Edição 319 | 14 Dezembro 2009

O Mutirão e a ambiência que nos constitui

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Antonio Fausto Neto

“O mutirão define-se como um coletivo de trabalho que convida instituições e indivíduos para pensar, num tempo preciso, problemáticas de comunicação que nem sempre estão contempladas pelas agendas de organizações especializadas, acadêmicas ou não”. A opinião é do professor Antonio Fausto Neto, no artigo que segue, elaborado com exclusividade a pedido da IHU On-Line

Apoiado no pensamento de Jesús Martín-Barbero, Fausto idealiza uma concepção de comunicação que “vai se tornando muito mais capaz, ‘epistemologicamente’, de dar conta do que ocorre na vida social, com as tecnologias da comunicação, transformando-se de um instrumento pontual em um ecossistema cultural”.

Antonio Fausto Neto é professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos. Possui graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mestrado em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), doutorado em Sciences de La Comunication et de L'information pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, da França, e pós-doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é também consultor da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e professor colaborador da Universidade de Santa Cruz do Sul. É autor de vários livros, entre os quais citamos Desmontagens de sentidos - Leituras de discursos midiáticos (João Pessoa - PB: Ed. Universitária UFPB, 2001), e um dos organizadores de Midiatização e processos sociais na América Latina (São Paulo: Paulus, 2008).

Confira o artigo.

O Mutirão, reunião que envolve atores profissionais de vários países da América Latina e do Caribe em torno de reflexões sobre a comunicação para solidariedade e a paz, programa uma vasta jornada de estudo na qual pretende refletir sobre os eixos temáticos “Novos cenários político-sociais latino-americanos desde os processos de comunicação”; “Economia e Comunicação na Era Digital”, e “Comunicação no diálogo das Culturas”. Seminários, conferências e oficinas de trabalho vão problematizar o tema central e os eixos temáticos, mediante as presenças de especialistas de várias áreas, tendo como interlocutores professores, profissionais, pesquisadores, estudantes, representantes de diferentes instituições, segundo anuncia a programação.

Trata-se de um fórum cujo formato ensejará a tematização de questões identificadas por coletivos sociais e profissionais, que assim encontram um novo tipo de modalidade de reflexão para pensar a comunicação. Sem ter os contornos, por exemplo, de uma sociedade científica ou de uma instituição associativa, o mutirão define-se como um coletivo de trabalho que convida instituições e indivíduos para pensar, num tempo preciso, problemáticas de comunicação que nem sempre estão contempladas pelas agendas de organizações especializadas, acadêmicas ou não.

Quando refletia sobre a elaboração deste texto, revisitava uma entrevista concedida pelo professor Jesús Martín-Barbero à revista Matrizes (“Uma aventura epistemológica” - Matrizes, USP. Vol. 2, n.2, SP: 2009 ), cujo teor, embora pertença à vasta obra do autor publicada, principalmente, em espanhol, foi dado a conhecer em língua portuguesa por ocasião de uma recente visita que fez ao Brasil. Nela, deparo-me com uma espécie de “autorreflexão” que ele faz sobre o seu percurso intelectual, especialmente sobre conceitos caros a sua obra, de modo específico, àqueles que dizem respeito ao avanço que categorias comunicacionais têm para se entender o que se busca definir como América Latina.

Fiquei pensando que, tratando-se de um texto que circula entre nós, em condições tão especiais, pelo fato do mesmo condensar problemáticas que se espalham em seus livros e pesquisas, deveria buscar, de alguma forma, um elo entre tal entrevista e o ambiente do Mutirão, a partir da leitura que fiz do tema central, dos eixos temáticos e os conteúdos dos seminários e conferências. Ou seja, vendo conexões entre o que Martín-Barbero aponta naquela entrevista e os enunciados das atividades do Mutirão, julguei que deveria, além de fornecer a referência da entrevista para quem dela quisesse se apropriar, propor que as ideias de Barbero pudessem, de alguma forma, circular entre as reflexões deste fórum de trabalho. Minha insistência repousaria na hipótese segundo a qual na fala concedida à revista Matrizes, Barbero “entra no mutirão” trazendo questões que atravessam largamente o que nele vai se estudar e debater, principalmente porque pontua problemas teóricos, metodológicos, conceituais sobre a comunicação e as mídias, segundo angulações diversas de questões que formulou há 20 anos e que serviram como bandeira para agendas de várias matrizes, institucionais ou não, que se ocuparam de estudar a comunicação.

Valendo-me de uma ponta de comentários que ele faz naquela entrevista - lembrando que não devemos considerar a teoria um luxo - peço permissão para discorrer, de modo breve, sobre alguns registros por ele elaborados sobre as transformações da comunicação midiática a partir da gênese de uma nova ambiência, que não a define como de midiatização, mas cuja descrição do fenômeno por ele feita converge com o “estado da arte” a respeito deste tema. O que segue abaixo, parece-me, dessa forma, ser do interesse dos que fazem o mutirão, por entender que ele é também um fórum de trabalho intelectual, reflexivo, teórico, em suma um ambiente de estudo, ofício necessário às diferentes práticas – acadêmicas, associativas, confessionais etc.

