Edição 317 | 30 Novembro 2009

Novas perspectivas críticas para uma releitura de Os Sertões

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Gilda Carvalho e Patrícia Fachin

“O genial Euclides da Cunha foi parcial em relação a Antônio Conselheiro. Aliás, sejamos mais exatos: Euclides nunca traçou detalhada e coerentemente os perfis das pessoas que viviam em Canudos. As via como objetos integrantes da massa, amorfos, sem rostos. Não as via como sujeitos ou indivíduos com almas, nervos, carnes e ossos. Antônio Conselheiro foi qualificado por ele como “um gnóstico bronco” (...) “Paranóico indiferente” (...) “um caso notável de degenerescência intelectual...desequilibrado, retrógrado, rebelde...”, afirma Cláudio Aguiar

Cem anos após a morte do escritor Euclides da Cunha, Cláudio Aguiar acredita que o fascínio pelo retorno à obra do autor carioca seja a natureza do tema, a qual ele descreve como “a tremenda força trágica que salta das páginas ‘bem comportadas’ de nossa história”. Na entrevista a seguir, concedida, por e-mail, à IHU On-Line, Aguiar comenta o drama dos jagunços de Canudos e a percepção, talvez equivocada, de Euclides da Cunha diante de Antônio Conselheiro. E menciona: “Há um grito, ainda abafado, da gente de Antônio Conselheiro que se projeta no consciente (e também no inconsciente coletivo de vítimas e algozes de todos os tempos, de todos os dias e de todas as noites). Esse grito não está propriamente nas páginas de Euclides, mas no drama daquela gente que, em muitas obras, não encontraram sequer nome”.

Cláudio Aguiar é doutor pela Universidade de Salamanca, Espanha, onde defendeu a tese Organización Social y Jurídica de los Inmigrantes Españoles en Brasil. Foi professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, atuando em convênio com a Universidade de Sherbrooke-Irecus, Canadá, entre 1990 e 1994. Também foi repórter de diversos jornais e colaborador literário do Jornal do Commercio e do Diário de Pernambuco. Pertence a várias entidades culturais e literárias, como a Academia Pernambucana de Letras, Academia Carioca de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Atualmente ele é o Secretário Executivo do Pen Clube do Brasil. De sua vasta produção bibliográfica, destacam-se: Medidas & Circunstâncias – Cervantes, Padre Vieira, Unamuno, Euclides e Outros (São Paulo: Ateliê Editorial, 2008); Franklin Távora e o seu Tempo (Biografia) (Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras. Coleção Afrânio Peixoto, vol. 72, 2ª. edição, 2005); Suplício de Frei Caneca (Oratório Dramático) (Rio de Janeiro: Editora Caliban, 3ª ed. 2002); Caldeirão (Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1ª. ed. 1982). Tem, ainda, livros traduzidos e publicados em espanhol, francês e russo.

Confira a entrevista feita em parceria com a PUC-Rio.

IHU On-Line - Por que reler Os Sertões?

Cláudio Aguiar - A releitura de qualquer obra deveria, em princípio, justificar-se pelo prazer, pela felicidade do reencontro com algo agradável, porque a leitura, insistiu Jorge Luis Borges,  está ligada à alegria. Vai mais além. Diz o poeta argentino que a literatura é uma forma de alegria. Montaigne, por sua vez, afirmou que a leitura não deve exigir esforço. Se exigir, o autor fracassou. Creio que muitos leitores releem Os Sertões, de Euclides da Cunha, devido à dificuldade da primeira leitura. No entanto, curiosamente, é um clássico de nossas letras. Talvez o que fascine esse retorno a Euclides seja a natureza do tema, e não propriamente a forma estilística. A tremenda força trágica que salta das páginas “bem comportadas” de nossa história. Há um grito, ainda abafado, da gente de Antônio Conselheiro que se projeta no consciente (e também no inconsciente coletivo de vítimas e algozes de todos os tempos, de todos os dias e de todas as noites). Esse grito não está propriamente nas páginas de Euclides, mas no drama daquela gente que, em muitas obras, não encontraram sequer nome. Todos, crianças, jovens, adultos, velhos, sadios e mendigos, cegos e surdos, ali, eram apenas jagunços, palavra que leva em si algo pejorativo e um ranço de crueldade.              

