Edição 313 | 03 Novembro 2009

Olha o passarinho! Microblogging como o Twitter configura-se como um novo canal de poder e comunicação

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Jacqueline Lima Dourado

Coluna do grupo de pesquisa CEPOS

Este texto discute o papel dos novos canais de comunicação como o Twitter no processo de digitalização midiática que implica em um processo complexo de convergência tanto de manutenção do status quo como também do rompimento de mercados aparentemente estáveis, apresentando um novo paradigma técnico que, embora indique uma maior participação popular em um processo de democratização da mídia, na verdade, promove o aumento da concentração multimídia.

Novos verbos como “tuitar”, “foloiar” foram inseridos no dia-a-dia dos internautas que aderiram ao processo de digitalização da comunicação e da convergência tecnológica nos novos padrões de produção característicos da Internet. No presente momento, a mais nova rede social e servidor para microblogging é o Twitter, fundado desde o início de 2006 pela Obvious Corp. em São Francisco.
Por meio do twitter, o usuário da Internet pode enviar e receber textos de até 140 caracteres via SMS, mensageiro instantâneo, e-mail, site oficial ou programa especializado, ao mesmo tempo em que as atualizações são mostradas no perfil do usuário em tempo real e também enviadas a outros usuários que tenham assinado para recebê-las. Os usuários podem receber atualizações de um perfil através do site oficial ou por RSS, SMS ou programa especializado.

Apesar de funcionar desde 2006, a grande febre se deu neste ano de 2009 com “tuiteiros” famosos como Ashton Kutcher (ator), Obama (presidente dos E.U.A), Mano Menezes (técnico de futebol), Fantástico (programa de televisão), Luciano Huck (apresentador-Globo), Capricho (revista) entre milhões de outros.

Em maio deste ano, foi divulgada a pesquisa da Bullet com 3.268 brasileiros, usuários da rede de microblogging Twitter com o escopo de mapear o perfil dos internautas, seu comportamento e a maneira como se relacionam na ferramenta. A pesquisa definiu o padrão do usuário no Brasil: a maioria são homens, jovens-adultos de 21 a 30 anos, solteiros, do Estado de São Paulo e Rio de Janeiro. Pessoas qualificadas, estudantes do ensino superior e pessoas já graduadas na universidade. São heavy users de Internet e costumam passar quase 50 horas semanais conectados. Conhecem e utilizam as principais ferramentas 2.0. A maioria utiliza o Orkut, Youtube, blog, Facebook.

Outros dados relevantes: a grande maioria conheceu o twitter pelos amigos (44,13%), destaque para quem utilizou a plataforma logo após criar o perfil (47,28%), 79,87% usa o Twitter para o compartilhamento de informação.  Porém, o que interessa ao mercado é saber que 80% já seguiu dicas e indicações dadas por alguém no Twitter e somente 10% não gosta de publicidade na plataforma.

Festejado por muitos, há também aqueles que, apesar de usar a Internet, fazem críticas ao Twitter. O Globo on line publicou, em julho último, que o escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura (1998), apesar de ter um blog (caderno. josesaramago.org), e considerar a Internet uma fonte de informação rápida e eficaz, considera que o Twitter foi categórico uma “tendência ao monossílabo”: “... de degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”.

O aparentemente ingênuo passarinho, na verdade, configura-se como um excelente mercado interativo midiático. Não é à toa que os conglomerados hegemônicos midiáticos já aderiram também à plataforma, tais como a Globo, CNN, jornais como o Le Monde, Leparisien.  

O Twitter tem sido utilizado por grandes conglomerados comerciais para a exposição, divulgação e venda de produtos de suas marcas. É neste ambiente virtual que um seguidor vai se agregando a outro e assim, ad infinitum, outros seguidores vão sendo adicionados e atualizados pelo envio de mensagens desta ferramenta ainda não totalmente explorada.

Sob o ângulo da Economia Política da Comunicação, observa-se que os atuais cenários político, econômico, social e cultural, determinados pela ordem capitalista contemporânea, nos quais os agentes do mercado se deparam com novos concorrentes nesta Fase da Multiplicidade da Oferta, cada vez mais essa conexão é garantida pelo jornal, site, portal, blog, microblogging, rádio, web-TV na plataforma Internet.

Antes de se pensar em processos de democratização desses meios, o que se percebe é um processo contínuo de consolidação do capitalismo monopolista na sociedade onde os bens simbólicos passaram a ser analisados enquanto mercadoria e adotaram o papel de promotores do desenvolvimento econômico.

Essa prática neoliberal, que se tornou um elemento comum dos novos tempos, colaborou para o tratamento da cultura em termos mercantis, precipitando ainda mais os processos de concentração e formatação dos oligopólios de comunicação. Estes passaram a contar com novos instrumentos, proporcionados pela inovação tecnológica e colaboradores na busca pela maximização dos lucros.

Mesmo que alguns queiram, a Internet ainda não é um espaço público plural pelo qual os cidadãos possam participar do debate sobre as questões sociais relacionadas à mídia. Urge que sejam criadas políticas públicas que garantam a inclusão digital, a pluralidade da informação e a diversidade cultural.

Contudo, é salutar a discussão sob o ponto de vista da EPC com o intuito de encontrar caminhos e apontar alternativas para a democratização da informação, da comunicação e da cultura no século XXI.

* Jacqueline Lima Dourado é doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, e professora da Universidade Federal do Piauí – UFPI.

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