Edição 329 | 17 Mai 2010

O pentecostalismo e a emancipação das mulheres

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Graziela Wolfart

Segundo Cecília Mariz, o pentecostalismo moderniza subjetividades, apesar de todo seu discurso encantado aparentemente antimoderno

Em entrevista concedida, por e-mail, à IHU On-Line, a professora da UERJ, Cecília Mariz, aponta como uma das novidades do movimento pentecostal “a popularização de um conceito talvez presente nas igrejas protestantes brasileiras, mas pouco difundido, de que ter uma religião é praticar essa religião”. Ela destaca que as igrejas pentecostais “chamam atenção de que a mulher deve obedecer, antes de tudo, a Deus, e sua submissão ao homem não pode jamais levá-la a infringir a lei de Deus”. Para a professora, a “ênfase na submissão a Deus faz com que essas igrejas levem os fiéis a romper, em parte, com o machismo tradicional, relativizando o modelo patriarcal da sociedade mais ampla, na medida em que cobram dos homens um compromisso com Deus, com a mulher e filhos, e dão mais autonomia e espírito crítico às mulheres”. Ao relacionar pentecostalismo com o alcoolismo, Cecília Mariz explica, com base em suas pesquisas, como a superação à adição ao álcool ser torna possível na igreja pentecostal por várias razões, entre elas, que “a experiência de dependência ao álcool oferece plausibilidade à ideia de uma possessão demoníaca”.

Cecília Loreto Mariz possui graduação em Ciências Sociais, mestrado em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco, e doutorado em Sociology of Culture and Religion pela Boston University. Atualmente, é professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ. É uma das organizadoras de Novas Comunidades Católicas: em busca do espaço pós-moderno (Aparecida: Idéias & Letras, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como as relações de gênero aparecem nas religiões pentecostais? Qual o papel da mulher e o que muda em relação ao catolicismo e ao protestantismo?

Cecília Mariz - Em termos do discurso oficial sobre o papel masculino e feminino e a relação de gênero, as igrejas pentecostais, inclusive neopentecostais, tendem, em linhas gerais, a adotar um modelo bastante similar entre si e ao modelo tradicional patriarcal. Afirmam que homens e mulheres desempenham papéis diferentes e complementares na unidade familiar (homem/provedor e mulher/cuidadora), cabendo ao primeiro exercer a liderança dessa unidade, ou seja, ser a “cabeça da família”. No entanto, chamam atenção de que a mulher deve obedecer, antes de tudo, a Deus, e sua submissão ao homem não pode jamais levá-la a infringir a lei de Deus. Da mesma forma, o homem não deve jamais esquecer sua submissão à lei de Deus. Essa ênfase na submissão a Deus faz com que essas igrejas levem os fiéis a romper, em parte, com o machismo tradicional, relativizando o modelo patriarcal da sociedade mais ampla na medida em que cobram dos homens um compromisso com Deus, com a mulher e filhos, e dão mais autonomia e espírito crítico às mulheres. Dessa forma, o discurso oficial das igrejas pentecostais tampouco difere daqueles da Igreja Católica e protestantes históricas. As diferenças surgem na diversidade da interpretação das lideranças específicas e dos fiéis e no grau de flexibilidade e possibilidade de adaptação desse modelo à vida cotidiana. Essa variação depende menos dos discursos oficiais de cada igreja do que do contexto social onde vivem fiéis e lideranças. No entanto, observam-se diferenças do discurso oficial entre essas igrejas quanto ao papel masculino e feminino dentro da própria comunidade eclesial. As igrejas protestantes e pentecostais tendem, em geral, a ser mais abertas do que a Igreja Católica quanto à aceitação da liderança feminina. No catolicismo, apenas homens celibatários podem ser sacerdotes. Dessa forma, a Igreja Católica rejeita não apenas a mulher como líder, mas rejeita que o sacerdote compartilhe sua vida com uma mulher e viva dentro do que seria considerado na sociedade mais ampla o mundo feminino por excelência, a família. Embora a aceitabilidade da liderança feminina nas igrejas protestantes históricas e nas pentecostais também varie muito, podemos encontrar várias igrejas pentecostais fundadas por mulheres. A crença na efusão cotidiana do Espírito Santo igualmente em homens e mulheres, permite que multipliquem lideranças femininas muitas vezes não oficiais e que muitas dessas possam fundar novas igrejas quando se sentem inspiradas a isso. O discurso pentecostal oferece toda legitimidade para esse fenômeno.

IHU On-Line - Que relações podemos estabelecer entre pentecostalismo e alcoolismo?

Cecília Mariz - Em pesquisa sobre o tema, notei, em um bairro de camada popular, que, em 1/4 das famílias se relatava problemas de alcoolismo, e em 1/3 se afirmava já ter tido esse problema no passado. Também notei que, nesse bairro, a população em geral das diversas religiões percebia que a conversão a uma igreja pentecostal seria talvez a forma mais eficaz para deixar a bebida. Entre os conversos é comum escutar testemunhos de homens e mulheres, mas, na maior parte, de homens que sofriam desse mal. Os testemunhos de mulheres em geral eram sobre os problemas e sofrimentos decorrentes da adição de seus maridos e filhos. A superação à adição ao álcool certamente ser torna possível na igreja pentecostal por várias razões. Na igreja, o fiel aprende um novo estilo de vida sem álcool, é apoiado por toda uma comunidade abstêmica, ingressa numa nova rede de amigos, redefine sua identidade, recuperando uma autoestima, além de ter acesso a um estado modificado de consciência sem necessitar o uso de álcool ou droga, apenas pelo êxtase e dons do Espírito. Outro ponto que acho importante relacionar o alcoolismo com o pentecostalismo é que a experiência de dependência ao álcool oferece plausibilidade à ideia de uma possessão demoníaca. Em seus relatos, os dependentes descrevem uma força que os obrigam a beber, mesmo quando tinham decidido não mais beber e mesmo quando sabiam que estavam se autodestruindo. O limite da vontade e liberdade individual era uma experiência concreta para esses sujeitos e para aqueles próximos a eles.

IHU On-Line - Como o valor família aparece nas religiões pentecostais?

Cecília Mariz - A família de fato é central nas igrejas pentecostais, especialmente quando comparamos, no Brasil, o discurso religioso sobre o papel do homem e o machismo da cultura dominante. Como falei na resposta à primeira questão, ao se tornar pentecostal, o homem passa a perceber que deve ter maior compromisso com sua família, mulher e filhos, do que com seus colegas de trabalho, de bar e lazer.
 
IHU On-Line - Que paralelos podemos estabelecer entre o catolicismo e o pentecostalismo no Brasil?

Cecília Mariz - Há vários tipos de catolicismo, e assim vários paralelos podem ser traçados. No Brasil, podemos ver um catolicismo rural não muito romanizado, um catolicismo carismático, um catolicismo da libertação, entre outros. A grande diferença da Igreja Católica em relação às igrejas protestantes em geral, e pentecostais inclusive, é seu projeto de não divisão, de se manter uma. As diferentes lideranças católicas podem discordar em quase tudo entre si, mas devem concordar em se submeter ao Papa. O princípio comunitário é bastante forte no universo católico. Dessa forma, o catolicismo é antimoderno, pois é contra o individualismo. A obediência e humildade são valores; o indivíduo deve se submeter a uma autoridade (o Papa que representa a comunidade eclesial) mesmo que a julgue errada e até mesmo pecadora, ou seja, tudo pela união da comunidade eclesial. Já o pentecostalismo possui a tradição individualista protestante, reforçada pelo acesso direto dos indivíduos ao sagrado e pela experiência com os dons do Espírito Santo. Essa experiência reforça a autonomia individual e a possibilidade de crítica a autoridades, permitindo que rompam com elas e fundem outras igrejas. Mas há também várias semelhanças entre o pentecostalismo e o catolicismo. Com a visão muito encantada, vivendo num mundo repleto de milagres, o pentecostalismo se aproxima mais do catolicismo popular rústico, catolicismo sincrético com religiões espíritas, e com o catolicismo popular, e se afastam das igrejas protestantes históricas. Por outro lado, sua ênfase na leitura da Bíblia e seu discurso crítico em relação à sociedade mais ampla os aproxima de um catolicismo da libertação (embora o conteúdo das críticas à sociedade sejam distintas) e de igrejas protestantes históricas.

IHU On-Line - Qual a principal novidade que o pentecostalismo trouxe para o cenário religioso e social brasileiro?

Cecília Mariz - O sucesso do pentecostalismo tem despertado muito essa pergunta. Em minha opinião, a novidade seria a popularização, em meio a camadas que não tiveram acesso à escolarização formal, de uma fé individual, exclusiva, reflexiva (pois critica de forma intelectual tradições religiosas com quem compete), e ainda ascética e ética. Nesse sentido, o pentecostalismo moderniza subjetividades, apesar de todo seu discurso encantado aparentemente antimoderno. Tal como o pietismo analisado por Weber , vejo o pentecostalismo como fornecendo um carisma racionalizante. Sem dúvida, em minha opinião, possui uma afinidade eletiva ao mundo moderno, embora seja crítico do estilo de vida dominante nesse mundo. Outra novidade pentecostal seria a popularização de um conceito talvez presente nas igrejas protestantes brasileiras, mas pouco difundido, de que ter uma religião é praticar essa religião. Dessa forma, acredito que essa novidade pentecostal esteja também sendo responsável pelo aumento do número dos que se declaram sem religião. Mas precisamos de mais dados para ter mais suporte empírico para essa hipótese.

IHU On-Line - Como as religiões pentecostais lidam com o sofrimento humano?

Cecília Mariz - Embora o pentecostalismo pareça se destacar pela rejeição ao sofrimento, especialmente como vemos, por exemplo, no lema da Igreja Universal do Reino de Deus “pare de sofrer”, e também em várias igrejas numa clara afirmação de que Deus quer que todos sejam prósperos, saudáveis e felizes nesse mundo, a promessa de libertar o ser humano do sofrimento é comum a todas as religiões. Não é exclusividade pentecostal. De uma forma ou de outra, todas estão preocupadas em oferecer a superação do sofrimento. No entanto, observa-se que cada religião procura superar o sofrimento de forma diferente, pois cada uma tem distintos conceitos das causas do sofrimento e de caminhos para felicidade. Algumas religiões prometem a felicidade, realizando os desejos insatisfeitos, resolvendo os problemas. Outras prometem, livrando os indivíduos dos desejos, já que esses seriam as causas da infelicidade e problemas. No entanto, observando empiricamente, o indivíduo que se declara feliz não é aquele que não tem problemas ou que não tem desejos. O que declara sofrer menos não é o que tem menos dificuldades, mas o que dá sentido para essas dificuldades. Assim, o feliz é o que dá um sentido para seus problemas. Todas as religiões oferecem sentido e assim são capazes de gerar felicidade. Quando analisamos as histórias de vidas de conversos, podemos observar que o que ocorre não é o fim dos problemas, mas uma mudança na forma de percebê-los. Esses passam a ser vistos não mais como causas de sofrimentos e dores, mas etapas de progresso, desafios a ser superados. As dificuldades enfrentadas passam a ser vistas como úteis, passageiras, reveladoras da força de Deus, como fonte de fortalecimento, e não como instrumentos de destruição do indivíduo, nem como dores inúteis e insuperáveis. Como argumentam Weber e Berger , a falta de sentido gera muito sofrimento. Não apenas dores e problemas precisam ter sentido, mas também se não tiverem sentido, a alegria, sucesso no amor, riqueza, saúde podem gerar estresse, sofrimentos, tais como culpas, medo de perder, sentimento de ser objeto de inveja, de perseguição etc. As diferentes religiões oferecem diferentes estratégias para dar plausibilidade ao sentido que atribuem aos problemas. A efusão do Espírito pode gerar experiências de um estado modificado de consciência que tornem plausíveis os sentidos que atribuem à vida, especialmente para aqueles que foram criados em um universo encantado da cultura popular brasileira. Talvez essa possibilidade de maior plausibilidade seja o diferencial pentecostal em nosso contexto.  

Leia mais...

Cecília Mariz já concedeu outra entrevista à IHU On-Line:

* “O ideário das novas comunidades é o ideário comunitário do cristianismo primitivo”, publicada na revista IHU On-Line número 307, de 08-09-2009.

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