Edição 320 | 21 Dezembro 2009

IHU Repórter - Francisco Zanini

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart e Márcia Junges

Uma pessoa simples, um pouco avessa a determinadas formalidades. Esse é o professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis da Unisinos, Francisco Zanini, que, a partir de janeiro de 2010, assume na universidade o cargo de diretor da Unidade Acadêmica de Educação Continuada. Ao contar sua trajetória pessoal e profissional à IHU On-Line, Zanini confessa que tem a mania de tentar fazer tudo bem feito. “Sou exigente com as outras pessoas, e, às vezes, mais do que deveria. Sou comprometido com o que faço, e procuro ser uma pessoa confiável, ética, em alguém em quem se pode confiar”, define-se. Confira a entrevista.

Origens – Nasci em Santa Maria, numa família de origem italiana. Minha mãe é natural da cidade de Mata, ali perto. Ela trabalhou nos Correios e Telégrafos na juventude, mas, depois de ter os filhos, decidiu ficar em casa. Meu pai é militar de carreira, chegou a ser capitão. Tenho quatro irmãos: uma irmã mais velha, engenheira civil, assim como eu, e os outros dois são dentistas.

Infância - Como meu pai era militar, nos mudamos algumas vezes em função do seu trabalho. Nasci em Santa Maria e lá fiquei até os seis anos. Entre 6 e 7 anos, morava em Santiago, onde fui alfabetizado. Vivemos numa casa bem antiga, com porão, o que me marcou muito. Éramos pequenos e vivíamos vasculhando esse lugar, cheio de relíquias. Depois voltamos para Santa Maria. Estudei quase até o final do atual Ensino Fundamental no Colégio Estadual Cícero Barreto. Em 1975, vivemos em Uruguaiana e então lembro que como o câmbio era muito favorável aos brasileiros, fazíamos bastantes compras na Argentina. Como tudo era muito barato, comprávamos coisas para consumo próprio. Recordo que eu não gostava de passar na Aduana, na volta, porque o pessoal não era muito educado. Era um momento de tensão. Na minha adolescência, voltamos para Santa Maria, e estudei no Colégio Maria Rocha, onde fiz vários amigos que conservo até hoje.

Família – Conheci minha esposa, a Lisiane, quando éramos bem jovens. Eu tinha 21 anos, e ela 17. Foi num baile de Carnaval, em Santa Maria. Casamos, eu com 25, ela com 21. Estamos juntos até hoje, 22 anos depois. Temos dois filhos, a Isadora, de 14 anos, e o Pedro, de 6. Demoramos a ter o primeiro filho, e passamos bem a transição do primeiro para o segundo. Nesse momento, Isadora concluiu o Ensino Fundamental, e o Pedro, a pré-escola. Tínhamos duas formaturas no mesmo período. Em casa temos um excelente convívio, e fazemos várias coisas juntos, sobretudo no final de semana. Eles têm muitas atividades escolares e outras extras, além dos esportes. Lisiane é funcionária de uma organização governamental chamada Reflorescer, que presta apoio a famílias carentes que tem crianças com doenças crônicas. Essa organização é originária do Rio de Janeiro. A formação da minha esposa é Geografia e Estudos Sociais, com especialização e mestrado em Geografia pela UFRGS. Quando estivemos na Espanha, ela cursou o doutorado. Falta a defesa da tese.

Paternidade – Com os filhos, se amadurece muito, nos tornamos mais responsáveis e pensamos mais antes de tomar qualquer atitude importante com relação à vida. De uma forma geral, arrisca-se menos em todas as áreas. É uma experiência linda, gratificante, e quando encontro casais de amigos que não tem filhos, digo que é algo fantástico, que não tem descrição, mas que exige vivência. Só passando por isso é que se tem ideia do que estou falando. Com os filhos se desenvolve um constante aprendizado.

Profissão - Cursei Engenharia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com 17 anos. Olhando para trás, acredito que seja pouca idade para se tomar uma decisão tão importante. Depois de cinco anos, estava formado. Trabalhei por dois anos como engenheiro civil numa construtora, na época a quinta maior do Rio Grande do Sul, a Portela. Foi um período de grande aprendizado, mas eu não gostava da minha função, que era a execução de obras. Quando comecei nessa tarefa, eu tinha 22 anos, e de imediato coordenei uma obra com 220 funcionários. Tratava-se da construção do prédio da Caixa Econômica Federal, em Santa Maria. Eu gostava razoavelmente do que fazia, mas achava muito difícil trabalhar com aquele tipo de mão-de-obra.

Sempre gostei de outras áreas, e, nessa época, comecei a estudar Economia, à noite, mas não concluí o curso. Assim, me encaminhei para o mercado financeiro. Fiz um concurso no Banco do Brasil e trabalhei durante 15 anos nessa instituição. Fiz vários cursos ligados à área de finanças e gestão em geral. Iniciei, ainda, duas outras graduações, Direito e Economia, ambas não concluídas. No Direito, fui aluno do ministro Nelson Jobim, alguém que, já àquela época, era bastante notável.

