Edição 327 | 03 Mai 2010

IHU Repórter - Cecília Pires

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Patrícia Fachin

Na fala da professora Cecília Pires, é possível perceber seus sentimentos de criança e de filósofa. A preocupação com temas recorrentes como justiça, igualdade e direitos humanos está presente na forma como ela analisa o mundo e as relações entre as pessoas. Filha de um ex-fazendeiro português e mãe operária, Cecília reúne, em sua vida, a luta de classes. “As questões da justiça e das injustiças sempre me chamaram muito a atenção desde pequena. A sociedade hierarquizada sempre me incomodou”. Na entrevista que segue, concedida à IHU On-Line, ela resgata aspectos interessantes da vivencia no período da Ditadura Militar, analisa as conquistas e seus sonhos para o futuro. Confira.

Origens – Nasci na região das Missões, na cidade de Santiago. Costumo dizer que fui um ente que entrou na vida e na natureza, pedindo licença porque o meu pai tinha 76 anos quando eu nasci. Ele faleceu com 102 anos, me viu crescer, me formar. Tenho mais uma irmã.

Pai – A rigor, meu pai parecia mais um ícone no sentido de que era um velhinho, mas uma pessoa muito lúcida. Ele gostava de ler e apesar de não ter feito uma educação superior, tinha uma cultura própria e foi uma das primeiras pessoas a me falar sobre Filosofia, me contava a história de Sócrates e dos filósofos. Minha mãe era costureira, uma mulher muito trabalhadora. Ela me iniciou nas questões da religiosidade. Tínhamos uma vida muito tranquila, morávamos numa casa grande, com um pátio enorme e podíamos colher as frutas das árvores.

Pensamento - As ideias que tenho hoje estão diretamente relacionadas as minhas origens. Meu pai, antes de eu nascer, tinha sido um grande fazendeiro. Com a crise econômica de 29, ele perdeu todos os bens. Costumo dizer que fiquei com a fotografia das fazendas. Minha mãe, por outro lado, veio de uma classe operária. Então, reúno em mim a luta de classes porque meu pai era de origem portuguesa, de uma burguesia ascendente e minha mãe, era indígena. A bisavô dela era índia Guarani de tribo. Eu não sei uma palavra em Guarani, o que acho uma lastima, mas essa vivência de duas realidades, de certa forma antagônicas, é muito importante na minha vida.

Estudos – Fui educada num colégio religioso de Santiago, da Congregação das Filhas do Sagrado Coração de Jesus. Cursei a graduação na Universidade Federal de Santa Maria de 1966 a 1969, em plena Ditadura Militar. Fiz parte do grupo de pessoas resistentes à Ditadura.

Filosofia – O interesse pela Filosofia vem do incentivo de meu pai e de uma curiosidade própria minha de entender as pessoas e as relações entre os indivíduos. As questões da justiça e das injustiças sempre me chamaram muita atenção desde pequena. Sempre vi muita divisão entre as pessoas em função de classes, raças, sexo, poder. A sociedade hierarquizada sempre me incomodou.

Viver no período da Ditadura – Quando morava em Santiago, fazia parte da Juventude Estudantil Católica - JEC. Já em Santa Maria, na UFSM, nos debates na sala de aula do curso de Filosofia que, naquele período, era muito operado pelos padres palotinos, tínhamos a sensação de medo, mas também a euforia da resistência. Os diretórios acadêmicos eram cercados pelo que, na época, chamávamos de “ratos”, que era aquele pessoal patrocinado pelo exército para nos vigiarem. Uma aula sobre Sartre era considerada um acontecimento de esquerda, sendo que Sartre nunca foi comunista, por exemplo. Santa Maria foi uma cidade de grande esplendor cultural.

O município também era militarizado. Meu marido, Sergio Pires,(falecido)  e eu éramos militantes. Enquanto estudantes, no Diretório Acadêmico, fizemos parte do Movimento Universitário de Santa Maria. Nas férias, fazíamos acampamentos de reflexões, sempre com a preocupação de uma formação política muito forte contra a Ditadura, o conservadorismo, as forças obscuras.
Também atuei como professora nesse período. Era difícil pensar nos programas de Filosofia Contemporânea e Social. Quando trabalhávamos os temas candentes, éramos mal vistos, vigiados. Mas, nunca desistimos da luta. O debate filosófico acontecia, havia uma efervescência política na universidade tanto pelo pessoal da esquerda como da direita. Não havia esse estado de letargia.

