Edição 319 | 14 Dezembro 2009

A confluência entre Evangelho e comunicação

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Márcia Junges

Fascínio pelas tecnologias em si mesmas faz com que riqueza de vínculos que elas proporcionam não seja levada em consideração. Evangelho e comunicação significam confluência, aponta Luis Ignacio Sierra Gutiérrez

“As pessoas podem ficar fascinadas pelas tecnologias em si mesmas, e não aproveitar a riqueza que elas proporcionam para aprofundar e enriquecer a questão dos vínculos e relações interpessoais ou interculturais que podem vir de uma tecnologia eletrônica”, pondera o filósofo colombiano Luis Ignacio Sierra Gutiérrez, na entrevista exclusiva que concedeu, pessoalmente, à IHU On-Line. Ele frisa a importância em pensarmos as pessoas que existem por trás das tecnologias: “Isso significa considerar a trajetória de vida, formação, contexto histórico e sócio-cultural dos sujeitos. Não tomar esses aspectos em consideração torna, muitas vezes, as redes locais frios, apenas”. Gutiérrez diz que comunicação e evangelho significam confluência, e que o Mutirão da Comunicação irá refletir a tecnologia “em função de um projeto social de transformação no qual a comunicação ocupa papel estratégico, fundamental”. Para o pesquisador, a midiatização é um “processo complexo de interações, produção, interação e recepção de mensagens nas quais se sentem implicadas todas as partes do sistema social, no caso do campo social concreto-religioso com a mídia, e com as mídias digitais, eletrônicas”.

Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Gutiérrez é mestre em Comunicação Social pela Universidade Católica de Louvain la Neuve, na Bélgica, onde também cursou doutorado em Teologia e Ciências Religiosas. É licenciado en Filosofia pela Pontifícia Universidade Javeriana, de Bogotá, Colômbia. Atualmente é professor titular do departamento de Comunicação da Faculdade de Comunicação e Linguagem dessa instituição, onde é diretor da Revista Signo y Pensamiento, em nível de graduação e pós-graduação.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são os principais desafios da comunicação hoje?

Luis Ignacio Sierra Gutiérrez - Penso que há muitos desafios, porque a comunicação tem uma centralidade na sociedade, na cultura e nos processos humanos. Esse é um ponto crucial das relações sociais, institucionais e interculturais. Sempre está em jogo alguma coisa relativa à comunicação. Com o desenvolvimento das tecnologias, a questão da comunicação fica posicionada em outro patamar, mais digital, eletrônico, mas com a mesma importância estratégica. O que está em jogo a respeito das novas tecnologias e desenvolvimentos digitais, mais do que a questão dos próprios dispositivos técnicos, são as relações de comunicação, de interações comunicativas e intercomunicativas. Essas relações correm o risco de se polarizar somente em função dos dispositivos tecnológicos, e não em função dos processos sociais de comunicação. Desse ponto de vista, as pessoas podem ficar fascinadas pelas tecnologias em si mesmas, e não aproveitar a riqueza que elas proporcionam para aprofundar e enriquecer a questão dos vínculos e relações interpessoais ou interculturais que podem vir de uma tecnologia eletrônica, sejam chats, blogs, facebook, myspace ou twitter .

IHU On-Line - Quais são as peculiaridades de se fazer e pensar a comunicação hoje, tomando em consideração o contexto das novas tecnologias?

Luis Ignacio Sierra Gutiérrez - Devemos ter consciência que estamos vivendo uma nova época e uma nova situação de comunicação. Essa situação é completamente diferente daquela de 20 ou 30 anos atrás, quando não existiam os dispositivos eletrônicos com os quais contamos hoje. O tempo e o espaço se reconfiguraram de uma maneira diferente em função da velocidade e da intensidade da informação. Então, podemos ter contatos, vínculos maiores dos que havia antes. Hoje, podemos multiplicar todas as relações, e fazer uma realidade da possibilidade que há a partir da Internet de tecer redes sociais e comunidades virtuais. A peculiaridade é a força desse novo ambiente tecnológico e eletrônico no qual estamos imersos, que oferece a garantia, a possibilidade de desenvolver relações mais intensas, significativas, mas correndo sempre o risco de ficar, apenas, no fascínio tecnológico, não aprofundando a qualidade da relação. É muito importante ter consciência disso. Se for ampliar o twitter, chat, blog, é preciso ter consciência de que não se trata apenas de um contato imediato. Através disso, devo-me perguntar o que vou aproveitar da relação que estou estabelecendo com a outra pessoa, ou com o outro grupo de pessoas. Qual é a finalidade que estamos procurando, qual é a densidade do processo comunicativo que estamos tecendo através desse instrumento, desse dispositivo.

IHU On-Line - Em que aspectos a midiatização da sociedade auxilia no surgimento ou na construção de uma nova cultura, baseada na solidariedade?