Mudança de rumos - Quando optei por sair do banco, voltei a estudar. Apesar de gostar de meu trabalho, não aceitava o fato de ter que me mudar a cada dois, três ou quatro anos. Isso chegou a acontecer algumas vezes. Fiquei sete anos em Santa Maria, depois mais dois anos em Pelotas, e a seguir mais dois anos em Caxias do Sul. De lá, fui para Porto Alegre, em 1998, e tive a sorte de receber outra promoção, ficando nessa cidade. Ainda quando estava em Caxias, me dei conta que deveria oferecer mais tranquilidade e estabilidade à minha família. Por isso resolvi sair do banco. Eu queria ter um planejamento mais autoral da minha vida.

Finanças e docência - Quando estava em Caxias, fiz especialização em Finanças, na Universidade de Caxias do Sul (UCS). Quando vim para Porto Alegre, a primeira coisa que realizei foi ingressar no mestrado da Unisinos em parceria com a PUC-Rio, na área de Administração de Empresas, área de concentração de Finanças. Antes de concluí-lo, tive a chance de dar aulas. Iniciei, assim, como professor de finanças duas noites por semana, aqui no câmpus. Assumi o cargo de coordenador adjunto do curso de Administração. Depois de um semestre, fiquei na coordenação geral do curso por um semestre. Saí para ir para a Espanha, na Universidade Autônoma de Madri, cursar meu doutorado em Contabilidade e Organização de empresas, concluído em 2008. Voltei e já tinha atividades na Unisinos, além de escrever a tese. Desde então, estou vinculado ao PPG de Ciências Contábeis e colaboro na administração da Universidade.

Desafio – Assumo meu novo cargo, de diretor da Unidade Acadêmica de Educação Continuada, com boa vontade, procurando fazer o melhor, querendo dar, efetivamente, uma contribuição e fazer com os demais membros da diretoria uma equipe de trabalho numa época difícil para muitas universidades particulares. A Unisinos já passou por momentos extremamente críticos. Agora ainda há muita “turbulência”, e nós precisamos, sejamos professores ou funcionários, de qualificação. A Unisinos já é bastante bem reconhecida no meio acadêmico, mas necessitamos que ela seja ainda melhor vista por toda a sociedade. Penso que, no meio empresarial, por exemplo, é necessário que tenhamos uma visibilidade maior. Pretendo dar continuidade a uma série de projetos que o professor Zani tem nessa área e que estava desenvolvendo.

Uma empresa, sempre que precisar de alguma consultoria, em todas as áreas que a Unisinos trabalha, deve lembrar de nossa universidade em primeiro lugar, pelo menos no Rio Grande do Sul, como referência para a consultoria, a prestação de determinados serviços, treinamentos empresariais, etc. Essas são metas que temos. Temos que trabalhar em conjunto com as duas outras diretorias acadêmicas e de apoio. Devemos melhorar a integração entre o funcionamento da graduação, da educação continuada e da pós-graduação. Existe um certo distanciamento que temos que desfazer. É imperioso trabalhar de forma mais integrada, e os outros diretores compartilham desse ponto de vista.

Autor – Eça de Queirós. Li praticamente todos os livros dele.

LivroA Cidade e as Serras, de Eça de Queirós.

Filme Sonata de Outono, do Ingmar Bergman.

Horas livres – Adoro reunir-me com meus amigos para fazer um churrasco, peixe assado, ou ler. Também aprecio caminhar, sempre que possível. Gosto de eventos esportivos pela televisão. No final de semana, acompanho os jogos.

Sonho – Ter tempo para viajar mais e conhecer vários países ao redor do mundo. Mas isso fica para a aposentadoria.

Medo – Tenho medo de alguns caminhos que a humanidade toma e que parecem difíceis de reverter. Com esse encontro sobre o clima, em Copenhague, torço para que tenhamos boas notícias, com acordos. Infelizmente, sou muito cético em relação a isso. Isso é algo que me assusta.

Mensagem de Natal – O Natal é um congraçamento familiar que vem dessa espiritualidade simbólica do nascimento de Cristo. É momento de reflexão. Não concordo, nem um pouco, com a comercialização feita em torno do Natal. Conversamos muito sobre isso em casa. É uma data que convida à reflexão, ao questionamento do sentido da vida, e é por isso que procuramos nos unir ainda mais nesse período.

Unisinos – Gostei da Unisinos desde que cheguei para o mestrado. Conheci várias pessoas aqui dentro que se tornaram meus amigos. Essas pessoas começaram a formar para mim uma imagem de universidade que tenho até hoje. É uma instituição extremamente séria, que prima por fazer as coisas com qualidade, e quer isso. A educação jesuíta tem essa característica, e isso me chamou a atenção. A excelência acadêmica é outro traço que ressalto, uma busca constante. Esse termo quer dizer excelência de qualidade em tudo o que uma universidade faz.

Instituto Humanitas Unisinos - O IHU busca ajudar as pessoas a ter esse discernimento em relação a temas extremamente importantes, como a ética, o ambiente, querendo trazer uma visão diferente das grandes redes de notícias que, todos nós sabemos, são empresas comerciais que têm muitos outros interesses em jogo, e que não têm interesse em publicar sempre o que é verdade, mas apenas o que é conveniente. O IHU tem papel relevante de contribuir para essa discussão séria e comprometida, antes de tudo, com a verdade.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição