Edição 321 | 15 Março 2010

“A água é exótica ao nosso planeta. Pelo menos na origem”

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Graziela Wolfart

A preocupação com o destino das águas na natureza pode levar o humano a descobrir as águas na vida e no coração dos homens, entende Evaristo de Miranda

“Nosso planeta nasceu sem água. Ao longo de bilhões de anos, ele foi esfriando, sem atmosfera, em meio a enormes derramamentos de lava e erupções vulcânicas e sempre recebendo água do espaço exterior. Quem enriqueceu a Terra de água foram os cometas que caíam por aqui. Nossa água veio do espaço sideral. Não é ‘natural’ da Terra. Assim, a queda de um asteróide ou de um cometa pode também significar vida, e não apenas a extinção dos dinossauros”. É assim que o professor Evaristo Eduardo de Miranda explica a origem da água no planeta Terra. Em entrevista concedida, por e-mail, à IHU On-Line, ele defende que a água “não está acabando, conforme a ignorância de alguns anuncia. A água que existia há 100 mil anos é a mesma hoje. Ela pode se tornar inadequada para consumo ou insuficiente diante de uma demanda crescente em determinados lugares. O grande desafio é gerir a água”. Evaristo ainda reflete sobre a água como símbolo em rituais religiosos, mas lembra: “quem proclama a água como símbolo e fonte de vida deveria mencionar que ela é também uma fonte de morte. De muitas mortes. As águas de fontes murmurantes, límpidos regatos, orvalhos reluzentes, chuvas abençoadas e criadeiras são as mesmas das tempestades, trombas d’água, inundações, nevascas, maremotos e tsunamis, aquelas vagas imensas que agora no Chile mataram mais gente do que o próprio terremoto”. Na opinião do engenheiro agrícola, falta gestão da água, tecnologia adequada e recursos financeiros, na maioria das situações. “Na realidade, o desperdício de água é muito, muito pior e maior do que a escassez”.

Graduado em Engenharia Agrícola pelo Institut Superieur d Agriculture Rhone Alpes Isara, França, Evaristo Miranda realizou mestrado e doutorado na área de Ecologia na Université de Montpellier II, na França. Atualmente, é pesquisador na Embrapa Monitoramento por Satélite e professor-orientador na USP e na Unicamp. É autor de, entre outros, Água, sopro e luz - Alquimia do batismo (2. ed. São Paulo: Loyola, 1995), A foice da lua no campo das estrelas - Ministrar exéquias (São Paulo: Loyola, 1998), A água na natureza e na vida dos homens (Aparecida: Ideias & Letras, 2004) e A Sacralidade das águas corporais (São Paulo: Loyola, 2004). Publicou, ainda, o Guia de curiosidades católicas (Petrópolis: Vozes, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que análise cosmológica pode-se fazer da água no planeta Terra? Quais os principais pontos que o senhor destaca no processo da origem da água?

Evaristo Miranda - Nosso planeta nasceu sem água. Ao longo de bilhões de anos, ele foi esfriando, sem atmosfera, em meio a enormes derramamentos de lava e erupções vulcânicas e sempre recebendo água do espaço exterior. Quem enriqueceu a Terra de água foram os cometas que caíam por aqui. Nossa água veio do espaço sideral. Não é “natural” da Terra. Assim, a queda de um asteróide ou de um cometa pode também significar vida, e não apenas a extinção dos dinossauros. Há ainda a hipótese de que até a própria vida tenha chegado ao nosso planeta graças aos cometas. Pode parecer paradoxal, mas, de certa forma, a água é exótica ao nosso planeta. Pelo menos na origem. Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, dizia o princípio de conservação de massa do grande cientista Lavoisier.   Isso vale para a água. Ela não está acabando, conforme a ignorância de alguns anuncia. A água que existia há 100 mil anos é a mesma hoje. Ela pode se tornar inadequada para consumo ou insuficiente diante de uma demanda crescente em determinados lugares. O grande desafio é gerir a água.

IHU On-Line - Qual a importância da água para os seres humanos, considerando que nascemos na água e que 70% do nosso corpo é composto de água?

Evaristo Miranda - Sua pergunta já disse tudo. Somos dependentes da água para viver, em nossa fisiologia, para regular nossa temperatura etc. Grande parte dos animais, em particular, os mamíferos, é assim. Não há muito que se orgulhar disso. As plantas são bem mais evoluídas que os animais, apesar de nós, as corujas, os leões e muitos animais pensarmos o contrário. As plantas foram as primeiras a inventar o ovo, bem antes da galinha. Os animais nunca conseguiram libertar sua reprodução do ambiente aquático. As plantas evoluíram e libertaram a sua reprodução do ambiente aquático. Há 200 milhões de anos, os espermatozóides vegetais eliminaram seu flagelo, perdendo a capacidade de nadar. Ao cair sobre um óvulo, o pólen desenvolve um tubo que o penetra até atingir a célula reprodutora feminina. E, por esse tubo, migra o patrimônio genético masculino. Milhões de anos depois, uma segunda invenção ocorreu: a semente. Com ela, as plantas puderam controlar o tempo. Os animais nunca conseguiram. E viajar pelo espaço. Quando um óvulo animal é fecundado, a gestação começa imediatamente. Pouco importa se as condições são favoráveis ou não ao desenvolvimento do feto e ao seu nascimento. Nos vegetais não é assim. Após fecundação, através da dissecação, o embrião entra numa fase de vida muito lenta. O teor médio de água das plantas é de 80%, mas, nas sementes, ele é de 10% ou menos. O embrião para o crescimento. E pode aguardar anos e anos até encontrar um ambiente favorável para germinar. É como se uma mulher fecundada decidisse guardar o feto por 15 ou 10 anos antes de dar início à gestação.

