Edição 324 | 12 Abril 2010

“O que temos ainda de aprender sobre religião?

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Patricia Fachin

O diálogo entre a tradição cristã e as religiões afro-brasileiras “é factível e só será diálogo se não pressupuser descaracterização dos interlocutores”, menciona o teólogo Afonso Soares

Na entrevista que segue, concedida, por e-mail, para a IHU On-Line, o teólogo Afonso Soares reflete sobre os espaços que a discussão em torno das religiões ocupa nas universidades. Para ele, a academia é, “por definição, lugar aberto à busca de conhecimento, venha de onde vier e por intermédio de quem quer que seja”. Nesse contexto, ele acredita que “o diálogo inter-religioso é uma das facetas do diálogo que toda universidade tem de propiciar em qualquer área do saber, sob pena de trair sua própria missão de custódia e ampliação do conhecimento”.

Tratando especificamente da relação entre as tradições cristãs e afro-brasileiras, Soares diz ainda que “é visível a melhoria histórica dessa relação”. Para ele, esse diálogo “tem camadas que precisam ser percebidas com atenção e generosidade. Dom Boaventura Kloppenbburg disse, certa vez, arrependido de suas antigas pregações contra as religiões afro, que os negros brasileiros eram os que mais amavam a Igreja Cólica e, no entanto, também eram os mais menosprezados por ela. Nesse sentido, os avanços pastorais foram enormes, haja vista a presença de uma Pastoral afro-brasileira assumida pela CNBB. Os avanços teóricos são mais tímidos, há ainda titubeios e temores que vão sendo dissipados muito mais lentamente”.

Afonso Soares estará na Unisinos, na próxima quarta-feira, 14-4-2010, ministrando a palestra Reflexões sobre a temática inter-religiosa em um contexto universitário: Que caminho(s) seguir?. O evento ocorre às 19h45min, no Auditório Central.

Afonso Soares é licenciado em Filosofia pela PUCPR, e em Teologia pelo Instituto Teológico São Paulo. É mestre em Teologia Fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana Roma, na Itália, e doutor em Ciências da Religião, pela Universidade Metodista de São Paulo. Pós-doutor pela PUC-Rio, é, atualmente, professor associado da PUC-SP. É, também, presidente da Soter e autor de Negros, uma história de migrações (São Paulo: Centro de Estudos Migratórios, 1996),  Interfaces da revelação; pressupostos para uma teologia do sincretismo religioso no Brasil (São Paulo: Paulinas, 2003) e O mal: como explicá-lo? (São Paulo: Paulus, 2003).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a temática inter-religiosa no contexto universitário?

Afonso Soares - Para responder, prefiro deixar de lado, por enquanto, aquelas considerações deselegantes e pontuais que, às vezes, ganham algum espaço, motivadas por preconceitos de acadêmicos pertencentes a outras áreas de conhecimento, ou mesmo certa indiferença desinformada com respeito à relevância do fato/fenômeno religioso.

Restam, então, pelo menos 3 modalidades de abordagem do inter-religioso na academia brasileira: a) a da Ciência da Religião; b) a da Teologia (em geral) cristã; c) a da Teologia (dita) Pluralista.

A abordagem da Ciência da Religião é, de longe, a menos controversa e com menor taxa de rejeição no espaço universitário. Pela própria natureza de seu ofício, o cientista da religião aborda toda e qualquer configuração religiosa como um dado de fato, inconteste, que precisa ser estudado e compreendido, não julgado e muito menos banido. Aproximar e cotejar religiões distintas, favorecendo seu intercâmbio, é corolário quase automático dos resultados de sua pesquisa.

Não é tão fácil assim a tarefa teológica; o teólogo não pode esconder-se numa pretensa neutralidade e fingir que considera todas as religiões como mais ou menos a mesma coisa, como variações sobre o mesmo tema. Se este teólogo for cristão (como geralmente é) e também católico terá, sobretudo na atual conjuntura eclesiástica, limites bem estreitos para exercer sua reflexão crítica numa “teologia das religiões”. Sua sobrevida numa faculdade de teologia de uma universidade católica dependerá de escrever artigos de difícil compreensão em revistas de exígua circulação (e torcer para que nenhum colega traduza e divulga suas ideias na grande mídia). Mesmo assim, a saída inteligente aqui tem sido investir em temas éticos fundamentais e de corresponsabilidade pela saúde do planeta nas gerações vindouras.

