Edição 329 | 17 Mai 2010

Reestruturação geopolítica favorece países emergentes

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Patricia Fachin

Segundo Amir Khair, a crise das economias desenvolvidas está acelerando um novo arranjo geopolítico do capitalismo, o qual consiste no fortalecimento de países emergentes

Economias sólidas e desenvolvidas “consumiram, artificialmente, por meio do sistema financeiro, muito mais do que poderiam pagar”. Esse é, na avaliação do especialista em finanças públicas, Amir Khair, um dos motivos que tem levado países desenvolvidos a atravessarem crises financeiras. Na entrevista que segue, concedida, por telefone, à IHU On-Line, Khair diz que, a partir da crise da Grécia e da União Européia, é possível que ocorra uma “continuação da depreciação do euro perante outras moedas”. Esse processo, assegura, pode se transformar numa vantagem para o bloco europeu no que se refere à exportação. “A moeda deles estando mais depreciada irá favorecê-los como players internacionais mais fortes para a colocação de seus produtos no mercado”.

Segundo ele, as crises financeiras estão acelerando o novo arranjo geopolítico, que consiste na reorganização do capitalismo. Nesta reestruturação, países emergentes ganham destaque, enquanto Europa, EUA e Japão perdem “capacidade competitiva no mercado internacional, fundamentalmente, pelo diferencial salarial que praticam em relação aos emergentes”. Khair destaca ainda que os países desenvolvidos chegaram “a um patamar de saturação do ponto de vista de crescimento, e os países emergentes se mostram mais competitivos e em maiores condições de expansão”. Por isso, segundo ele, a maneira que as economias desenvolvidas “terão para poderem competir em condições de maior vigor no comércio internacional será por meio da depreciação de suas moedas”.

Khair é mestre em Finanças Públicas pela Fundação Getúlio Vargas – FGV-SP. Foi secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992). Atualmente, é consultor na área fiscal, orçamentária e tributária.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - A crise da Grécia e da UE estão relacionadas apenas ao déficit público e à dívida pública do Estado grego, ou elas também têm uma relação com o setor privado, com o déficit em conta-corrente e a dívida externa de outros países?

Amir Khair – Elas têm relação com ambos. Tudo isso confluiu para pôr em evidência os frágeis fundamentos macroeconômicos não apenas da Grécia, mas de vários outros países da Europa.

IHU On-Line – Há risco para um crash do euro? Quais os efeitos disso para a economia global?

Amir Khair – Sim, há um risco, desde a extinção do euro, como também no sentido da depreciação do euro perante outras moedas. Assumindo essa segunda hipótese, a qual acho mais provável, há uma questão vantajosa para o bloco europeu como um todo no sentido da exportação. A moeda deles estando mais depreciada irá favorecê-los como players internacionais mais fortes para a colocação de seus produtos no mercado. Isso, no meu entender, vai na mesma direção do que está acontecendo também com EUA e Japão, que são países que deverão continuar um processo de depreciação de suas moedas para fortalecer as suas posições exportadoras. Eles perderam capacidade competitiva no mercado internacional, fundamentalmente, pelo diferencial salarial que praticam em relação aos países emergentes, especialmente do leste da Ásia. Assim, a maneira que eles terão para poder competir em condições de maior vigor no comércio internacional será por meio da depreciação de suas moedas, caminho que eu vejo quase que inexorável e que será acelerado em decorrência dos trilhões de dólares emitidos para salvar seus sistemas financeiros.

IHU On-Line – É por isso que o senhor diz que a crise serviu para acelerar um novo arranjo geopolítico em construção nas últimas décadas? Em que consiste esse novo arranjo e quais países que fazem parte dessa nova reorganização?

Amir Khair – Há mais de 20 anos, vem ocorrendo, no mundo, uma alteração geopolítica. Esse processo consiste basicamente na lógica do próprio desenvolvimento do sistema capitalista, que terá uma fase nova no sentido de ser um capitalismo mais bem estruturado do que é hoje.

O sistema capitalista sofreu e, deverá ainda sofrer, períodos de crises de superprodução. Nestas condições, os países emergentes foram beneficiados, de uma forma mais geral, por processos no qual o capital, querendo se reproduzir com mais força e seguindo a sua lógica, foi em busca de mão-de-obra mais barata e de mercados com maior potencial de expansão. É de se observar que, há vários anos, o crescimento dos países emergentes como um todo é cerca de 3 a 4 vezes maior do que o dos países desenvolvidos. É como se os países desenvolvidos chegassem a um patamar de saturação do ponto de vista de crescimento, e os países emergentes se mostram mais competitivos e em maiores condições de expansão. Assim, o capital começou a se dirigir para países em desenvolvimento, criando empregos e massa de salários maiores, ampliando o consumo. Ao fazer isso, o capital atrai mais investimentos para esses locais. Esse processo terá continuidade e isso ocorrerá a ponto de, internacionalmente, se ter uma redução do diferencial de salários entre países desenvolvidos e emergentes. Nesse sentido, vejo a globalização como um instrumento positivo sob o aspecto comercial. Já sob a perspectiva da globalização financeira – que é a destruidora do sistema capitalista -, se não forem impostas regras rígidas, ela será o algoz do sistema capitalista.   

