Edição 318 | 07 Dezembro 2009

IHU Repórter - Adevanir Aparecida Pinheiro

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Patrícia Fachin

A infância difícil, vivida no norte do Paraná e em São Paulo, despertou em Adevanir Aparecida Pinheiro, conhecida, na Unisinos, como Deva, a vontade de trabalhar com movimentos sociais e lutar por direitos igualitários. Militante, ela sempre foi engajada nas pastorais sociais, como grupo de mulheres, famílias negras, meninos de rua e, hoje, na universidade, segue trabalhando na organização dos trabalhos com o GDIREC, sob a assessoria geral do Pe. José Ivo Follmann e coordenação do Irmão Inácio Spohr. Deva coordena também os projetos afrodescendentes no sentido de contribuir com a Implementação da lei 10639/2003 e possibilitar melhor acesso para a população negra na Universidade. Na entrevista que segue, a assistente social conta alguns aspectos de sua trajetória, fala do racismo existente na academia, e do sonho de ver negros, brancos e índios comungando e tratando a reeducação das relações étnico-raciais como ponto de partida para uma sociedade justa. Confira a seguir.

 

Origens - Sou natural do Paraná. Minha família é mineira, mas mudou para o norte do Paraná no final da história do “Café com Leite”, após serem dispensados da fazenda dos Majós (antigos fazendeiros) em Minas Gerais e com o objetivo de superar a situação de pobreza. Nesta região, meus pais, pequenos agricultores, trabalhavam com plantação de café, arroz e milho. Nós somos sete irmãos, um é de criação. Todos estudaram; eles concluíram o segundo grau e optaram pelo casamento, e eu decidi continuar meus estudos. Trabalhei por um período na roça, ajudando minha família, e, depois, fui morar em São Paulo com meus tios e trabalhar de empregada doméstica, com 11 anos. Eu pulava o muro da casa da madame à noite, na Av. Rebouças, esquina com a Faria Lima, em São Paulo, para estudar; com 14 anos, ia para a escola escondida, acompanhada da minha amiga Nara. A madame não queria que eu estudasse porque tinha de acordar cedo para trabalhar.

Trabalho com movimentos sociais - Depois de ficar um período em São Paulo, retornei ao Paraná e trabalhei mais um tempo na roça e também de empregada doméstica. De lá, fui para Santa Catarina onde morei por um tempo numa casa de formação religiosa e fui trabalhar no Parque Dom Bosco, em Itajaí, com crianças e adolescentes do Morro da Cruz. A partir daí, passei a trabalhar nos Direitos Humanos de Itajaí, com grupo de mulheres na delegacia da mulher e trabalhei no presídio central de Itajaí com as famílias dos presos, organizei o primeiro movimento negro na cidade. Em 1991, mudei para São Leopoldo, onde já havia também organizado a primeira pastoral negra na Paróquia José Beato de Anchieta com assessoria do Pe. José Ivo Follmann, Pe. Levino Camilo e depois com o Pe. Luiz Haas e o Pe. Constâncio. A Pastoral negra se tornou, mais tarde, o Grupo Zumbi dos Palmares, o que hoje é a DIMPPIR. Esse trabalho teve seu início com os Jesuítas na Paróquia José de Anchieta, na Vila Duque de Caxias. Assim, iniciei minha trajetória nos movimentos sociais: atuei no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, na Fazenda Santa Rita, em Canoas, acompanhei as Romarias da Terra na fazenda Annoni, no RS. Meu pai tinha vergonha do meu envolvimento com os Sem Terra. Ele dizia: “Por que você tem que morar com os Sem Terra? Você tem um pedaço de terra, não precisa acompanhá-los”. Mais tarde, ele acabou gostando da Romaria da Terra lá no Paraná e entendeu o meu trabalho. Até hoje acompanha a luta dos movimentos sociais que apoiam os negros, os Sem Terra e os bóias-frias.