IHU On-Line - Quais as principais ambiguidades que envolvem a água enquanto símbolo cosmológico?

Evaristo Miranda - Quem proclama a água como símbolo e fonte de vida deveria mencionar que ela é também uma fonte de morte. De muitas mortes. As águas de fontes murmurantes, límpidos regatos, orvalhos reluzentes, chuvas abençoadas e criadeiras são as mesmas das tempestades, trombas d’água, inundações, nevascas, maremotos e tsunamis, aquelas vagas imensas que agora no Chile mataram mais gente do que o próprio terremoto. Além das matanças das cheias, afogamentos e naufrágios, um grande número de doenças chega aos humanos por ingestão de água contaminada: cólera, disenteria amebiana, disenteria bacilar, febre tifóide e paratifóide, gastroenterite, giardise, hepatite infecciosa, leptospirose, paralisia infantil, salmonelose. Outras chegam pelo simples contato com água contaminada: escabiose (sarna), tracoma (mais frequente nas zonas rurais), verminoses. Outras doenças ainda têm na água limpa um estágio do ciclo de vida de seus vetores, como esquistossomose, dengue, febre amarela, filariose e malária. A cólera, a febre tifóide e paratifóide são frequentemente ocasionadas por águas contaminadas e penetram no organismo via cutânea, mucosa ou oral. A água é vida e é morte, no que pesem as idealizações sobre isso.

IHU On-Line - Como entender o uso da água nos rituais religiosos das diversas crenças? Há um significado comum no uso da água nas cerimônias religiosas?

Evaristo Miranda - L. A. White  dizia que o homem é o único animal que distingue a água comum da água benta. Isso vale para os católicos. Acho difícil encontrar um significado comum no uso das águas nas cerimônias religiosas, a não ser naquilo que é mais trivial: poderoso solvente, a água serve para limpar e purificar. Para os cristãos, existe uma sacralidade das águas corporais. As manifestações de sede de Jesus não eram apenas a vontade de um pouco de água. As lágrimas de Jesus não eram um mero fruto da emoção. Ao lavar os pés de seus discípulos, Jesus não cumpria simplesmente um ritual de higiene. As menções evangélicas ao seu suor não podem ser reduzidas ao fruto de um trabalho ou esforço corporal. Ao usar sua saliva para curar cegos e um surdo-mudo, tocando seus olhos, ouvidos e boca com essa líquida secreção, Jesus não escandaliza nenhum dos presentes. Essas águas interiores e corporais de Jesus de Nazaré são a expressão de realidades espirituais e de seus vínculos com pés, mãos, boca, olhos, peito e pele. Esses significados espirituais das águas, os cristãos podem descobrir.

IHU On-Line - Como podemos definir uma mística das águas?

Evaristo Miranda - Na mística judaica, a palavra hebraica águas, maim, da direita para a esquerda e da esquerda para direita pode-se ler ma e mi. Em hebraico, ma e mi correspondem aos pronomes interrogativos “o quê?” e “quem?”. Quem acima do quê? No centro das águas, matriciada como num útero, está a letra iud. Na grafia das águas judaicas, estão colocadas duas questões essenciais para o humano: mi e ma, quem? e o quê?. Quem é Deus? e O que é o homem? Essa perspectiva anda muito longe das visões de máquina de lavar associadas a muitos ritos de purificação. Se maim, águas, em hebraico, é sempre plural, em sua multiplicidade, o mesmo ocorre em hebraico com a palavra céus, shamaim.  Textualmente: lá tem águas. Na maior das orações cristãs, a da filiação a Deus (Mt 6,9; Lc 11,2) utilizam-se seis palavras: Pai Nosso que estás nos céus. Em hebraico são duas: Avinu (Painosso) shebashamaim (noscéus). Pai Nosso que está lá onde tem águas, numa leitura poética. Na tradição cristã, existe uma sacralidade das águas corporais, cuja topologia é visitada nos sacramentos e particularmente no rito do batismo, de grande significado espiritual.

IHU On-Line - De que forma a reflexão cosmológica, espiritual e simbólica sobre a água pode ajudar a encontrar um caminho para o problema da escassez dos recursos hídricos no planeta?

Evaristo Miranda - O contrário é mais relevante. A preocupação com o destino das águas na natureza pode levar o humano a descobrir as águas na vida e no coração dos homens. Esses significados maiores das águas são frutos do discernimento e do amadurecimento pessoal e espiritual. Penetrar no mistério e na riqueza desses úmidos relatos evangélicos sobre as águas corporais e na natureza requer um mínimo de informações e conhecimentos sobre a visão das águas na tradição judaica, na qual se inseria plenamente Jesus, filho de José, bem como os autores dos evangelhos. Requer também um caminhar de discípulo, um mínimo de vivência pessoal e comunitária na defesa da vida, da pessoa, da natureza e da Criação. Quanto à escassez dos recursos hídricos no planeta, excetuando-se regiões desérticas semiáridas que insistimos em ocupar, ela praticamente não existe. É um chavão, repetido gratuitamente. O que falta é gestão da água, tecnologia adequada e recursos financeiros, na maioria das situações. Na realidade, o desperdício de água é muito, muito pior e maior do que a escassez.

Leia mais...

As águas e a sede do humano pela sua humanidade e divindade. Entrevista com Evaristo Eduardo de Miranda, publicada na revista IHU On-Line, número 288, de 06-04-2009.

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