IHU On-Line - Canudos pode ser explicado apenas pelo viés do messianismo?

Cláudio Aguiar - A visão tradicional de Antônio Conselheiro  como figura exclusivamente messiânica, a meu ver, é uma deformação. A condição messiânica existiu, mas não foi exclusiva.  Esse líder religioso que profetizou, durante certo tempo, como se encarnasse a figura do próprio Messias, e agrupou, ao seu redor, pessoas de diversas condições sociais, ocorreu com Antônio Conselheiro. Na maioria das vezes, assumiu a forma carismática, estabelecendo singular código de comportamento. Aceito como tal, passou a anunciar o fim dos tempos, prometendo a seus seguidores nova ordem de justiça e felicidade. No comportamento de Antônio Conselheiro, podem-se ver apenas as manifestações tipicamente messiânicas dentro de uma concepção tradicional. No entanto, ele não foi apenas um beato, um conselheiro, um messias. O seu papel junto aos canudenses teve um alcance bem maior. Foi um líder. Condutor de massa. General. Comandante. Guerreiro. Estrategista. Aliás, ressalte-se que há, modernamente, uma nova visão de beatitude e santidade movendo esses líderes a ações práticas. A força messiânica neles não se operou apenas em função da suposta mediação providencial, como se houvesse interferência divina atuando numa determinada coletividade ou comunidade. Uma espécie de facho de luz incidindo sobre o lugar ou a cabeça de Antônio Conselheiro. A santidade, como entendem modernos estudiosos (Weber, Bastide, Queiroz, Brown, Patlagean etc.), – para não entrar nos meandros filosóficos e religiosos que justificam a chamada “teologia da libertação” –, passou a ser também alimentada por forças humanas. O beato ou santo age em benefício de indivíduos e de comunidades numa perspectiva de entrega absoluta. Ações de vontade, determinação, ousadia. Ações que não se operam exclusivamente em virtude da intervenção do reino divino, mas a partir das próprias condições e qualidade pessoais do homem capaz de revelar-se possuidor de um dom de sentir a dor alheia, de sofrer o sofrimento alheio, de padecer a agonia do irmão, do semelhante. Por isso, age, luta e promete um mundo novo de justiça, de liberdade, mas aqui mesmo na Terra. Dom Hélder Câmara  agiu assim nas diversas comunidades eclesiais por onde atuou. Por isso, também foi julgado pelos poderosos do dia, como Antônio Conselheiro o foi em seu tempo. Não estou comparando o bispo com o beato. Falo de ações assemelhadas em tempos e lugares diferentes. Derivam de espírito de liderança. De vocação inequívoca. Este é o mistério que carrega em si o santo, o beato, o conselheiro. Ele é, em verdade, o mediador. Age na comunidade movido por esse sentimento, mas sempre no interesse dos outros.

IHU On-Line - Questão da terra: Quais os limites entre o sagrado e o social?

Cláudio Aguiar - Ao lado dessas promessas messiânicas aliadas ao imponderável, não se pode deixar de observar a presença de situações e circunstâncias sociais, econômicas e políticas. Esses elementos, quase sempre palpáveis e vinculados à sobrevivência material do homem enquanto ser concreto de carne e osso surgiram também em Canudos de maneira ostensiva. Acrescentamos mais: não só em Canudos. Em todas as experiências com características de liderança messiânica – Contestado, Caldeirão, Ligas Camponesas etc. –, podemos identificar, em seus líderes, a presença desses pontos desencadeadores de tentativas de conciliação e solução para os conflitos sociais, econômicos e políticos gerados pelas condições de indigência a que se acham submetidas aqueles agrupamentos humanos. A nosso ver, o ponto de conflito que concorreu para o desencadeamento dos acontecimentos sangrentos de Canudos foi a falta de solução, de diálogo, para a questão da posse da terra. Não é preciso ir muito longe para identificar aqueles elementos catalisadores nos anseios mais íntimos daquela gente. Bastará recorrer a um dístico da gesta dos cantadores da época: “As águas do rio em leite / e as barreiras em pão”. Nesses versos populares e anônimos, notamos o peso do drama da gente de Canudos em obter o indispensável à sobrevivência material, porque a espiritual já estava sendo velada diuturnamente pelas orações e os votos do Conselheiro. Os limites, portanto, eram palpáveis, embora a forma de vida dos canudenses corresse aparentemente sem alardes. O trabalho e a oração, quase numa imitação da secular divisa dos beneditinos.    