Uma terceira possível modalidade de tratamento do inter-religioso vem tomando corpo numa Teologia chamada de Pluralista (ou interconfessional, ou até transconfessional). Participei recentemente de uma obra coletiva internacional, organizada por José María Vigil, e que se propõe a pensar uma provável e futura “teologia planetária” [ver: J.M. Vigil, org.: “Hacia uma
teologia planetária”. Quito: Abya Yala, 2010. Há versão em inglês e deve sair em português pela Ed. Paulinas]. No ambiente das universidades confessionais cristãs será muito difícil fazer avançar uma discussão nesses termos. Mas ela começa a repercutir em instituições e centros acadêmicos
mais empenhados em aprofundar a aproximação e mútua ajuda entre as tradições religiosas.

IHU On-Line - Qual é o espaço que a religião deve ocupar na academia? Como devem dialogar o saber acadêmico e a religião?

Afonso Soares - O espaço da religião na academia, confessional ou não, é principalmente o de objeto de estudo. Não se devem misturar as instâncias. O proprium da academia é o saber regrado, segundo os ditames do método científico ou do labor filosófico. Mesmo numa faculdade de teologia decididamente confessional, a interferência ou “intromissão” do poder eclesiástico no dia-a-dia da pesquisa teológica só pode empobrecer o resultado das investigações.

No entanto, na medida em que a teologia e, principalmente, a ciência da religião vão burilando, afinando e melhorando seus métodos de abordagem e investigação do fenômeno religioso, é de se esperar que todos ganhemos em aumento de conhecimento sobre as nuanças e sutilezas da realidade total.

IHU On-Line - Quais são os princípios que devem regular o diálogo inter-religioso na universidade? Nesse sentido, que caminhos a universidade deve adotar para assegurar o diálogo inter-religioso?

Afonso Soares - Não sou nenhuma autoridade com competência para ditar regras ou receituários. Mas creio que o fundamental é o óbvio: a universidade é, por definição, lugar aberto à busca de conhecimento, venha de onde vier e por intermédio de quem quer que seja. O contrário também é verdadeiro: onde quer que encontre manipulação de dados, encobrimento da verdade e descaso pelo bem público, é imperativo que os cientistas e acadêmicos contribuam para desbaratar esse estado de coisas. O diálogo inter-religioso é uma das facetas do diálogo que toda universidade tem de propiciar em qualquer área do saber, sob pena de trair sua própria missão de custódia e ampliação do conhecimento.

IHU On-Line - Qual é o papel da universidade no sentido de recuperar a história das diferentes tradições religiosas?

Afonso Soares - Respondo a partir de meu trabalho como cientista da religião. O que pretende a Ciência da Religião? Em primeiro lugar, ela tem o mesmo objetivo que qualquer outra ciência na universidade: por meio de seu trabalho, quer ampliar o saber sobre o mundo e os seres humanos. Mas o cientista da religião oferece uma contribuição importante na recuperação de diferentes
tradições religiosas justamente porque é menos [nunca totalmente] influenciado pelo desejo de proteger/defender esta ou aquela religião. Ainda que ele seja, muitas vezes, como aquele investigador surdo que descreve a apresentação de uma orquestra [na conhecida imagem usada por Rubem Alves em “O enigma da religião”], ele pode evitar que certos olhares teológicos vejam
demais ou de menos aquilo que compromete suas pré-compreensões de fé. Por outro lado, o saber universitário só tem a ganhar na medida em que dá espaço para a pesquisa teológica propriamente dita. Veja bem: é relevante conhecer cada vez melhor a pluralidade e a força do fenômeno religioso; porém, como diz Hans-Jürgen Greschat, são os fiéis de uma determinada crença que devem informar se entendemos adequadamente essa mesma fé. Para Greschat, não consultar adeptos da religião pesquisada depõe contra a validade das descrições que fizermos dela [veja: H.-J. Greschat. O que é Ciência da Religião? SP: Paulinas, 2006]. Ora, o teólogo é um adepto especializado de uma determinada religião. Qualquer cientista interessado em pesquisar
religiões que abra mão do parecer teológico, conhece menos [e mal] a religião que pesquisa.

IHU On-Line - De que maneira a universidade pode fomentar o diálogo inter-religioso e contribuir com a sociedade neste momento de crise de valores?