Sobre dois conceitos muito em voga nos debates que envolvem a comunicação, como o de globalização e o de tecnologia, ele nos diz que: “percebe-se que globalização é um conceito muito reduzido, ou seja, para uns significa a dominação do capital (um puro avatar econômico) e, para outros, uma dinâmica tecnológica que por si mesma irá solucionar os grandes problemas políticos e culturais, quando esse conceito significa o entrelaçamento de processos muito complexos (...). Quando digo tecnologias, o que estamos nomeando não é somente uma coisa, mas um ‘âmbito’ extremamente potente, tanto de linguagens como de ações, tanto de dinâmicas sociais, políticas como culturais”.

Sobre o “campo da comunicação”: “Percebo atualmente que é um campo (...) muito despotencializado. Se antes havia uma potencialidade que nos fazia pensar a sociedade, como transformá-la (...), hoje o campo da comunicação foi, em grande parte, tomado por pessoas que podem ter muito valor, mas que o tornam cada vez mais neutro, mais despotencializado, mais - e aqui uso uma palavra daqueles tempos – ‘funcionalizado’ a outras coisas, inclusive a grandes pesquisas”.

Sobre as mudanças nos seus esquemas conceituais (o aparecimento do fenômeno da midiatização): “Eu tracei um novo mapa, que incorporei no prefácio da 5ª edição ‘De los médios a las Mediaciones’. Trata-se de um mapa mais complexo, que foi emergindo das leituras que faziam sobre o livro. (...) Começo (...) a dar mais densidade epistemológica ao momento de conhecer o que vem da comunicação. Parti da perspectiva de que estudar a comunicação era estudar os meios. Entretanto, em 1990, as coisas começaram a mudar e fiz uma descoberta sobre a qual não cheguei a escrever, mas da qual falo muito agora: dei-me conta que havíamos passado anos criticando como eram alienantes os programas de ficção norte-americanos na TV latino-americana {e} comecei a me dar conta que a TV americana (...) mundializou as pessoas (...). Recoloco assim uma questão decisiva: a presença dos meios na vida social, não em termos puramente ideológicos, mas como uma capacidade de ver além dos costumes, ajudando o país a se movimentar (...) isso me leva a dar um passo (...). Inverto meu primeiro mapa e proponho as ‘mediações comunicativas da cultura’, que são a ‘tecnicidade’; a ‘institucionalidade’ crescente dos meios como instituições sociais e não apenas aparatos, instituições de peso econômico, político, cultural; a ‘socialidade’ - como laço social está se transformando para os jovens (...). E as ‘ritualidades’ que acontecem em relação aos novos formatos industriais possibilitados pela tecnicidade. (...) De alguma maneira, neste momento, aceito que muda o lugar a partir do qual estava olhando. Olhava a partir de nossa cotidianidade comunicativa latino-americana, rica, festiva. (...) Era preciso assumir não a prioridade dos meios, mas sim que o comunicativo está se transformando em protagonista de uma maneira mais forte. A mudança foi esta: reconhecer que a comunicação estava mediando, por todos os lados, as formas da vida cultural e social dos povos. Portanto, o olhar não se invertia no sentido de ir das mediações aos meios, senão da cultura à comunicação. Foi aí que comecei a repensar a noção de comunicação. Então, a noção de comunicação sai do paradigma da engenharia e se liga com as ‘interfaces’, com os ‘nós’ das interações (...) com a comunicação intermediada. A linguagem é cada vez mais intermedial e, por isso, o estudo tem que ser claramente interdisciplinar. (...) Acreditávamos que existia uma identidade da comunicação, que se dava nos meios e, hoje, não se dá nos meios. Então, onde ocorre? Na interação que possibilita a interface de todos os sentidos, portanto, é uma intermedialidade, um conceito para pensar a hibridação das linguagens e dos meios. (...) Cada vez mais o rádio é menos somente o rádio; o rádio hoje oferece programas que são blogs (...) os gêneros estão sendo reinventados à luz da televisão com a Internet. Ou seja, estamos ante uma interação que desestabiliza os discursos próprios de cada meio (...)”.

Uma vez que, durante o Mutirão, nos faremos acompanhar de autores e ideias, peço aos participantes que recebam estas reflexões de Jesús Martín-Barbero, e meditem sobre a contribuição que elas podem dar para se entender o fenômeno complexo que ele chama de um “ecossistema comunicacional”. Ou seja: “agora vivemos também em um entorno” comunicativo; este entorno técnico-comunicativo com suas linguagens, escrituras e gramáticas. E assim a concepção de comunicação vai se tornando muito mais capaz, “epistemologicamente”, de dar conta do que ocorre na vida social, com as tecnologias da comunicação, transformando-se de um instrumento pontual em um ecossistema cultural.

Assim, podemos dar um passo a mais para compreender a ambiência que nos constitui. 

Leia mais...

>> Antonio Fausto Neto já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Elas estão disponíveis na nossa página eletrônica (www.ihu.unisinos.br)

* As relações entre mídia e política no espaço público contemporâneo, publicada na IHU On-Line nº 202, de 30-10-2006;    

* Descentramento do lugar do jornalismo, publicada na IHU On-Line nº 254, de 14-04-2008;

* “A midiatização produz mais incompletudes do que as completudes pretendidas, e é bom que seja assim”, publicada na IHU On-Line número 289, de 13-04-2009.

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