Edição 329 | 17 Mai 2010

Addio alla verità

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Omar Lucas Perrout Fortes de Sales

Recebemos e publicamos, a seguir, a recensão do livro de Gianni Vattimo, Addio alla verità, escrita por Omar Lucas Perrout Fortes de Sales, doutorando em Teologia pela FAJE. No artigo, ele defende que esta obra representa o esforço de exprimir a situação paradoxal na qual se encontra nossa cultura atual. “De um lado, instituições (sobretudo a Igreja Católica) saudosistas do passado regido por uma verdade única e objetiva; de outro, a crescente constatação de que o sujeito pós-moderno não admite a existência da verdade absoluta”.

Omar Fortes de Sales possui graduação em Teologia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora e mestrado em Teologia Moral pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Atualmente, faz doutorado em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia.

Confira o artigo.

Esta obra representa, nas palavras do A., o esforço de exprimir a situação paradoxal na qual se encontra nossa cultura atual. De um lado, instituições (sobretudo a Igreja Católica) saudosistas do passado regido por uma verdade única e objetiva; de outro, a crescente constatação de que o sujeito pós-moderno não admite a existência da verdade absoluta. A clássica concepção grega da existência da verdade única e objetiva se apresenta cada vez mais distante e inviável. Tal concepção constitui justificativa política de totalitarismos. Em face do cenário cada vez mais pluralista da pós-modernidade, urge conceber a verdade como possibilidade e abertura ao novo na história. Os chamados mestres da suspeita já nos remetiam a essa questão, ao dirigirem críticas à pretensão da verdade absoluta. A crise da verdade na metafísica se desenvolve em conexão com a queda das condições políticas de um pensamento universal. O ser revelado de uma vez por todas impede a possibilidade de abertura e de liberdade na história. Por isso, a metafísica deve ser superada.

O A. reflete acerca do que acredita compor o grande desafio para a proposição da verdade no mundo pós-moderno: a construção de um consenso reconhecido por todos em relação às escolhas singulares. A verdade não reside no império metafísico do uno e do imutável, mas na trama das subjetividades e liberdades a configurar o mutante cenário da história. A realidade se apresenta como um jogo de interpretações em conflito. Estabelecer o diálogo e acordar a partir dos opostos conflitantes desenha o caminho pelo qual podemos pensar a verdade hoje. Não se trata, segundo o A., de apologia à fragmentação da verdade ou exaltação do relativismo. Trata-se, porém, do reconhecimento das possibilidades de discussão e afirmação de escolhas a partir do diálogo de interpretações da coletividade da cultura, da ciência e da comunidade que, se pautadas pela caridade, promoverão vida para a sociedade.  

O A. fundamenta e amplia sua reflexão ao advogar que repensar a noção de verdade só foi possível a partir do pensamento de Nietzsche  e Heidegger . Ambos criticaram a verdade como objetividade. Com Nietzsche tem lugar a proposição da verdade como subjetividade e abertura, e não simplesmente como objetividade absoluta. Heidegger desfere grande crítica à metafísica.

Nessa perspectiva, devemos compreender a realidade, situando-nos para além do mito da existência da verdade objetiva. Não possuímos verdades absolutas, mas interpretações da realidade. Ou seja, possuímos atitudes interessadas de aproximação do mundo. O próprio Cristo se apresenta como intérprete de uma tradição precedente.

Na convicção de posse da verdade reside o perigo dos autoritarismos que se impõem e justificam-se, pautados numa ordem desde sempre já dada, a “lei da natureza”, ou ainda, a essência do homem. Politicamente verdades são inventadas para sustentar a validade de guerras. As normas da Igreja Católica, para o A., têm como fundamento uma lei natural dada por Deus mesmo na criação: daí, a condenação do aborto, do divórcio, das uniões homossexuais etc. A Igreja utiliza tal discurso proibitório e coercitivo em nome da lei natural e da tradição. Nesse discurso, a Igreja se apoia também para dificultar o avanço de pesquisas no campo da biotecnologia. O papa, ao visitar a África e se posicionar contra o uso de preservativos, demonstra a atitude da hierarquia da Igreja a preferir ao Deus da ordem natural em detrimento à mensagem de Jesus, questionadora e subversiva dessa mesma ordem.