IHU On-Line - Questão política: Canudos e a República. Quais os interesses em jogo?

Cláudio Aguiar – Simplesmente, os grandes proprietários da região temiam abrir mão de seus poderes de chefes locais em detrimento da centralização do Rio de Janeiro. Isto prova que o poder político não estava concentrado, ainda, no Rio de Janeiro, mas nas mãos de inúmeros proprietários rurais e seus aliados de todos os rincões brasileiros. Nesse contexto, inserem-se os acontecimentos de Canudos. Canudos nasceu, desenvolveu-se e foi dizimado dentro desse período traumático da vida política brasileira. Vale não esquecer que Canudos só foi notado como algo perigoso, algo capaz de ameaçar os poderes locais dos senhores proprietários rurais quando Antônio Conselheiro e sua gente decidiram ocupar a ampla faixa de terra inserida na região de um senhor todo-poderoso. Antes, por mais de 30 anos, a mesma gente, em menor número, é verdade, sob a liderança do Conselheiro, andou por vários caminhos e veredas do Nordeste (Ceará, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia), ora rezando em procissões sem fim, ora fazendo trabalhos de natureza meramente caritativa (consertando igrejas, capelas, cemitérios) nos vilarejos e arruados, mas sem se fixar em parte alguma, sem plantar ou ocupar terras de ninguém. Então, eram meros penitentes, quase nômades, homens “fanatizados” pelo carisma de outro tipo, que a boa imprensa da época classificava de taumaturgo, conselheiro. Era até folclórico. Ah, os penitentes do Conselheiro! Diziam. Quando as terras de Canudos foram ocupadas pela gente de Antônio Conselheiro, em larga escala, com ânimo de ali permanecer de forma definitiva, então, passaram a ser fanáticos, perigosos criminosos, facínoras, ex-escravos ressentidos com seus antigos senhores, monarquistas, monstros, devassos e pilhadores de propriedades e sítios vizinhos. Aliás, diga-se de passagem, ser monarquista, naquele tempo, como acontece hoje, não era crime, mas uma dádiva da democracia. O grande interesse em jogo era a propriedade privada como algo intocável. Quebrada essa regra, todos os males do mundo caíram sobre seus ombros, inclusive a destruição sob a forma de genocídio. 

IHU On-Line - Como Euclides da Cunha viu Antônio Conselheiro e os canudenses?

Cláudio Aguiar - O genial Euclides da Cunha foi parcial em relação a Antônio Conselheiro. Aliás, sejamos mais exatos: Euclides nunca traçou detalhada e coerentemente os perfis das pessoas que viviam em Canudos. As via como objetos integrantes da massa, amorfos, sem rostos. Não as via como sujeitos ou indivíduos com almas, nervos, carnes e ossos. Antônio Conselheiro foi qualificado por ele como “um gnóstico bronco” (...) “Paranóico indiferente” (...) “um caso notável de degenerescência intelectual...desequilibrado, retrógrado, rebelde...” Como se vê, não aponta nenhuma qualidade positiva. E o Conselheiro, não sejamos ingênuos, as possuía. Já em relação ao Coronel Moreira César, um dos principais chefes das forças militares em Canudos, dono de um caráter reconhecidamente truculento, antidemocrata, adepto do golpismo florianista, recebeu de Euclides um perfil bastante condescendente, pois conseguiu ver, entre seus defeitos, muitas qualidades. Escreveu: “Naquela individualidade singular entrechocavam-se, antinômicas, tendências monstruosas e qualidades superiores, umas e outras no máximo grau de intensidade. Era tenaz, paciente, dedicado, leal, impávido, cruel, vingativo, ambicioso. Uma proteiforme constrangida em organização fragílima”. A comparação dos perfis feitos por Euclides dos demais chefes militares subalternos com os jagunços revela, também, uma gritante disparidade de justiça histórica. A impressão que se tem é que, de um lado, estava o Bem e, do outro, o Mal, isto é, as forças governamentais como o Bem, e o Conselheiro e seus seguidores como o Mal. Não esquecemos que Euclides comparou Canudos à Vendeia, a famosa revolta francesa, afirmando que o chouan, ou seja, o insurreto francês, foi herói valoroso, mas os habitantes de Canudos, coitados, apenas jagunços, fanáticos, místicos etc. Já Canudos não passava de uma charneca...

