Edição 321 | 15 Março 2010

O filme e a poesia como dádiva e ressurreição

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Patricia Fachin

Elementos religiosos pulsam no cinema e na literatura. A visão do teólogo Waldecy Tenório

Na entrevista que segue, concedida, por e-mail, à IHU On-Line, Tenório adianta alguns dos aspectos a serem ponderados nos dias 17 e 18 de março, quando comentará o filme Central do Brasil, de Walter Salles. Além disso, ele relaciona teologia e literatura na obra de João Cabral e interpreta a poesia de Drummond. Na opinião dele, o filme Central do Brasil lança três olhares sobre a realidade brasileira que correspondem aos termos da dialética de Hegel: tese, antítese e síntese. A obra tem ainda uma visão teopoética, ou seja, “a realidade não se esgota nos elementos sociológicos que são apresentados ao longo do filme”. Para apreender a realidade como um todo, menciona, o filme “também aponta para a dimensão teológica da vida, mostrando que sem ela nossa visão da realidade é sempre mais incompleta”. E resume: “O olhar teopoético significa a passagem da imanência para a transcendência”.

Relacionando Central do Brasil com a teologia contida na obra literária de João Cabral, Tenório diz que o autor descobre que “somos muitos Severinos iguais em tudo na vida”.  E quando faz essa descoberta, enfatiza, “João Cabral, como Josué, chega bem perto do pai. E aí, ‘o gemido mais gemido acaba em explosão’. A explosão do sagrado.”

A leitura teopoética também serve como referência para a releitura que Tenório faz da poesia de Drummond. Ele explica: “É uma transleitura que pretendo fazer, e nessa transleitura descubro elementos religiosos pulsando no fundo do texto”. Central do Brasil será exibido na quarta-feira, 17 de março, das 15 às 17h. O debate acontece das 17h30min às 19h.

No dia seguinte, 18 de março, Waldecy Tenório ministra a palestra A Teologia e a Outra – A explosão do sagrado na poesia de João Cabral, das 8h30min às 12h. Às 19h30min, o professor aborda O “claro enigma” de Drummond. A poesia como dádiva. Todos os eventos acontecem na sala Ignacio Ellacuría e Companheiros - IHU.

Tenório estudou no Seminário de Olinda, é licenciado em Letras Clássicas e doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo. É autor de A Bailadora Andaluza: a Explosão do Sagrado na Poesia de João Cabral (São Paulo: Ateliê Editorial, 1996) e de vários ensaios sobre ficção e teologia. Foi pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP e é, atualmente, professor associado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que olhares o filme “Central do Brasil” propõe sobre a realidade brasileira?

Waldecy Tenório - Talvez se possa dizer desse filme que ele lança três olhares sobre a realidade brasileira, e esses três olhares correspondam aos três termos da dialética hegeliana: tese, antítese, síntese. Claro que podemos descobrir outros olhares, afinal, a obra de arte tem infinitas possibilidades de interpretação. Mas vou me fixar nesses três. O primeiro olhar revela o negativo sociológico em toda a sua crueldade: a miséria, a corrupção, a exploração de uns pelos outros, a violência camuflada, a degradação das pessoas, o crime organizado e assim por diante. É a tese. O segundo olhar, porém, descortina outro panorama no qual se destaca, em meio ao negativo sociológico, o traço positivo presente nos que teimam em descobrir, apesar de tudo, o sentido das coisas. É a antítese. O terceiro olhar opera um deslocamento de planos de tal modo que ao plano sociológico vem se juntar o plano metafísico, completando o primeiro e ampliando o significado da obra. É a síntese.

IHU On-Line - Pode nos descrever o que significa esse olhar teopoético que o senhor percebe no filme?

Waldecy Tenório - O primeiro olhar, que chamei de sociológico, mostra uma rede de degradação que engloba todo o espaço do filme, desde o território da estação dos trens, passando pelos subúrbios cariocas até o Nordeste brasileiro. O segundo olhar acompanha as personagens centrais, Dora e Josué, pelos diversos estágios da transformação pessoal de cada um. O terceiro olhar, que chamo de teopoético, junta-se aos dois primeiros para nos oferecer uma visão mais completa  da realidade ao colocar o  metafísico como elemento indispensável para a compreensão do filme. Enfim, esse olhar teopoético sabe que a realidade não se esgota nos elementos sociológicos que são apresentados ao longo do filme. Por isso, para apreender a realidade como um todo, o filme engloba os elementos sociológicos, mas também aponta para a dimensão teológica da vida, mostrando que sem ela nossa visão da realidade é sempre mais incompleta. E então, a busca de Josué pelo pai torna-se metáfora de uma outra busca... E se lembrarmos o conceito de metáfora ascendente proposto por André Breton , o olhar teopoético significa a passagem da imanência para a transcendência.

IHU On-Line - Resumidamente, o filme trata da história de um garoto em busca do pai e de uma mulher à procura de seus sentimentos. Em que medida isso revela o jeito humano de ser, de mudar o curso de histórias em busca de algo melhor?

Waldecy Tenório - Essa pergunta nos permite retomar uma questão já levantada na resposta anterior. Ela se reporta justamente àquilo que o olhar teopoético desvenda: a dimensão metafísica e teológica da realidade na qual estamos inteiramente mergulhados.  Dora vive dentro do negativo sociológico de que falamos antes. Josué idem. No entanto, nem esse negativo sociológico consegue apagar neles a insustentável nostalgia do ser. E eles se põem a caminho, Josué em busca do pai, Dora em busca de si mesmo. Assim somos feitos, esse é o jeito humano de ser. Descobrir seus sentimentos? Sim, descobrir um sentido para a sua existência. Sinto, logo existo, Leonardo Boff  contrapõe essa fórmula ao cogito cartesiano.  E é por aí que Josué e Dora mudam a sua história.

IHU On-Line - De que maneira o filme oportuniza a reflexão sobre os conflitos contemporâneos, sobretudo no que diz respeito à realidade do Brasil?

Waldecy Tenório - Sendo exatamente o que ele é, ou seja, uma obra de arte, e não um desses panfletos políticos em que não acreditamos mais. Evidentemente, a arte não demonstra nada, não prova nada e, mesmo assim, é irrefutável. O que acontece? Acontece, e Nietzsche  percebeu isso, que há nela um aspecto que, muitas vezes, escapa à nossa percepção: o seu processo de “feitura”, a ontologia escondida na questão do vir-a-ser. Desse modo, o filme pode ser visto como uma grande interrogação e é assim que ele nos leva a refletir sobre os conflitos contemporâneos no Brasil e no mundo. Por que as coisas não seriam diferentes?  Dora e Josué, como todos, são vítimas de um sistema assassino. O filme, porém, tem a esperança de Horkheimer : que o sistema assassino não seja a última palavra, e que, no fim, o assassino não triunfe sobre as vítimas inocentes.

IHU On-Line - Além de comentar o filme, o senhor ministrará uma palestra sobre João Cabral. Como se dá a explosão do sagrado na poesia de João Cabral?

Waldecy Tenório - É verdade, vou examinar essa questão na aula que darei no curso de Letras, na qual retomarei a tese central do meu livro A Bailadora Andaluza, que é a seguinte: a obra de João Cabral , um homem confessadamente ateu (“Eu não tenho esse negócio de transcendência não”), está contaminada pela teologia. Bom, mas há aqui uma primeira questão a ser elucidada: de que teologia se fala?  Dessas terríveis teologias do poder? Não, nada disso. Quando falo em teologia, estou falando de uma sabedoria universal, de um sentimento do divino que nos ensina que somos todos irmãos. No percurso de sua obra poética, João Cabral descobre exatamente isso. Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida. É quando faz essa descoberta que João Cabral, como Josué, chega bem perto do pai. E aí, “o gemido mais gemido acaba em explosão”. A explosão do sagrado.

IHU On-Line - O senhor ainda completa o evento, ministrando uma palestra sobre Drummond. Em que consiste o claro enigma de Drummond?

Waldecy Tenório - Em que consiste o “claro enigma” de Drummond é o clímax da palestra que vou ministrar. Quer mesmo que lhe conte agora?  De qualquer maneira, não adiantaria deixar o gato escondido com o rabo de fora e, por isso, vou dizer logo duas ou três coisas sobre o assunto.  O que vou apresentar nessa palestra é “uma certa” leitura de Drummond. Digo “uma certa leitura” porque  toda obra permite, como lembrei antes, infinitas possibilidades de interpretação. Então escolhi a minha: uma leitura teopoética. Em que consiste?  Em olhar o texto em todas as suas possibilidades semânticas, prestando atenção na sua literariedade e também nos elementos extrínsecos para os quais ela aponta. Em outras palavras, é uma transleitura que pretendo fazer, e, nessa transleitura, descubro  elementos religiosos pulsando no fundo do texto. Esses elementos falam de uma ausência, e essa ausência, para lembrar uma expressão de Derrida , invoca uma presença “por detrás”. É por aí que pretendo desvendar o enigma de Drummond.

IHU On-Line - Como o senhor entende a poesia enquanto dádiva?

Waldecy Tenório - Quando falei desse tema, a dádiva, estava pensando no grande ensaio de Marcel Mauss . Ao estudar este ensaio, em O Enigma da Dádiva, Maurice Godolier  chega à conclusão de que Mauss invoca uma dimensão religiosa como explicação da dádiva. Haverá uma dimensão religiosa para explicar a poesia? Paul Valéry  fala em “valor de infinitude” da linguagem. Greimas  fala em mistério. O Platão do Fedro fala da origem sobrenatural da poesia. São coisas muito altas. E ela, a poesia, o que nos diz?  Pela voz de Valéry, outra vez, ela diz: “Je suis em toi le secret changement” (eu sou em ti a secreta mudança). Não é uma dádiva, isso?
 
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>> Waldecy Tenório já concedeu outras entrevistas para a IHU On-Line. O material está disponível na nossa página eletrônica www.ihu.unisinos.br

• Camus entre a emoção e a graça. Publicada em 3/2/2010;

• “Meu Deus e meu conflito”. Teologia e literatura. Edição número 251, de 17/3/2009, intitulada O belo e o verdadeiro. A tensa e mútua relação entre teologia e literatura;

• “Uma dor comum na consciência”. Edição número 221, de 27/5/2008, intitulada Cem anos de solidão. Realidade, fantasia e atualidade: os 40 anos da obra de Gabriel García Márquez.

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