida em que a organização social desse povo não está separada do modo como ela concebe o exercício de poder e inclusive também outras esferas da vida social, como a religião ou a economia, que o nosso pensamento moderno tende a separar. Para dizer de maneira breve, essas práticas giram, tradicionalmente, em torno da figura de um líder religioso e político em torno do qual se aglutinam as famílias que formam a comunidade e residem perto umas das outras. Estas reconhecem a autoridade do líder não só como líder, mas também, frequentemente, como pai ou avô, isto é, como parente. A dinâmica econômica também se sustenta nessa figura, capaz de organizar, com base em relações de parentesco, a produção para a subsistência, ou uma rede de relações para além da aldeia propriamente dita.

Essa lógica, ao mesmo tempo política, social, econômica e religiosa, persiste ao longo de toda a história do povo guarani, adaptando-se a circunstâncias específicas relacionadas com o contato com as sociedades envolventes. Por exemplo, entre os guarani atuais, costuma existir, além da figura do líder religioso (opy gua), a figura do cacique ou representante. Essa divisão de “funções” tem sido útil para as comunidades atuais preservarem o conhecimento tradicional e interagir de maneira crescente com as instituições brancas nos diferentes países onde vivem. Na época colonial, junto com a figura dos caciques guarani que viviam nas missões, também existiam funcionários de cabido  que exerciam funções no marco do regime colonial (corregedores, prefeitos, secretários, alferes etc.). Há, então, modulações históricas da organização sociopolítica guarani que constituem a base de sua persistência.

IHU On-Line – Que simbolismos marcam a religiosidade e espiritualidade desse povo? Nesse sentido, qual é a singularidade de seus rituais?

Guillermo Wilde – A religiosidade ou espiritualidade guarani está centrada fundamentalmente na palavra, seja na forma de recitação ou no canto. Esta refere-se a um primeiro tempo originário de formação da pessoa humana e dos seres que povoam o cosmos, que deve ser invocado e atualizado (poderíamos dizer também repetido ou revivido) mediante os rituais que se realizam no local sagrado, o opy, no caso dos mbya-guarani. Essa palavra recitada ou cantada costuma ser acompanhada pelo movimento corporal da dança e o uso de determinados instrumentos musicais utilizados de maneira diferenciada pelos homens e pelas mulheres. É importante destacar que, fora dos momentos rituais, os guarani defendem uma concepção espiritualizada da vida cotidiana, em que a ordem terrena, a conduta dos homens e das mulheres da comunidade, emula a boa conduta dos ancestrais divinizados. Esse aspecto, o seguimento das boas normas de convivência, é fundamental para o equilíbrio cósmico e para a preservação do status humano, sempre em risco de ser perturbado pela desordem e pelas impurezas. Por isso é importante também assistir com frequência ao local sagrado, para recordar, por meio da voz do líder religioso, os ensinamentos dos antigos.

IHU On-Line – Que fatores contribuem para o processo de urbanização dos guarani?

Guillermo Wilde – Ao longo de sua história, os guarani foram capazes de elaborar, em contato com a sociedade envolvente, formas de espacialidade próprias. Nesse sentido, não se pode dizer realmente que eles se encontrem em um “processo de urbanização”. Mesmo que demandem dos Estados nacionais melhores condições de vida, eles possuem suas próprias formas de conceitualizar o território e o espaço, isto é, suas próprias formas de urbanidade, ligadas não exclusivamente a determinado tipo de construção ou de habitação e espaço público ou a formas de se vestir, mas sim a modos de relação e conduta social de acordo com os ensinamentos dos antepassados (humanos e divinos).

É isso o que os guarani contemporâneos denominam de seu “teko” ou “reko” (costume ou modo de ser). Esse “teko” é altamente dinâmico e flexível e, ao longo da história, foi se transformando e incorporando elementos alheios, adaptando-se às circunstâncias que lhe eram impostas, reelaborando elementos tradicionais, sem por isso perder sua identidade. Isso, talvez, nos assinale a tarefa de reelaborar nossa própria noção de urbanidade em termos da noção indígena de “teko”.

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