IHU On-Line - Quem foi Antônio Conselheiro?

Cláudio Aguiar - Se Euclides tivesse pesquisado melhor a vida de Antônio Conselheiro, facilmente teria descoberto documentos e obras, inclusive já publicados antes de Os Sertões, que traziam os verdadeiros traços biográficos do Conselheiro. Com certeza, ele teria corrigido os equívocos da obra, não só em relação aos acontecimentos, mas, sobretudo, ao perfil do Conselheiro. Euclides o pintou de maneira deformada, senão, até insultuosa. Antônio Conselheiro, o cearense Antônio Vicente Mendes Maciel (nascido na antiga Vila do Campo Maior, depois chamada de Quixeramobim, Ceará, a 13 de março de 1830 e morto em Canudos, a 22 de setembro de 1897), antes de abraçar a vida mística e de reformador social, havia estudado em escola regular e, mais tarde, atuado como escrivão e, depois, como advogado solicitador no Ceará. Por saber latim, traduziu trechos da Bíblia, as Prédicas dedicadas aos Canudenses, além de um Discurso sobre a República. Escrevia corretamente e lia livros clássicos, a exemplo de Utopia, de Thomas More , como lembrou o historiador Edmundo Moniz. Aliás, Euclides da Cunha teve em mãos os originais das Prédicas, de Antônio Conselheiro. Esses originais, depois de pertencerem a alguns colecionadores, um dia, chegaram às mãos de Afrânio Peixoto que, generosamente, resolveu presenteá-los ao autor de Os Sertões. Aconteceu que, Euclides, por se achar, nos últimos meses de vida, acossado por dois grandes problemas – o concurso à cátedra do Ginásio Pedro II, a consequente nomeação e o terrível drama familiar, que culminou com sua morte – não teve tempo de ver e ler os originais de Antônio Conselheiro que recebera do amigo baiano. É possível que, se os tivesse lido, mudaria, no mínimo, sua visão sobre o líder de Canudos. Mesmo assim, após o aparecimento de obras que punham em dúvida o perfil euclidiano de Antônio Conselheiro, outros autores insistiram em repetir a mesma ideia de que o líder canudense não passava de um louco. Ora, logo após a destruição do arraial de Canudos (outubro de 1897), as autoridades encontraram o corpo de Antônio Conselheiro, que morrera três dias antes. Mesmo morto, Conselheiro foi degolado, e sua cabeça levada para exame em Salvador. A ciência queria saber se o líder era, realmente, um caso de “... paranóico indiferente...” (...) um caso notável de degenerescência intelectual... desequilibrado, retrógrado, rebelde...”, como escrevera Euclides. O cientista Nina Rodrigues fez a devida autópsia e diagnosticou que a cabeça de Antônio Conselheiro era de um homem normal. Euclides, ao se referir às degolas, atos de suprema selvageria, escreveu: “... Tudo porque a História não iria até ali”. No entanto, mais cedo do que ele pensou, o cientista, em seu silencioso laudo técnico, gritou alto a verdade que muitos desejavam encobrir: Antônio Conselheiro era, antes de tudo, um homem normal.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição