Edição 314 | 09 Novembro 2009

Ignácio Ellacuría - Um pensador, negociador e cristão

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Ana Formoso

9 de novembro de 1930 - 16 de novembro de 1989

No meio acadêmico, um importante filósofo e teólogo, na sociedade civil, um negociador para pôr fim à guerra, tudo isto por um homem que buscou a justiça junto com seu povo e sua comunidade acadêmica.

Ignacio Ellacuría, um homem que soube contribuir com as ciências, especialmente a filosofia e teologia, e, com lucidez, buscou junto à comunidade dar respostas aos desafios sociais de El Salvador. Não temos pessoas sozinhas, temos um grupo de pessoas que dedicaram tempo, estudo, reflexão, oração e escuta às pessoas mais injustiçadas. Como reitor, buscou conduzir a universidade com pesquisa, reflexão e, sobretudo, colaborar para resolver os problemas sociais.

Não se pode entender Ellacuría sem Xavier Zubiri  e sem Karl Rahner.  A filosofia de Zubiri ajudou a buscar sempre a relação que há entre a inteligência e a fé. A questão em Zubiri não consiste tanto em saber se nosso pensamento encontra algo que possa designar por Deus, mas em qual via concreta se coloca seu acesso e qual é o problema a que corresponde.  As provas clássicas da existência de Deus se moviam em esquemas puramente objetivistas. Por isso, Zubiri sentiu a necessidade de uma nova fundamentação para o tema de Deus. Não é o espaço para um desenvolvimento do pensamento de Zubiri, mas compreender como este autor marcou o pensamento de Ellacuría. Para ele, o problema de Deus já está dado na realidade pessoal do homem. O homem descobre Deus a partir desta realidade e como meio de realização de seu viver. Desenvolve uma nova “via de religação”, da qual vislumbramos as verdadeiras consequências. Zubiri opõe-se a qualquer concepção de Deus como algo alheio ao mundo. Deus se manifesta no mundo, fundamentando a realidade última das coisas, e, ainda que racionalmente, é preciso estabelecer seu caráter transcendente. Trata-se de uma transcendência na realidade – nunca fora dela.

Karl Rahner  (1904-1984) é considerado um dos maiores teólogos católicos do século XX. Seu pensamento se caracteriza pela seriedade do pensar, preocupou-se com definições de abertura ecumênica e diálogo inter-religioso. Os escritos de Ellacuría, de Sobrino e de Rahner refletem uma pergunta que tem que continuar sendo feita: O que é ser cristão/a e como se pode realizar esse estilo de vida com honestidade intelectual?

Zubiri, uma transcendência na realidade, Rahner escreveu um artigo memorável que “a realidade quer tomar a palavra”. Na expressão de Sobrino, se me permitem um jogo de palavras, se “a palavra se fez realidade (carne, sarx), a realidade quer fazer-se palavra” (Sobrino, p.76, 2007). Ellacuría insistiu que há sempre um sinal dos tempos que é principal: o povo crucificado. Este conceito tem um vigor conceitual hoje perdido na descrição da realidade, e, muitas vezes, banalizado. “Crucificado”, na realidade, tem a conotação de: a) conceitualmente morte, não simples dano, limitação ou carência; b) “provocar a morte” – não morte natural; c) uma “morte infame e injusta”; d) afinidade com Jesus e seu destino, importante a partir da perspectiva da fé, como o que se eleva à realidade última- teológica – a realidade de grande parte da humanidade .

A realidade dos povos crucificados nos interpela? A natureza que está sendo crucificada nos interpela? Assim podemos seguir fazendo-nos perguntas. O pensamento de Ellacuría nos interpela a olhar a realidade com honestidade intelectual e social.

Termino com as palavras de Ignacio Ellacuría que usou com precisão conceitual ao falar do que deve ser e fazer uma universidade:

“A universidade deve encarnar-se entre os pobres intelectualmente para ser ciência dos que não têm voz, o respaldo intelectual dos que, na sua própria realidade, têm a verdade e a razão, embora, às vezes, seja à maneira de despojo, mas que não contam com as razões acadêmicas que justifiquem e legitimem sua verdade e sua razão”.

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