IHU On-Line - A que atribui a fragilidade financeira, monetária e fiscal dos países desenvolvidos?

Amir Khair – Esses países consumiram, artificialmente, por meio do sistema financeiro, muito mais do que poderiam pagar. A questão é que o sistema financeiro ainda aposta neles e está disposto a emprestar dinheiro.

Os países se endividam tanto que, num determinado período, o próprio mercado financeiro começa a desconfiar da capacidade deles pagarem os seus compromissos. Ou seja, tanto EUA quanto Europa e Japão são países que consomem mais do que a sua própria capacidade de pagar. Com isso, eles foram criando déficits externos bastante pesados. O epicentro disso é os EUA. Só que a China, a Alemanha – que é uma exceção na Europa -, e os países produtores de petróleo, inclusive o Brasil, ajudaram a fechar o rombo externo americano da ordem de 5% a 8% do PIB, que ainda são considerados os de maior segurança do mundo. Isso está retardando a verdadeira crise americana que ainda poderá vir.

Em algum momento, os países perceberão que esses títulos não têm essa segurança; que títulos de outros países são mais seguros porque têm condições macroeconômicas melhor assentadas. Isso tende a se deslocar, primeiramente, para a China, que é um país que tem estruturas macroeconômicas mais sólidas, porém com riscos muito grandes porque o país ainda oferece pouca segurança institucional, além de ter uma proteção social baixíssima.

Nessas condições, vejo que esse deslocamento tende a continuar do ponto de vista comercial, porém, do ponto de vista financeiro, essa questão de “quebrar o galho” do excesso de consumo sob a capacidade de pagamento tem limites. A falta de solução para esse problema só irá acelerar essa mudança geopolítica.

IHU On-Line - O senhor também analisa o processo da crise econômica, financeira e social dos países desenvolvidos por meio do esgotamento do modelo de desenvolvimento experimentado desde o início da revolução industrial. Como isso contribuiu para a crise econômica?

Amir Khair – A base disso é a crise periódica que vive o sistema capitalista de excesso de produção. Essas crises, se não forem analisadas no devido termo, acabam por mostrar a fragilidade do sistema de concentração de renda. Não creio que possa ter um sistema harmonioso no mundo, no qual haja uma desigualdade de renda em termos internacionais tão elevada quanto a existente hoje. Então, quando houver um sistema de distribuição de renda melhor posicionado e não tiver tanta convivência entre grandes fortunas e grandes misérias, aí, sim, se terá condições sociais de maior justiça social dentro do sistema mundial, e condições de ter um novo sistema que supere o capitalismo. Esse novo sistema seria uma presença mais forte de regras internacionais e nacionais, como, por exemplo, regras de fortalecimento do processo de valorização da pessoa humana, dos seus direitos perante a comunidade. Essa questão está muito longe de ser estabelecida, mas é inexorável que se caminhe nesse sentido. Quem sabe, serão colocadas regras bastante fortes ao controle das empresas com posição oposta ao laissez-faire, que foi permitido no sentido de a empresa e o mercado serem os deuses, e o Estado, o demônio.

Embora se fale nos países democráticos como Estados democráticos, esses não o são de verdade porque pensar em Estado democrático é pensar Estado de bem-estar global para a população, em mídia democrática, por exemplo. Nesse ponto, a Internet terá um papel decisivo na questão democrática. E, então, haverá um sistema mais voltado para o homem e menos voltado para a diferenciação de homens e, portanto, para a primazia do capital sob o trabalho.   

IHU On-Line - De que maneira as crises financeiras geram crises sociais?

Amir Khair – As crises financeiras sempre acabam sendo pagas pela população. Veja o exemplo da Grécia. Acumulou-se dentro do país um processo de grandes perdas do ponto de vista das suas transações correntes e da situação fiscal do país. Para resolver seu problema, a Grécia teria de pagar uma soma absurda de recursos que foram se acumulando, a qual ela não tem condições de pagar. Então, está se empurrando o problema para frente. Isso já está sendo percebido pelo mercado. Há essa euforia no sentido de que finalmente o Banco Central Europeu, o FMI e os líderes europeus se deram conta de que o processo grego poderia contaminar o conjunto da Europa e, quem sabe, o resto do mundo e, aí, resolveram fazer um pacote para auxiliar o país.