Luis Ignacio Sierra Gutiérrez - Hoje estamos atravessando um período da história da humanidade no qual a midiatização tem preponderância. Todos os processos sociais e culturais estão atravessados pela questão da midiatização. A religião, a política, a economia, as instituições, a educação, são todas atravessadas pela midiatização, entendida no sentido de que não se trata apenas do uso dos meios de comunicação massivos. Precisamos ter consciência de que midiatização é um processo complexo de interações, produção, interação e recepção de mensagens nas quais se sentem implicadas todas as partes do sistema social, no caso do campo social concreto-religioso com a mídia, e com as mídias digitais, eletrônicas. É o relacionamento complexo dos processos midiáticos com os processos sócio-culturais.

IHU On-Line - Qual é a pertinência de se discutir os processos de comunicação sob a ótica da cultura solidária?

Luis Ignacio Sierra Gutiérrez - A pertinência é muito grande, e depende do grau de engajamento social que existe hoje. Podemos falar, simplesmente, que a religião, economia ou política estão atravessadas por um processo de midiatização de seus conteúdos, mas o que interessa não é tanto a constatação desse processo, mas pensar em função de processos sociais de transformação, ou seja, conseguir, de certa maneira, com esses processos, que se transforme o contexto social. Isso implica certos níveis de solidariedade, de acompanhamento, reconhecimento e valorização social, para que a outra pessoa possa se sentir implicada nesse processo. E para que, com a ajuda dos processos midiáticos, possamos abranger mais e mais pessoas, e que a solidariedade deixe de ser uma questão puramente nominal, complementar, passando a ser uma questão de fatos sociais. Eu diria que a equação seria solidariedade = transformação social em conjunto, fazendo pequenas e grandes ações.

IHU On-Line - Pensando no contexto latino-americano, como a midiatização proporciona um modo de ser em rede comunicacional?

Luis Ignacio Sierra Gutiérrez - Para falar em nomes concretos, há a Associação das Universidades Jesuítas da América Latina - AUSJAL, instância que pode potencializar e desenvolver redes sociais de diferentes níveis, dependendo dos contextos de incidência nos quais se queira chegar para fazer transformação. Pode ser o contexto acadêmico, o contexto de projeção social ou de ações coletivas. Acredito que há, cada vez mais, muitos cenários nos quais nos damos conta que é preciso estabelecer tais redes e contatos, facilitados pela via eletrônica, mas que têm que passar por um processo de sensibilização, reconhecimento. Isso porque são pessoas que estão por trás dos aparelhos. Às vezes se dá muita prioridade aos aparelhos, a sua eficácia, velocidade, e se esquece a valorização das pessoas que estão por trás deles. Isso significa considerar a trajetória de vida, formação, contexto histórico e sócio-cultural dos sujeitos. Não tomar esses aspectos em consideração torna, muitas vezes, essas redes locais frios, apenas. É preciso possibilitar o contato pessoal, enquanto possível, para que as redes fiquem mais vivas. Mesmo se temos essa possibilidade de aproveitar a questão eletrônica e digital para fomentar novos contatos e interações, isso não quer dizer que temos que subvalorizar o contato pessoal, o reconhecimento. Apenas quando uma rede tem essa antecipação de conhecimento, de proximidade, familiaridade com o outro, pode ganhar em profundidade e dimensão. Do contrário, é apenas uma rede protocolar, nominal. Atrás da rede, estão as pessoas.

IHU On-Line - Que sociedade latino-americana está surgindo a partir da midiatização?

Luis Ignacio Sierra Gutiérrez - Temos a possibilidade de formar uma sociedade quase que hipnotizada pela tecnologia, que faz uso dela somente pela novidade. A questão da moda e do status também aparece muito nessas circunstâncias. Há, porém, as pessoas que querem fazer mais reflexão crítica do processo tecnológico da midiatização. Assim, penso que estamos ainda aprendendo muito sobre o que está havendo. Não se trata apenas do estudo formal, acadêmico, da midiatização, mas pela interação com outros grupos pequenos e grandes, nos quais se faça a socialização e crítica ao debate dessas questões. O fato de uma mensagem ser mediada por um dispositivo tecnológico exige a nossa reflexão e crítica. Nesse aspecto se demonstra a importância e riqueza das discussões implementadas pelo Mutirão. Vamos refletir sobre a tecnologia em função de um projeto social de transformação no qual a comunicação ocupa papel estratégico, fundamental.

IHU On-Line - Pensar essa sociedade em rede, ligada pela comunicação, seria concretizar a ideia de Teilhard de Chardin, de noosfera, algo como um “supercérebro planetário”?

Luis Ignacio Sierra Gutiérrez - Chardin  é cósmico em relação ao Universo e às relações interpessoais. Não podemos correr o risco de instrumentalizar seu pensamento e tomar apenas a questão da tecnologia por si mesma. É o mesmo que dizer que, fora do Google, não há salvação, como se esta fosse a única ferramenta de relacionamento. Então, nesse sentido, se a visão de Chardin é uma noosfera, podemos falar que existe, hoje, uma espécie de inteligência coletiva construída pelas próprias pessoas, ajudadas por certos mecanismos eletrônicos, mas que são fruto de uma construção em solidariedade, comunidade e mais personalizada do que tecnificada.

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