Afonso Soares - A universidade é um espaço privilegiado de encontro das diferenças, de pesquisa científica e reflexão filosófica sobre todo e qualquer tema de interesse. Toda a universidade que mereça carregar esse nome dispõe de amplas atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão. Portanto, é de se esperar de nossos inúmeros centros de saber pelo Brasil afora que contemplem em todos os cursos de graduação disciplinas da grande área de humanas cuja ementa inclua a preocupação de educar para o diálogo intercultural e inter-religioso. Mas essas disciplinas perderão cedo o fôlego se não estiverem respaldadas por grupos de estudo e de pesquisa que publiquem regularmente seus resultados na área. E tais grupos receberão a seiva de seu trabalho justamente da qualidade de seu compromisso com a comunidade, qualidade esta que é provocada pelos desafios e demandas da sociedade e devem voltar à sociedade como devolução do saber gerado na academia.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a relação entre as religiões afro-brasileiras e as universidades cristãs? Existe possibilidade de diálogo entre essas duas esferas, sem que ambas se descaracterizem? Quais as condições para este diálogo? As religiões afro-brasileiras estão ganhando mais espaço nas instituições de ensino em geral?

Afonso Soares - É visível a melhoria histórica dessa relação entre religiões de origem africana e universidades cristãs. No geral, as religiões afro-brasileiras estão ganhando mais espaço nas instituições de ensino e vêm sendo estudadas até por força da lei federal que dispõe nessa direção. A Lei 10.639/03 abre uma vereda promissora para que se busquem novas diretrizes curriculares para o estudo da história e da cultura afro-brasileira e africana. 

Por outro lado, seria inconcebível hoje algo similar à campanha apologética antirreligiões africanas, liderada por dom Kloppenburg até inícios da década de 60 do século passado. Um diálogo entre essas duas tradições espirituais é factível e só será diálogo se não pressupuser descaracterização dos interlocutores. Mas isso não significa que a busca comum da verdade não levará os envolvidos a rever posições, mudar de ideia em alguns temas e chegar a conclusões impensáveis antes de se iniciarem os intercâmbios. Só dialoga de verdade quem pressupõe e deseja aprender algo com o outro; caso contrário, é proselitismo mal camuflado [a pior espécie de proselitismo, porque se nega admitir que o seja].

IHU On-Line - Como pensador católico, como o senhor percebe o diálogo entre as religiões afro-brasileiras e o catolicismo?

Afonso Soares - Esse diálogo tem camadas que precisam ser percebidas com atenção e generosidade. O mesmo Dom Boaventura Kloppenbburg, que citei acima, disse certa vez, arrependido de suas antigas pregações contra as religiões afro, que os negros brasileiros eram os que mais amavam a Igreja Cólica e, no entanto, também eram os mais menosprezados por ela. Nesse sentido, os avanços pastorais foram enormes, haja vista a presença de uma Pastoral afro-brasileira assumida pela CNBB. Os avanços teóricos são mais tímidos, há ainda titubeios e temores que vão sendo dissipados muito mais lentamente.

Isso se deve, em grande parte, ao controvertido tema do sincretismo religioso ou da dupla vivência religiosa – isto é, quando uma pessoa sem abdicar de suas práticas e convicções espirituais de origem (no caso, as africanas, como candomblé, batuque ou tambor de mina) participa também da vida sacramental católica, sem ver nisso nenhuma contradição ou objeção de consciência. Lidar com essa realidade não é fácil. Teólogos e pastores católicos têm optado na prática por uma estratégia de paciência histórica (que já dá sinais hoje de ter limites mais estreitos do que esperávamos): veem o sincretismo como um mal menor e vão fazendo o que podem no cotidiano pastoral. Outros (a maioria) preferem insistir no que se convencionou chamar de “inculturação” e assim leem como positiva a situação de dupla pertença/vivência religiosa; com isso, garantem (ou pensam garantir) a condução do processo desse encontro entre religiões, apostando na progressiva assimilação do catolicismo pelos seguidores da tradição dos orixás.

O que me parece menos percebido e admitido nessas duas atitudes é o papel de protagonismo dos próprios fiéis. Quando estes estão (parecem estar) sob a tutela da comunidade cristã, fala-se de inculturação; quando seguem (parecem seguir) por conta própria fala-se, pejorativamente, de sincretismo.

Eu creio que nesses casos a contribuição da ciência da religião seria uma luz para teólogos, pastoralistas e agentes de pastoral. Nós não temos poder para conduzir o processo dos encontros e interações entre os adeptos de diferentes religiões. A dupla ou múltipla vivência de católicos-de-umbanda ou candomblezeiros cristãos é um dado de fato; há gente vivendo sua espiritualidade dessa forma, gostemos ou não. Mas a questão principal é: o que temos ainda de aprender sobre religião com esses fenômenos [pergunta do cientista da religião]? E o que temos ainda de discernir sobre a maneira de Deus se revelar à humanidade [pergunta do teólogo cristão]?

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