Edição 327 | 03 Maio 2010

Estamos construindo projeto de nação nos moldes de Furtado

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Patricia Fachin e Márcia Junges

Brasil tem um futuro econômico e social promissor como Furtado delineava há 60 anos, constata Wilson Vieira

“Vislumbramos um futuro econômico e social promissor caso sejam mantidas essas políticas econômicas e sociais. A partir dessa realidade, percebemos que estamos construindo um projeto de nação que contempla o desenvolvimento econômico e social num contexto democrático, tal como Furtado planejava e sonhava desde a década de 1950”. A declaração é do economista Wilson Vieira, em entrevista exclusiva, concedida, por e-mail, à IHU On-Line. Segundo ele, “as crises que ocorreram a partir da segunda metade da década de 1990 se constituem numa constatação da fragilidade do modelo neoliberal, que defende a abolição de todas as restrições para o comércio internacional”.

Economista, mestre em História Econômica pelo Instituto de Economia da Unicamp, doutorando em sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, Wilson Vieira é membro do Centro de Estudos Brasileiros do IFCH – Unicamp. Leciona no Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal) e na Faculdade de Americana (FAM).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como se dá a ligação entre desenvolvimento econômico e construção da nação no pensamento de Celso Furtado?

Wilson Vieira - A ligação entre desenvolvimento econômico e construção da nação no pensamento de Celso Furtado pode ser encontrada quando ele vê essa construção firmada na unificação do mercado nacional e nos nexos de solidariedade entre as regiões brasileiras sob o comando do Estado, promotor das políticas de desenvolvimento econômico, elemento amalgamador da nação.

IHU On-Line - Para Furtado, que iniciativas eram fundamentais para atingir o desenvolvimento econômico brasileiro?

Wilson Vieira - Para se atingir o desenvolvimento econômico brasileiro era fundamental a existência de um Estado planejador desse desenvolvimento através da industrialização, sempre num contexto democrático.

IHU On-Line - Ele defendia a atuação do Estado enquanto promotor de políticas de desenvolvimento econômico. A atuação do Estado, defendida por Celso Furtado, tem alguma semelhança com a atuação do Estado, hoje, na condução dos rumos da economia?

Wilson Vieira - Sim, dentro da ideia de planejar o desenvolvimento e com forte presença e indução de políticas de desenvolvimento econômico e social por parte do Estado.

IHU On-Line - O Estado brasileiro tem incentivado a consolidação de gigantes nacionais com capacidade de atuação internacional. A partir disso, o Brasil se insere numa nova fase social e econômica?

Wilson Vieira - Sim, dentro de um processo no qual o governo atual busca fortalecer a economia nacional através da dinamização do mercado interno em conjunto com maior penetração internacional dos produtos brasileiros, além das empresas, com diversificação e ampliação dos intercâmbios econômicos (vide G-20 e acordos comerciais com países da África e do Oriente Médio).

IHU On-Line - Considerando a globalização, a internacionalização, com a ajuda do Estado, de diversos grupos econômicos brasileiros e internacionais, e as sucessivas crises econômicas dos últimos anos, como a de 2008, que futuro econômico e social o senhor vislumbra para o Brasil? Que projeto de nação estamos construindo a partir disso?

Wilson Vieira - Sobre as sucessivas crises econômicas, cabe aqui fazer a seguinte observação: as crises que ocorreram a partir da segunda metade da década de 1990 se constituem numa constatação da fragilidade do modelo neoliberal, que defende a abolição de todas as restrições para o comércio internacional (sem se preocupar com as diferenças entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos e com a necessidade de políticas especiais de proteção para alguns produtos do Terceiro Mundo), a desregulamentação da economia, as privatizações e a retirada do Estado como planejador da economia. Tal modelo não cumpriu suas promessas de desenvolvimento econômico, pois trouxe crises econômicas sucessivas, aumento da pobreza em diversas partes do Terceiro Mundo e limitação da autonomia dos Estados Nacionais na condução de suas economias domésticas.

O que podemos pontuar aqui foi a reação brasileira às crises: durante os dois mandatos do Presidente Fernando Henrique Cardoso, percebemos um comportamento que seguiu os ditames da cartilha neoliberal, sem aumento da presença do Estado e nem incentivo ao mercado doméstico, o que contribuiu para uma situação de crescimento praticamente nulo da economia brasileira. Em relação à crise de 2008, no segundo mandato do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a reação se deu com forte presença do Estado como elemento de indução do crescimento econômico, via redução de impostos indiretos (como o IPI), manutenção das taxas de juros praticamente no mesmo patamar, além da continuação de planos de fortalecimento da economia nacional como o PAC e de programas de inclusão social e econômica como o Bolsa Família. Tais medidas levaram a uma rápida recuperação da economia brasileira.