A segunda parte da obra ocupa-se da reflexão acerca do futuro da religião. O cristianismo não representa mais “a” religião do Ocidente. Há de se compreender, portanto, não como o grande arauto anunciador da verdade, mas como portador de uma mensagem de salvação cujo conteúdo é já interpretação e, no horizonte atual, uma interpretação dentre outras. No mundo globalizado em que vivemos, torna-se cada vez mais inverossímil conceber a salvação monopólio de uma única fé religiosa. A vocação do cristianismo hoje consiste em promover a dissolução dos dogmas e autoritarismos a favor da escuta de todos. Escuta que há de ser guiada pela caridade. A teologia, por sua vez, também atravessa momento paradoxal. Os meios de comunicação em massa dão visibilidade aos temas teológicos cada vez mais em contato com a discussão pública. Entretanto, a reflexão teológica como tal aparece cada vez mais pobre de obras e novidades relevantes. Diante dessas questões, diminui o interesse pelos dogmas e os conteúdos tradicionalmente centrais da doutrina da Igreja.

O problema do poder na Igreja apresenta-se como um fator de entrave ao progresso social e à constituição de um mundo mais justo. Constitui algo sempre mais intolerável o fato de uma autoridade terrena comandar e proibir em nome de uma divindade. Soma-se a esse fato o crescente número de fiéis escandalizados com o posicionamento público da Igreja Católica em termos de prescrições éticas. A mensagem moral da Igreja não comunica ao sujeito pós-moderno, soa-lhe carente de fundamentos plausíveis, razoabilidade e testemunho. De modo geral, as pessoas não questionam o dogma do Deus Trindade, nem tampouco o da encarnação. Por outro lado, divergem e ou ignoram o conteúdo da mensagem moral da Igreja.

Apesar de o pensamento cristão empenhar-se em ler os sinais dos tempos e dialogar com a modernidade, ainda a vê fundamentalmente como inimiga. Haja vista a constante insistência do papa sobre o perigo do relativismo. Para o A., a verdade da fé poderá salvar-se, reduzindo o peso da autoridade central e dos dogmas. O problema crucial da Igreja circula em torno do poder exercido, desejado ou imposto pela hierarquia.

O A. retoma a ideia já desenvolvida em sua obra “La fine della modernità” : o niilismo como oportunidade e nossa única chance. Atesta que Nietzsche já havia proposto uma análise da cultura ocidental sob o cunho niilista. O niilismo deve ser visto não apenas como a dissolução dos princípios e valores, mas também como niilismo ativo, a chance de iniciar uma história diferente. Chance associada ao cristianismo na cultura ocidental. Aqui reside, a nosso ver, a grande provocação da obra do autor: que o niilismo seja a ocular interpretativa positiva da realidade política, cultural e cristã. Em outros termos, o niilismo compreendido como versão pós-moderna do cristianismo a salvá-lo da dissolução de suas pretensões absolutas ou do fim violento em guerras religiosas. O niilismo é cristianismo na medida em que Cristo veio ao mundo não para assegurar a ordem natural, mas para destruí-la em nome da caridade. O Deus que pode nos salvar, para o A., não é uma entidade metafísica, mas um Deus quenótico, o Deus que se faz ‘debole’ (fraco) e assume a história. A quênosis divina confere ao cristianismo a vocação relativista. Acreditar em um Deus quenótico, relativista, implica reconhecer o relativismo como qualidade própria do cristianismo, com a qual paradoxalmente a hierarquia não se cansa de debater. Para o A., o próprio relativismo se difunde na cultura ocidental pelas veias da Igreja. Ressoa através dos tempos o ensinamento subversivo de Jesus, relativizador da realidade: o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.

Em relação ao futuro, dupla tarefa interpela o cristianismo em marcha, a necessidade do empenho em abandonar o fundamentalismo e a missão de tornar-se uma religião não da verdade, mas da pura caridade.

Por fim, o A. estabelece uma crítica à filosofia em dupla constatação, à luz da experiência das guerras. De um lado, o descrédito atribuído ao poder emancipatório da filosofia, da capacidade de produzir efeitos práticos sobre a vida da humanidade. De outro, a renúncia da filosofia à sua responsabilidade histórica e política. As últimas guerras revelam a ausência do pensar filosófico, das armas da crítica comprometida com as circunstâncias concretas à sua volta. Na perspectiva ética, a crise reside no choque com o niilismo, o qual remete o agir moral à carência de imperativos unívocos e ao persistente esforço pela busca de fundamentos últimos. A filosofia deve recuperar sua capacidade de, pela reflexão, antecipar os acontecimentos e profeticamente estabelecer críticas às ideologias.

A obra apresenta intuições questionadoras e oportunas para o leitor interessado em se confrontar com a problemática da verdade em face do niilismo contemporâneo e da cultura ocidental. As relevantes críticas direcionadas ao cristianismo evocam os estudiosos comprometidos com a fé cristã a repensarem a relação Igreja instituição versus poder, e a analisar não apenas os desafios, mas sobretudo as possibilidades que se descortinam no horizonte do inegável relativismo.

*VATTIMO, Gianni. Addio alla verità (Coleção Le melusine, volume 42. Roma: Meltemi, 2009, 143 p.)

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