Edição 330 | 24 Mai 2010

“Criou-se uma moeda europeia, mas não um estado europeu”

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Graziela Wolfart, Márcia Junges e Patricia Fachin

Na Eurolândia, os aderentes perderam a política monetária e a cambial, mas não ganharam as políticas compensatórias, defende Fernando Cardim de Carvalho

“Quando o mundo ia bem, dava para adiar o juízo final através do endividamento público e privado. Quando os mercados de capitais secam, como ocorreu desde a crise de 2007, os problemas saltam aos olhos. Isso serve como uma advertência de que não adianta criar instituições unificadas, como uma moeda única, se não houver a vontade política de unificação”. A análise é do professor Fernando Cardim de Carvalho, em entrevista concedida, por e-mail, para a IHU On-Line. Ele defende que os mercados tendem a desandar quando deixados a si mesmos, “fragilizando a economia, causando desastres, gerando desemprego, e perda de renda e de produto”. E propõe: “os mercados financeiros devem ser preservados, mas estritamente regulados, como, aliás, o foram durante o período entre a depressão e a liberalização financeira dos anos 1980, quando praticamente não houve crises financeiras. Regulação estrita e atenta é a saída, eliminando os mitos liberais, e não a supressão dos mercados”. Para Fernando Cardim, “a saída pode estar em um estado ativo, mas contido, forte, controlado pela sociedade de forma realmente democrática, não na fantasia dos partidos únicos do século XX”.

Fernando José Cardim de Carvalho é mestre em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas e doutor em Economia pela Rutgers, The State University of New Jersey. Atualmente, é consultor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Teoria Econômica.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - A partir da crise do euro, quais caminhos podemos apontar no sentido de uma nova organização da economia e da sociedade? Como seria essa organização?  

Fernando Cardim - A crise do euro ressaltou uma contradição de origem na criação da moeda europeia. Moedas são criadas por estados que delegam esse poder, hoje em dia, para bancos centrais. No caso do euro, criou-se uma moeda europeia, mas não um estado europeu. A Europa continua dividida em países independentes, sem unidade política. Quando esses países aderem à moeda única, eles perdem a chance de fazer política monetária e política cambial. Num país, isso é compensado por outras políticas, como a política fiscal, a redistribuição de renda via gastos públicos, que taxam as áreas mais ricas e provem bens públicos em áreas mais pobres. Na Eurolândia, os aderentes perderam a política monetária e a cambial, mas não ganharam as políticas compensatórias. Países menos competitivos, como os da orla mediterrânea, não sobrevivem à competição alemã, mas nada podem fazer para compensar isso. Quando o mundo ia bem, dava para adiar o juízo final através do endividamento público e privado. Quando os mercados de capitais secam, como ocorreu desde a crise de 2007, os problemas saltam aos olhos. Isso serve como uma advertência de que não adianta criar instituições unificadas, como uma moeda única, se não houver a vontade política de unificação.

IHU On-Line - Considerando a crise do atual modelo capitalista, qual deve ser o papel da economia financeira e monetária num cenário ideal futuro?

Fernando Cardim - Sistemas financeiros são essenciais para o funcionamento de economias
capitalistas modernas. São eles que viabilizam a disponibilização de meios de pagamento para empresas que precisam viabilizar sua produção e seu investimento, e também o acesso de consumidores a bens de maior valor, como residências e bens de consumo durável. Mas, deixados a si mesmo, como proposto por ideólogos liberais, esses mercados tendem a desandar, fragilizando a economia, causando desastres, gerando desemprego, e perda de renda e de produto. Os mercados financeiros devem ser preservados, mas estritamente regulados, como, aliás, o foram durante o período entre a depressão e a liberalização financeira dos anos 1980, quando praticamente não houve crises financeiras. Regulação estrita e atenta é a saída, eliminando os mitos liberais, e não a supressão dos mercados.

IHU On-Line - Pensando em um novo modelo de organização econômica e social das sociedades hoje, qual deve ser o papel do Estado?

Fernando Cardim - Esta é a grande questão, para a qual não há resposta simples. O estado todo-poderoso das economias de comando do leste europeu e algumas outras áreas do mundo não apenas sacrificaram liberdades individuais imprescindíveis, como também se mostraram corruptos e ineficientes, desmoronando com uma facilidade e rapidez surpreendentes. O estado desinteressado em economia, preconizado pelos ideólogos liberais, levou à crise que se vive no momento, como a outras no passado. Mitificar o estado ou mitificar o mercado são duas faces da mesma moeda. A saída pode estar em um estado ativo, mas contido, forte, controlado pela sociedade de forma realmente democrática, não na fantasia dos partidos únicos do século XX. Pessoalmente, minhas utopias são suecas, não cubanas.

IHU On-Line - Considerando um possível desmantelamento do estado de bem-estar social na zona do euro, quais elementos da sociedade sofrerão as piores consequências?

Fernando Cardim - O estado de proteção social em si dificilmente será desmantelado. Pode haver uma redução de seus benefícios, especialmente em áreas periféricas, como o mediterrâneo europeu, mas o desmonte não está realmente no horizonte por ser completamente inviável. Seria mais provável um recuo da globalização financeira, que colocou os estados à mercê de mercados financeiros, ou mesmo da integração europeia que criou uma área mais inchada do que integrada, com seus 27 membros, do que um retrocesso político-social que levasse ao capitalismo selvagem do passado.

IHU On-Line - Como os economistas clássicos podem nos ajudar a pensar em alternativas a partir do cenário de crise internacional e da crise da zona do euro? Especificamente, que luzes Keynes pode trazer?

Fernando Cardim - O esquema que Keynes propôs em Bretton Woods , recusado pelos Estados Unidos, teria evitado pelo menos uma das características mais importantes dessa crise. Keynes propôs que desajustes como os que sofrem a Grécia, a Espanha, Portugal, e outros, com balanço de pagamentos deficitários e dependência de empréstimos externos, deveriam ser tratados não apenas impondo alguma austeridade a esses países como também impondo a países como Alemanha - que se beneficia desse desequilíbrio, vendendo muito e comprando pouco (com superávit no BP, portanto) - que gastassem mais. Se os alemães entendessem como deve funcionar uma economia capitalista, não estariam interessados apenas em vender, mas também em comprar, preservando assim a renda dos compradores dos quais, aliás, depende. Keynes propunha endurecer o jogo com os pródigos, mas também taxar os excedentes dos usurários, como a Alemanha. Isto é tão válido hoje como antes. Em outros aspectos, o mundo de hoje é muito diferente. Keynes propunha que movimentos de capitais fossem controlados pelos governos. Hoje em dia, a liberalização e a globalização financeira já foram longe demais. É mais difícil reverter isso do que teria sido manter o controle que existia no passado.

IHU On-Line - Por que o senhor acha que os modelos anteriores (terceira via, neoliberalismo, comunismo...) não deram mais certo?

Fernando Cardim - Porque a vida social é dinâmica, e projetos sociais inspirados em dogmas e ideologias raramente sobrevivem, porque tendem a se tornar inflexíveis demais para se ajustar às mudanças que o tempo traz. Terceira via não era nada, foi apenas ar quente criado por conservadores como Clinton  e Blair , para disfarçar sua opção aberta pela direita, ao qual aderiram outros, como F.H.C. , para parecer modernos e integrados ao mundo ocidental. Já há algum tempo que a terceira via só é citada por humoristas e mesmo aí já não tem tanta graça como antes. O neoliberalismo, como o comunismo no século XX, são regimes rígidos, baseados em dogmas que não resistem ao confronto com o mundo real. O comunismo desapareceu primeiro porque começou antes, o neoliberalismo dificilmente sobreviverá à crise atual. Isso é bom, na verdade, porque o apego a dogmas impede o exercício da inteligência necessária para sobreviver em um mundo complexo.

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