Edição 324 | 12 Abril 2010

IHU Repórter - Dorotea Frank Kersch

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Patricia Fachin

Dorotea Frank Kersch, Gerente acadêmica da Unidade de Pesquisa e Pós-Graduação e professora do PPG em Linguística Aplicada da Unisinos, tem uma relação afetiva com a universidade desde o tempo da graduação. Formada em Letras, ela é funcionária da instituição há 14 anos. Na entrevista que segue, Dorotea conta à IHU On-Line sua trajetória profissional, fala sobre a família e o período em que viveu na Alemanha. Confira.

Origens – Sou neta de um austríaco. Meu avô veio para o Brasil durante a Primeira Guerra Mundial. Minha avó materna era ucraniana, da antiga União Soviética. Meus avós paternos são de origem alemã. Nasci em Concórdia, Santa Catarina. Sou filha de agricultores e saí de casa aos 11 anos para estudar. Minha mãe tinha uma visão de futuro e sempre dizia que gostaria que nós (meus irmãos e eu) tivéssemos uma vida melhor do que a dela. Quando conclui o segundo grau, mudei para São Leopoldo. Uma de minhas irmãs já morava na cidade e trabalhava no Cartório Comasseto. Esse também foi meu primeiro emprego.

Família - Minha mãe faleceu há 22 anos, e meu pai há 9. Tenho seis irmãos: três mulheres, eu sou a mais nova; e dois homens. Uma das minhas irmãs mora em Porto Alegre, outra reside no Oeste Baiano, um irmão vive nos EUA e dois em Concórdia. Não nos visitamos mais na intensidade que gostaríamos. Isso para mim é doloroso porque estamos num novo estágio da vida: ultrapassando a idade adulta e indo para a melhor idade. Não conseguimos mais reunir todos porque a família está muito grande. A última vez que conseguimos reunir parte da família foi no casamento da minha filha, em abril de 2008. No último Natal, meu irmão que vive nos EUA esteve no Brasil, e conseguimos fazer uma reunião familiar. Minha mãe zelava para que nos déssemos bem. Ela sempre cuidava para que os presentes de Natal fossem rigorosamente iguais, para que nós não tivéssemos desentendimento em função de algum dos filhos ser favorecido. Repito isso com meus dois filhos. Não faço diferença entre eles e cuido para que o dinheiro, por exemplo, nunca venha a ser um problema para a desestruturação da família.

Filhos - Sou casada e moro em São Leopoldo, próximo à universidade. Tenho dois filhos, ambos estudaram na Unisinos. Minha filha Mônica foi bolsista de iniciação científica do professor Carlos Fonseca, do curso de Biologia. Ela fez um excelente trabalho de conclusão e conseguiu publicá-lo em uma revista internacional de alto impacto. Na graduação, ela conheceu o marido, Carlos Guilherme, meu genro, também um filho muito querido. Ambos fizeram seleção de mestrado na Universidade de Campinas - Unicamp e no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - Inpe, na Amazônia. Deus está cuidando deles. Os dois cursaram mestrado na Unicamp. Ele publicou um artigo na revista Science, uma das publicações científicas mais prestigiadas do mundo, pelo fato de ter desenvolvido uma teoria sobre o desaparecimento dos anfíbios. Essa pesquisa o colocou junto com os pesquisadores de ponta do Brasil na área. Com isso, eles conseguiram uma bolsa para estudar durante um ano na Cornell University, em Nova York. Passado esse período, encaminharam bolsa da CAPES/Fullbright e continuam estudando lá. Ela qualifica a tese na próxima semana e ele, em maio. Em 2013, retornam para o Brasil. Já os visitei uma vez e, em maio, quando entro em férias, viajo para visitá-los novamente.

Meu filho Guilherme se formou em janeiro no curso de Comércio Exterior e trabalha numa empresa de logística, em Porto Alegre. Ele aprendeu a língua alemã muito rápido, já falava inglês bem, e aprendeu espanhol por osmose, conversando com os latinos enquanto morávamos na Alemanha. Ele gosta muito de línguas e, por isso, optou pelo comércio exterior. Ele é apaixonado pela Alemanha e adotou o país como sua segunda nação, como eu. Ele namora a Dani, outra pessoa maravilhosa que entrou na nossa família, e parece que sempre esteve ali.

Estudos - Iniciei a graduação em Comunicação Social, na Unisinos, mas, quando tive de realizar as disciplinas práticas, percebi que não tinha perfil para a profissão. Passei, então, para o curso de Letras, onde me realizei. Comecei a lecionar nas escolas do município, depois numa do estado e, em seguida, fui professora do Colégio Concórdia, em São Leopoldo. Depois de um período lecionando, resolvi cursar o mestrado. Fiz uma seleção na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, fui aprovada e quando estava finalizando o curso, comecei a trabalhar na Ulbra e depois vim para a Unisinos, em março de 1996. De 1998 até 2002, fui coordenadora do curso de Letras. Depois, me ausentei da universidade por um período, quando fui para a Alemanha cursar o doutorado. Tive permissão da Unisinos e um apoio parcial. Lá, fui professora de português para estrangeiros, na cidade de Kiel, no norte do país. Morei na Europa 3 anos e 10 meses. Viajei em outubro de 2002; meus filhos e meu esposo foram em dezembro. Minha filha permaneceu lá até fevereiro e meu filho morou comigo por dois anos. Nesse período, vim algumas vezes ao Brasil e meu esposo passou alguns meses na Alemanha.

Vida na Europa – A vida na Alemanha é diferente, mas maravilhosa. Sempre digo que não conheci os alemães frios e fechados que muitos dizem conhecer. Tenho amigos até hoje e trocamos e-mails, pacotinhos de Natal. Eles têm outra rotina de vida. Amigos são sagrados e a vida é mais afetiva. Lembro da primeira vez que entrei em férias: fui à secretaria da universidade para deixar meus números de telefone, caso eles quisessem entrar em contato comigo. A secretária perguntou: “A senhora não vai sair de férias? Então, aproveite. Se tiver algum problema, conversamos quando retornar.” Isso mostra que a cultura é bastante diferente. As pessoas não levam trabalho para casa, e a liberdade delas é sagrada. As empresas não invadem a privacidade dos trabalhadores.

Trabalho na Unisinos – Hoje, sou gerente acadêmica da Unidade de Pesquisa e Pós-Graduação e sou professora do PPG em Linguística Aplicada. Como o trabalho na Unidade de Pesquisa absorve bastante tempo, não tenho tido condições de lecionar na graduação. Apenas oriento trabalhos de conclusão.          

Lazer – Há três anos vou à academia e corro. Eu não gosto de exercício físico, não sinto nenhum prazer, mas sei que é necessário. Leio nas horas de folga e também desenvolvo uma atividade na Igreja. Eventualmente assisto filmes.

Igreja – Sou evangélica e participo da Igreja Batista, em São Leopoldo. Creio na salvação em Jesus Cristo. Ele é meu rei, meu salvador, me ampara nos momentos difíceis e está junto comigo mesmo quando eu acho que não. Isso me dá ânimo, coragem e vontade de que outras pessoas possam ter essa proximidade com Deus e reconhecer Nele um amigo.

Sonho – Tenho uma preocupação muito grande com a questão ambiental. Quero conhecer meus netos e gostaria que tivesse um mundo habitável para eles. Sou obcecada com sacolas, garrafas e copos plásticos. Fico feliz com cada sacola que deixo no supermercado. Sei que muitas pessoas ainda não se dão conta disso, mas me preocupo com o lixo que produzo e fico feliz quando consigo reutilizar algo. Outra preocupação que tenho é em relação à água. Um dia ela vai acabar. As pessoas fingem não saber disso.

Também quero ter uma velhice tranquila, com saúde. A minha geração vai ficar velha e será muito numerosa. Os estudos mostram um Brasil envelhecido nos próximos 20, 30 anos. Espero que Deus, também, ali, me carregue para que eu possa ter uma velhice serena, rodeada de netinhos e animais.

Animais – Adoro animais, tenho duas cadelas, a Funny e a Molly, e duas gatas, a Candy e a Phoebe. Uma é persa e a outra é himalaia. São raças queridas. Sou muito apaixonada por elas e me pergunto como serei com os netos se já me derreto com elas.

Vida – É um dom precioso. Vida plena é ter uma família presente, os animais em volta e tudo isso amparado por Deus. Essa é a vida perfeita: estar em harmonia com a família e com Deus.

IHU – Uma vez um colega disse que o IHU era a parte humana da Unisinos. De fato, vejo que nos eventos promovidos, a vida também está em destaque nas temáticas desenvolvidas. As questões ambientais, sociais e religiosas também são tratadas sem preconceito e, a partir disso, podemos refletir e nos enxergarmos dentro dessa sociedade complexa.

Unisinos – A Unisinos me deu oportunidades e continuo acreditando que a universidade é de oportunidades. Vejo, trabalhando com a pesquisa, que tem crescido muito o nosso número de pesquisadores de produtividade do CNPQ, o que nos coloca como universidade de pesquisa. O interessante é que a maioria dos professores construiu seus currículos aqui. A Unisinos tem investido em muitos projetos de vida, investiu no meu. Sou muito grata por causa disso. Fui aluna, professora e agora gestora. A universidade é uma parte da minha vida.

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