Militância - Durante muitos anos, em Santa Maria, coordenei a comissão de Direitos Humanos. Participei da fundação do Movimento de Justiça e Direitos Humanos de Porto Alegre, com Jair Kirschke. Participei, também, do “cacerolaço”, quando batíamos em panelas para fazer protestos na rua. Visitei o primeiro acampamento dos Sem Terra, fiz um comício, grávida de oito meses, chamando as mulheres para a luta da resistência, em 1980.  A minha vida sempre foi filosófica.

Lições da Ditadura - O movimento pela anistia é importante porque é uma conquista nossa, embora ainda seja uma conquista parcial. Essa foi uma luta que trouxe muito aprendizado. Conseguimos que a democracia não morresse. Essa foi a nossa luta, a luta da resistência. Faço uma avaliação de que não estamos, ainda, no nível democrático que teria de produzir o respeito ao direito de todos e a inclusão social de todos, já que o mundo é de todos. Não conseguimos a democracia além do formal, do sufrágio universal e de uma certa irresponsabilidade. Na época em que os partidos políticos (PMDB e Arena) voltaram a se organizar, ouve a compreensão de que aquele era o momento para se organizarem. Depois, as coisas tomaram outro rumo. Acho que existe, por parte das lideranças político-partidários, um culto muito grande a sua própria personalidade, ao seu próprio desejo. Hoje, penso que talvez devêssemos repensar a questão da organização social e civil e esta poderia ocorrer por meio de conselhos. O sujeito não se sente acolhido na escuta de suas necessidades na atual estrutura formada por Estados, prefeituras. E, portanto, o gerenciamento é catastrófico. Penso que ninguém consegue ser milagroso na gerência de milhões. Então, talvez, nessa avaliação, eu diga que aquela utopia que tínhamos, aquela efervescência da vida civil pública, de certa forma arrefeceu.

Capitalismo totalitário - Hoje, a juventude tem outras utopias, ela vai ter de descobrir os seus processos, sair das suas letargias. Sinto a juventude retomando algumas questões, mas a ditadura produziu uma descrença que gerou um individualismo exacerbado. Antigamente, nas universidades, tinham muitas parcerias, não tínhamos grandes bibliotecas, mas as pessoas se ajudavam, estudavam juntas, emprestavam livros, se criavam condições materiais para que todos tivessem acesso. É próprio do capitalismo o fortalecimento do individualismo. E o capitalismo hoje tomou conta e estimula muito atitudes individualistas.

O capitalismo tende a ser totalitário. Quando falamos em totalitarismo, pensamos no que aconteceu na União Soviética e em outras tiranias. Mas não foi só lá. O capitalismo tomou conta do mudo hoje. A situação fracassada da União Soviética não foi socialismo, nem comunismo, foi um capitalismo de Estado, pura e simplesmente. Mas o capitalismo é a própria tirania que o homem escolheu para viver e se organizar, na medida em que cada um faz muita coisa só por si mesmo, mas tem dificuldade de dimensionar as coisas do ponto de vista de uma sociedade, de se preocupar com a fragilidade.

Ingresso na Unisinos - Tenho 40 anos de magistério. Em 1994, me aposentei. No ano seguinte, minha filha mais velha estava morando em Porto Alegre e estudando Direito, então, minha família também mudou para a cidade. Tive quatro filhos e meu marido faleceu muito cedo: ele teve um enfarte agudo do miocárdio e eu fiquei com quatro filhos para criar. No final de 1995, minha filha viu um anúncio no jornal Zero Hora de que a Unisinos estava precisando de professores de Filosofia e ela me inscreveu.

Comecei a trabalhar na universidade quando ela passava por um processo de construção. Em 1996, não havia um curso de pós-graduação em Filosofia. José Ivo Follmann, que sempre teve um olhar muito bom para a Filosofia, constituiu naquela época uma comissão para pensarmos o curso de mestrado. A comissão foi formada pelo Prof. Marcelo Aquino, Antonio Sidekun e eu.  Então, estou nas origens do mestrado e doutorado da Unisinos. Fiz o pós doutorado em Paris, incentivada pelo Pe. Marcelo Aquino. Hoje sou professora da graduação e pós-graduação. Gosto desta experiência com a juventude. Sempre procurei incentivar grupos de pesquisa e estudos com estudantes. Fiz isso na UFSM e faço hoje na Unisinos com meus alunos e temos o NEFIPO - Núcleo de Estudos em Filosofia Política, que nos auxilia muito no debate acadêmico dimensionado para a  vida prática.