Respondendo mais especificamente à pergunta, com base nas colocações feitas acima, vislumbramos um futuro econômico e social promissor caso sejam mantidas essas políticas econômicas e sociais. A partir dessa realidade, percebemos que estamos construindo um projeto de nação que contempla o desenvolvimento econômico e social num contexto democrático, tal como Furtado planejava e sonhava desde a década de 1950.

IHU On-Line - O nacional desenvolvimentismo ainda é um fator fundamental quando se pensa a construção da nação? Por quê?

Wilson Vieira - Sim, mas feitas as devidas adaptações temporais e históricas, porque o nacional-desenvolvimentismo deve ser entendido como uma ideologia e uma prática político-econômica das décadas de 1950 e 1960, na qual o desenvolvimento econômico deveria ser impulsionado pelo Estado com forte participação do capital estatal, seguido pelo capital privado nacional e pelo capital privado internacional. Dentro do nacional-desenvolvimentismo, havia diferenças internas quanto à participação do capital estrangeiro no processo de desenvolvimento econômico, que ia desde nenhuma participação, passando por uma pequena presença (e com controles) até uma expressiva participação (com ou sem controles).
Feitas as devidas adaptações temporais, ou seja, levando em conta os fenômenos da mundialização do capital (ou globalização) e da reestruturação produtiva que vem ocorrendo desde meados da década de 1970, vimos o nacional-desenvolvimentismo como um fator fundamental para pensar a construção da nação.

IHU On-Line - Que modelo econômico é factível com um projeto de construção da nação? Que características devem fazer parte desse modelo?

Wilson Vieira - Um modelo econômico factível com um projeto de construção de nação é aquele que concilia desenvolvimento econômico e social (com planejamento estatal) com fortalecimento da democracia via participação política cada vez mais intensa da população, juntamente com a consolidação da cidadania e dos direitos.

IHU On-Line - Há 50 anos, quando escreveu Formação Econômica do Brasil, Furtado descreveu a realidade brasileira e mostrou uma preocupação com as disparidades regionais, o que dificultava a ideia de construção da nação. Hoje, que avaliação o senhor faz, de modo geral, das economias regionais? Com que intensidade essas disparidades ainda permanecem no cenário nacional e de que maneira elas dificultam o desenvolvimento econômico e o processo de construção da nação?

Wilson Vieira - Sobre as economias regionais, percebemos ainda um quadro que apresenta disparidades econômicas e sociais entre as regiões. Porém, graças às políticas de desenvolvimento regional iniciadas com a SUDENE , houve uma diminuição das disparidades mais gritantes entre as regiões, mas que não foram solucionadas, pois ainda permanece a predominância da Região Sudeste sobre as outras regiões (em especial entre o sul do estado de Minas Gerais e sul do estado do Rio de Janeiro e todo o estado de São Paulo), seguida da Região Sul.

Se essas disparidades não forem solucionadas (acreditamos que serão), o risco que se corre é o da fragmentação da economia nacional, na qual haveria regiões com plena integração aos circuitos econômicos internacionais (com atração de investimentos nacionais e estrangeiros), e outras totalmente (ou parcialmente) marginalizadas desses circuitos, situação que poderia levar a uma demora ainda maior no processo de construção da nação Brasil.

IHU On-Line - O Brasil carece de um projeto de desenvolvimento econômico que leva em conta a construção de um projeto de nação?

Wilson Vieira - Acreditamos que não, apesar de defendermos que esse projeto carece de uma participação mais forte ainda do Estado.

IHU On-Line - É possível, na conjuntura atual, recuperar a construção interrompida, da qual falava Furtado? Ou, pelo contrário, a política econômica atual enfatiza ainda mais essa descontinuidade?

Wilson Vieira - Sim, como podemos observar no aumento da participação do Estado, nos projetos de desenvolvimento econômico e social, apesar da política econômica (em alguns momentos) priorizar o combate à inflação com medidas inibidoras do crescimento, mesmo com o governo atual trabalhando com medidas compensatórias a tal inibição.

IHU On-Line - Agora, farei um questionamento que o senhor aponta em sua pesquisa: a interrupção do desenvolvimento econômico proposto por Furtado implica necessariamente em interrupção da construção da nação?

Wilson Vieira - Sim, porque o desenvolvimento econômico é um dos elementos que unifica e constrói a nação, que cria laços de solidariedade entre as regiões.

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