O adversário da “solução” financeira para a Grécia é o povo grego. Se for feita uma restrição tão forte quanto à colocada ao povo, irá ocorrer uma rebelião social lá, sem sombras de dúvida. Algumas demonstrações já ocorreram. Esse mesmo processo só pode ser solucionado com a moratória. Eles usam uma expressão diferente para mostrar que não é uma moratória, mas seria uma readequação da dívida. Não vejo como a Grécia possa pagar esse volume de dívidas que acumulou. Ela terá de desvalorizar fortemente essa dívida na semelhança do que fez a Argentina e, então, ela irá encontrar um novo caminho, o qual terá de se adaptar a gastar aquilo que o povo realmente tem como recursos e não exacerbar esses gastos que beneficiaram economias, em especial a alemã, exportando para a Grécia.  

IHU On-Line – Então a União Européia não deve ajudar a Grécia e outros candidatos à falência?

Amir Khair – Os que querem “ajudar” os candidatos à falência devem encarar com realismo o fato de que se esses países tiverem de se submeter a regimes de pagamentos que inviabilizem social e politicamente seu país, eles não o farão.

IHU On-Line - O euro pode ser a moeda comum de tantos países, tão diferentes? Quais as vantagens e desvantagens de unificar a moeda num continente?

Amir Khair – A vantagem seria de ter um comércio fluído entre o bloco euro, que daria uma preferência nas transações comerciais de todos os países. Então, se teria condições de privilégios do ponto de vista de colocação de seus produtos em relação a produtos de fora dessa área. A desvantagem é que, ao unificar a moeda, cada país cede a sua capacidade de fazer políticas cambiais diferenciadas. Então, eles ficam sem condições de poder usar um elemento macroeconômico importante, que é a política cambial, no sentido de adaptar-se a essa grande concorrência internacional, criada pela globalização, e às assimetrias econômicas existentes entre os países da zona do euro. A restrição ao uso de política cambial é a questão crucial. A China, por exemplo, faz uma política cambial que é criticada pelos EUA, a qual consiste na depreciação sistemática da sua moeda, acompanhando a depreciação do dólar. Outros países reclamam disso porque perdem seu poder competitivo do ponto de vista internacional.

Mas penso que um país, para ter solidez macroeconômica efetiva, precisa se basear não no mercado internacional como prioridade número um, mas no desenvolvimento do seu próprio mercado doméstico, que me parece o grande movimento que está dominando os países emergentes.

IHU On-Line - É possível sair da crise sem mudar a política do euro?

Amir Khair – Penso que sim, desde que haja a desvalorização da moeda. Isso poderá criar condições para que esses países exportem mais e importem menos porque eles não têm capacidade para pagar a conta da sua dívida, que deverá sofrer forte redução à semelhança do que fez a Argentina. Assim, aos poucos, eles poderão se adaptar a uma realidade nova, mais compatível com o equilíbrio macroeconômico.

IHU On-Line - Deseja acrescentar alguma coisa?

Amir Khair – Podemos tirar, dessa crise, um exemplo para a própria economia brasileira. Sem me estender muito, diria que há um diagnóstico, para mim totalmente equivocado, mas majoritário entre os economistas, de que no Brasil não pode crescer muito porque isso pode gerar inflação e um desequilíbrio nas contas externas. Eles pregam que o Banco Central pratique taxas de juros cada vez maiores para conter esse crescimento econômico que consideram elevado.

Meu ponto de vista é oposto e espero que o próximo governo pratique uma política mais inteligente do que essa que está colocada por estas análises. A chave de sucesso de um país, sob o aspecto fiscal, social, econômico e das contas externas, está no crescimento econômico forte, com redistribuição de renda. Esse crescimento se faz pelo estímulo ao consumo das camadas da população de menor renda. É exatamente o que fez o presidente Lula, ou seja, há uma diferença fundamental de política econômica entre o governo dele e dos anteriores: fazer a economia crescer com base no estimulo à base da pirâmide social. Isso se traduz em programas de valorização do salário mínimo, programas como Bolsa Família e a criação do crédito consignado. Esses programas ampliaram a classe média no Brasil, que tende a continuar crescendo se for mantida essa política de redistribuição de renda pelo Estado. Com isso, o país tem condições não apenas resolver seu problema fiscal, mas baixar esses juros malucos que o país tem há mais de uma década. Nessas condições, o Brasil irá surfar na onda de crescimento mundial e, de uma forma muito mais sólida, com muito mais força do Estado, como grande agente propagador desse crescimento, pela sua função redistributiva de renda que compete exclusivamente a ele, e não ao setor privado. 

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