Mãe – A experiência de cuidar de quatro filhos foi metafísica no sentido de quase infinitude porque naquele momento eu fui o pai e a mãe dos meus filhos. Minha mãe me acompanhou sempre. Quando meu marido faleceu, tive dificuldade de voltar a trabalhar na universidade porque nós trabalhávamos no mesmo local, embora ele fosse engenheiro da matemática e eu da área da filosofia. Exigia que meus filhos fossem para o colégio até que um dia um deles disse: “Mãe, por que tu tens de ficar em casa chorando e nós temos de ir chorando para o colégio?”. Neste momento, me dei conta que eu precisava reagir, que eu era a pergunta, mas também era a resposta.

Filhos - Meu filho caçula tem 25 anos, mora em Los Angeles. Uma das minhas filhas faz doutorado em História na Unisinos. A mais velha é formada em Direito e é funcionária pública federal, trabalha no Tribunal. Meu outro filho é técnico e trabalha com eletrônica.

Netos - Tenho três netos: duas meninas e um menino; o quarto está a caminho. A relação com eles é muito gostosa porque é uma outra forma de eu ser mãe. É uma dimensão que tem muito afeto, carinho, mas não exige o disciplinamento que se tem de ter com os filhos por uma questão de necessidade. Vejo neles o processo do ser humano em evolução e crescimento. Há sempre um renovar nessa relação.

Valores - Fico perplexa ao ver atitudes de prepotência, a corrida pelo poder. As pessoas gostam de cargos, enlouquecem por eles e se sentem melhores do que os outros porque estão num cargo que é tão simples quanto o outro.

Esperança - Sou uma pessoa de esperança. Esse momento da minha maturidade está sendo muito fértil e interessante. A forma como eu olho o mundo é diferente de quando eu tinha 20 anos. Diria que eu não perdi a minha alegria de viver e a dimensão de luta dos meus 20 anos.

Estado - O Estado é um grande problema. O Estado com o aparato de poder jurídico e político não está ao encontro das questões da sociedade como um todo. Enquanto as coisas que Marx denunciou não estiverem superadas, o marxismo não estará superado. Evidentemente temos um Estado de classe, que faz os cortes, que dissemina, estratifica.

Humanidade - Tivemos muito avanço tecnológico, mas vejo que, apesar disso, os humanos se distanciaram de si mesmos. Me parece que o homem não sabe muito bem quem ele é. Talvez tenhamos que entender melhor a dimensão concreta do individuo que está no nosso cotidiano. A Filosofia, se não dá conta disso, perde um pouco o seu vigor. Ela tem de tentar pensar as questões humanas. Se ela se volta de costas para o sujeito, não tem muito a oferecer.

Diferença - O mundo é diverso, os homens são diversos, os pensamentos são diversos e as racionalidades são diversas. Enquanto nós não conseguirmos trabalhar a cultura da diferença, teremos muita dificuldade de pensar em justiça e paz. É claro que a paz – que é o nosso desejo -, só se fará se tiver justiça. A questão da justiça para mim é algo muito forte. Injustiças me tiram do eixo.

Brasil - O Brasil começou invadido, ficou muito tempo dominado e tenta buscar a sua própria identidade, cidadania com muita dificuldade. Mas hoje é possível ver um Brasil que começa a ser ouvido e respeitado. Isso não é resultado de apenas um grupo político, é um esforço daqueles que viveram, sobreviveram e morreram. Na minha fala ainda tem muito do meu sentimento de criança, de ver a ideia da igualdade ser possível entre as pessoas. Lembro que, quando criança, via os pobres e os negros não sentarem nos primeiros bancos da Igreja, por exemplo. Nos primeiros bancos sentavam os brancos e os ricos. Eu achava estranho, perguntava por que, mas ninguém me respondia objetivamente.

Atividades - Já publiquei livros de poesias, também lecionei como professora visitante em Belém do Pará, onde conheci meu atual companheiro, Humberto Cunha, que também é um sobrevivente da Ditadura e dos porões do Carandiru. Na época, ele foi cassado pelo 477  e AI 5. Eu o encontrei nessa luta pelos direitos humanos. A tentativa de fazer com que a igualdade saísse da lei e fosse para a realidade, para mim, é uma questão muito forte nessa luta pelos direitos humanos. Felizmente, também encontrei em Humberto essa parceria.