Movimento afrodescendente - De 1990 até 1998, trabalhei na Pastoral do Menor, com meninos de rua. Depois, fui promovida para trabalhar na Universidade. Já em 1994, ingressei na Unisinos como bolsista do padre José Ivo Follmann. Concluí a graduação em Serviço Social, e especializei-me em famílias de raízes africanas do norte do Paraná. Meu orientador foi o Pe. Hilário Dik. Nesse trabalho, coletei depoimentos dos meus pais e aprofundei minhas raízes. Foi uma experiência muito legal, aguçou ainda mais minha identidade negra. Fiz o mestrado em Ciências Sociais, analisando as práticas sociais religiosas e a emancipação dos sujeitos aqui na Unisinos.

Em 1999, fui contratada para organizar o programa das religiões, e, enquanto esse trabalho foi sendo construído, fui também buscando organizar o primeiro grupo de estudantes afrodescendentes na universidade. O ECAU – Estudante Afro da Unisinos. Esse grupo durou alguns anos e não teve mais como continuar. Depois, nesse processo, fui elaborando projetos de Cidadania e Cultura Religiosa Afrodescendente, ao perceber que a população negra não tinha acesso à universidade. Há seis anos, todas as sextas-feiras, encontramo-nos com essas famílias, jovens e adolescentes das Vilas, dos bairros, ou seja, da comunidade.

Durante dois anos, fiquei observando as crianças negras que participavam da Informática, de modo geral, e as crianças do PEI na universidade. Percebia que elas não conseguiam chegar perto do computador. Quando queriam se aproximar da máquina, outra criança pegava o lugar delas. Essa atitude deixava as crianças negras inibidas e dificultava a interação delas com a tecnologia. A partir dessa realidade, elaborei um projeto de inclusão Digital Afrodescendente na Unisinos para criar essa possibilidade de acesso. Para nossa surpresa, hoje não damos conta dos negros, adultos, crianças, jovens e adolescentes que participam e já conseguiram avançar neste aprendizado, inclusive com outra autoestima, com outra visão da Universidade. Eles realmente hoje gostam de vir para a Unisinos e falam disso com alegria, com pertencimento, além de estarem preparados para o mercado de trabalho. Eles fazem seus currículos e aprendem, através da metodologia diferenciada, sobre sua história, identidade e sobre as celebridades negras, quilombos, ou seja, não ensinamos apenas a informatização tecnológica, vamos além, buscando resgatar essa história e origem da população negra, que ficou muito apagada e esquecida no território leopoldense.

Em 2003, foi alterada a Lei nº.9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir, no currículo oficial da Rede de Ensino, a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e das outras providências. Foram alterados os artigos 26-A, 79-A e 79-B. Com isso, foi instituída a Lei 10.639/2003, criando as condições de acesso para a população negra na educação, no Brasil. Nesse momento, percebi que estávamos no caminho certo, porque iniciamos nossos trabalhos antes mesmo da promulgação da assinatura e aprovação da Lei, ou seja, não inventamos trabalho nenhum na Universidade com a população negra, nós só adiantamos o processo de inclusão e de obrigatoriedade da Lei. Acho um absurdo ter de incluir os negros e os indígenas através de obrigatoriedade de Lei. Mas se não se inclui por vias normais, porque não se enxerga o diferente, a Lei é necessária.

Preconceito no Rio Grande do Sul – Quando cheguei ao estado, percebi que, no Rio Grande do Sul, havia uma exclusão e uma cegueira muito séria em relação ao negro. Nesta região, os brancos não enxergavam os negros. Com o tempo, compreendi que, em partes, isso ocorre devido à colonização alemã nesse território. Os brancos empobrecidos e os indígenas também não são vistos. Nesse sentido, o nosso trabalho de militância acadêmica representa também um desafio para muitas pessoas na universidade. Porque, até então, a história verdadeira não foi contada nem para os brancos e muito menos para a população negra. Com a Lei 10.639, todos os saberes devem ser valorizados. A mudança de paradigma mexe também com as questões científicas e com as teorias, ou seja, com o modo de pensar da academia, que sempre viveu num conforto em termos de transdisciplinaridade. Há outros saberes que a própria ciência deixou para trás, e agora isso deve ser resgatado. As tradições orais, as culturas africanas vêm da oralidade, e nada se debateu sobre isso na academia. Também não se discute a história dos povos indígenas nesta região.

Muitas histórias ficaram esquecidas, mas, na minha região de origem, as histórias são contadas e lembradas com muito orgulho. Existe uma creche chamada Dona Nina, em homenagem a uma parteira da cidade que fazia parto de todas as mulheres. Ela é minha avó. Na minha família, sempre partimos do princípio de tratar as pessoas como seres humanos diferentes na cor, na origem, mas iguais nos direitos, na humanidade e na educação!

Doutorado - Quando fui contatada para iniciar o doutorado, apresentei meu tema e o assunto que gostaria de pesquisar. Estou desenvolvendo a pesquisa e escolhi estudar a temática da branquitude e da negritude em três estados: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A pesquisa centra-se em torno da Lei 10.639/2003 e como se dá essa inclusão dos diferentes, principalmente, no contexto acadêmico. Já estou em fase final e estou muito tranquila diante desse trabalho de pesquisa. É um desafio para qualquer pesquisador, e isso é bom.

Universidade e o movimento afrodescendente - Estou muito feliz porque a “universidade” e, em especial os jesuítas, abraçaram a implementação da Lei de inclusão dos afrodescendentes. Padre José Ivo é o protagonista do trabalho afro em São Leopoldo, e foi reconhecido pela população negra leopoldense por isso. O Mec já tem clareza de que a Unisinos está assumindo um trabalho de reeducação das relações étnico-raciais, que envolve a implementação da Lei nos currículos e nos diversos cursos da academia. Na semana passada, aconteceu o III Fórum de Implementação da Lei dentro da universidade. O Mec sempre apoiou essas iniciativas em universidades federais, estaduais, mas aceitou que o encontro acontecesse na Unisinos, que é confessional e privada, devido aos trabalhos que foram iniciado aqui antes da Lei. Hoje, estamos ligados à Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade – Secad-Brasília, e a Unisinos tem espaço na comissão estadual do fórum de educação das relações étnico-raciais. Esse é um trabalho também de militância e, às vezes, para muitos intelectuais, a militância é questionada. Mas os autores que sigo dizem que a militância acadêmica também é científica. Sigo a metodologia de Paulo Freire  e Florestan Fernandes. Depois que li Florestan Fernandes, descobri que ele renovou e questionou a sociologia; ele era branco, dedicou-se ao estudo do negro no Brasil e perguntava qual era a chance que os negros teriam no futuro para participar da sociedade moderna colonizada.

Vida pessoal – Sou solteira. Decidi estudar e desenvolver trabalhos sociais e raciais. Sou, acima de tudo, uma Assistente Social. Moro em São Leopoldo e, com frequência, meus pais vêm me visitar e ficar comigo. Meus vizinhos me adotaram e meus irmãos também tomam conta de mim. Acho desafiador morar aqui em função do racismo, o qual é muito forte. Hoje entendo porque os negros da região não participam das atividades. A postura e os olhares dos brancos no Rio Grande do Sul são muito fortes. Mas entendo que eles foram enganados com histórias mal contadas. Quando eles se dão conta da discriminação, nós ainda precisamos pedir desculpas, dizer que está tudo bem, pois eles ficam envergonhados porque, às vezes, não se dão conta do racismo internalizado. Já me perguntaram qual é a situação mais difícil para enfrentar na Unisinos, e eu disse que não gostaria de falar de dificuldades, e sim de coragem: precisa ter muita coragem para enfrentar o preconceito e as discriminações. No Rio Grande do Sul, nunca existiram denuncias claras sobre isso. Em Santa Catarina, essa questão é mais avançada, e, no norte do Paraná, o racismo é bem menor. Na Unisinos, existem poucos profissionais negros que residem em São Leopoldo, a maioria mora em outras cidades, e isso já é um sinal de interrogação. A maior parte da população negra sempre esteve na área de trabalho menos valorizado, poucos em cargos mais elevados. Isso começou a mudar. Não sei qual é a estatística de negros na Universidade. Muitos negros ainda carregam a identidade de branco, não reconhecem sua história, sua origem, e isso também acaba ocultando essa estatística.

Racismo – Para superar o racismo, os brancos precisam assumir os seus problemas. Se eles assumirem com categoria o racismo e se envolverem no trabalho com os negros, sem querer ganhar em cima ou ter lucro, a coisa mudaria com mais tranquilidade. O mais problemático é a indiferença, e isso cega os seres humanos. Enquanto os brancos não reconhecerem e assumirem esse aspecto discriminatório baseado na cor da pele e a dominação sobre o sujeito negro e indígena não terá muito como apressar a Lei. As situações são profundamente veladas no cotidiano e não se tem como provar nada. Isso acaba voltando a velha e ultrapassada ideia de uma cordialidade falsificada ou da tal democracia que são todos iguais. É um processo que ainda vai longe e teremos de ter muita paciência e coragem para enfrentar. O aspecto positivo é que agora os brancos também devem se perceber e entrar nessa reeducação das relações étnico-raciais, sem jogar o problema só para os negros. Eles também guardam muitas internalizações históricas de superioridades, das quais não são culpados. De qualquer modo, não dá para continuar se ausentando disso.

Sonhos – Meu sonho é que brancos e negros comam no mesmo prato. Que brancos possam se libertar deste racismo e dessa domesticação e consigam comungar com a cultura brasileira negra que ajudou a enriquecer o país. E que brancos, negros, índios possam comungar essas diferenças tratando a reeducação como ponto de partida para uma sociedade justa, sem opressores e oprimidos, sem superiores e inferiores, mas todos por uma reeducação teórica, científica, mas também mais humanizada. Sem a violência simbólica do cotidiano.

Religião – Sou católica. Hoje trabalho com o diálogo inter-religioso e aprendi a preservar muito mais a minha identidade. Respeito e participo de celebrações inter-religiosas com afros, anglicanos, espíritas, luteranos, e tenho consideração por todas as religiões porque elas têm uma ética e respeito com as diferenças e também com o evangelho, as divindades e outras formas espirituais. Meu santo protetor é São Sebastião, um jovem romano que lutou pelos cristãos empobrecidos em Milão. O imperador romano Diocleciano queria que ele negasse a sua vida de cristão e ele preferiu obedecer a Deus.

Lazer – Gosto de dançar, ir ao cinema e viajar para casa dos meus pais dos amigos.

IHU – Sempre gostei muito do IHU e vejo que, hoje, ele está mais aberto e tem uma amplitude muito grande na universidade. O IHU é um ponto de produção importantíssima e sabe acolher todos os saberes. Com a chegada concreta dos saberes das tradições orais como a africanidade e os saberes indígenas, penso que o IHU vai ser um grande divulgador desses novos saberes menos academizados.

Unisinos – Sou assistente social por opção, e tenho a missão de atuar também na ideia de uma universidade humana, justa e que possa reconhecer e valorizar os diferentes saberes acadêmicos. A Unisinos poderá ser o pólo da reeducação das relações étnico-raciais, onde índios, negros e brancos vão poder mostrar que seres humanos são humanos acima de tudo. A Unisinos tem essa missão de formação e a promoção da pessoa humana, nisso eu sempre acreditei. A Unisinos, por meio de sua missão, pode trilhar um caminho paradigmático sem perder a sua sustentabilidade e empreendedorismo e sem perder o seu equilíbrio de justiça e valorização científica e também a diversidade humana e racial.

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