Lazer - Escrevo meus versos e isso é terapêutico para mim. Não tenho muita pretensão com isso, embora faça parte da Associação de Letras. Gosto de pintar; fiz aulas de artes plásticas.  Não sou uma pessoa das lidas domésticas. Como canceriana, sou quieta e gosto de acolher as pessoas. Talvez busque menos e receba mais. Pelo meu processo de timidez, não gosto de espetáculo, da cena pública, de estar na vitrine. E também não gosto de pessoas que gostam de dar espetáculo. Sou muito critica, atenta e observadora. Analiso também a mim mesmo porque tenho imperfeições como todos os seres humanos. Gosto muito de viajar. A experiência cultural das viagens é muito interessante. Isso me enriquecesse culturalmente.

Religião – Sou uma pessoa religiosa. Já participei de vários movimentos da Igreja. Eduquei meus filhos dentro da religiosidade. O meu ir e vir na Igreja gira em torno da minha necessidade e liberdade pessoal. O Sagrado me toca muito, mas não faço proselitismo disso nem da forma do que eu penso filosoficamente e politicamente. Lido com argumentos. As pessoas, para me contestarem, precisam me dar argumentos. Tenho muito problema com disciplinamento e regramentos que não levam a nada.

Sonhos – Enquanto estamos vivos, estamos sonhando. Quando eu me aposentar de novo tenho vontade de trabalhar com crianças abandonadas. Acho que é preciso um olhar voltado para a infância, para pensar as crianças como presente no sentido de construir o futuro. Tenho isso como perspectiva.

Unisinos – Participei da diretoria da Adunisinos quando ingressei na universidade. Antes de trabalhar aqui, tinha a visão de que a Unisinos era muito grande, mas pouco qualificada. De 1996 para cá, a Unisinos cresceu muito. Naquela época, deveria existir um ou dois cursos de pós-graduação. Houve um trabalho muito sério para qualificar o ensino e torná-la uma universidade de pesquisa. Hoje, quando viajo, percebo que as pessoas têm uma reação de reconhecimento do crescimento da Unisinos. Com a nova reestruturação da universidade, perdemos um pouco o contato com os colegas do cotidiano. Lembro que, quando cheguei aqui, no Centro 1, havia uma imensa sala de professores, onde nos reuníamos, contávamos piadas, conversávamos. Isso se desfez porque as pessoas passam muito tempo em seus gabinetes, com seus grupos de estudos e necessariamente não precisam conversar. Claro que todo o crescimento tem um ônus. Podemos dizer que viver e crescer dói. Então, acho que tem um pouco a dor do crescimento nesse aspecto, daquilo que era mais horizontal e mais fraterno. Sempre tenho preocupação com as metas do crescimento, qual é o limite para não deixar muitos à beira do caminho. Mas também tenho uma dimensão de credibilidade na figura de liderança que Marcelo Aquino está colocando hoje. Ele é extremamente atento e dialoga com todos. Tenho esse voto de confiança no discernimento que ele tem de saber para onde caminha o crescimento.

IHU – Acompanho o IHU de duas formas: pelos eventos que acontecem na Sala Ignacio Ellacuría – aliás achei uma excelente homenagem a um mártir -, e através da revista e do site. Tenho uma observação: vejo que o IHU é parcial. Dependendo do assunto que discute, ouve apenas uma corrente de pensamento. Poderia ter outra forma de enfocar os assuntos, de uma forma mais plural. Acho que as discussões são muito dirigidas. Um instituto que procura trabalhar culturalmente o debate – e acho extremamente importante os temas discutidos -, podia também fazer uma arena de debates. Uma sessão de polêmica, porque todos os assuntos têm

vários lados. Não gosto quando um veículo aborda apenas um ponto de vista. Sempre existe o fato e as versões do fato. A oxigenação do pensamento é boa. A ideia de dissenso não é ruim, ela aflora a discussão.
Sobre Belo Monte, por exemplo, tenho discutido com Humberto, que é agrônomo, educador popular e veio de Belém do Pará. Nos anos da Ditadura se lutou muito contra Belo Monte, por toda a destruição que a obra causaria à natureza. Mas ele me diz que hoje, a obra tem outra dimensão e que a informação divulgada na mídia não é a única verdadeira. Eu vi que o IHU entrevistou vários pesquisadores contra Belo Monte, mas não ouviu nenhum a favor ou algum neutro que pudesse discutir de outro ponto de vista. Achei que ficou parcial. Não estou defendendo Belo Monte, mas penso que o debate é importante.

O IHU cumpre um papel interessante na universidade, de proporcionar eventos significativos em diversas áreas e é esclarecedor.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição