Edição 313 | 03 Novembro 2009

Missões jesuíticas em terras não cristãs

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart

Especialista nas missões realizadas pela Companhia de Jesus no mundo, Ana Luisa Janeira considera que o desafio mais importante para os jesuítas hoje é manter a preocupação pela educação de qualidade

“Os jesuítas desenvolveram um típico relacionamento baseado na música e na expressão plástica, especialmente a escultura, o que é visível ainda hoje no espólio das reduções jesuíticas, quer na Argentina, no Paraguai, no Uruguai ou aqui no Brasil”. Quem já teve a oportunidade de visitar alguma região das missões sabe do que a professora Ana Luisa Janeira está falando. Janeira pesquisa as missões jesuíticas há muitos anos e conhece muito bem as características da Companhia de Jesus pelo mundo. Para ela, na entrevista que nos concedeu pessoalmente, na Unisinos, “os jesuítas, independente de nós concordarmos ou não, sempre têm estendido uma educação de qualidade. E é importante que isso continue. E é igualmente importante que eles sejam capazes de perceber os sinais dos tempos do ponto de vista da produção científica, artística e cultural. E devem saber manter, dentro da tradição que lhes é própria, uma capacidade de reflexão e crítica que não vá no sentido do consumismo e do capitalismo, mas atinja o âmago das questões essenciais”. Janeira também fala, nesta entrevista, sobre Simone Weil, a quem considera um caso muito especial do pensamento místico no século XX. “Ela é uma figura ímpar, com uma força muito grande na denúncia de certos conformismos políticos, religiosos, acadêmicos. E, por conseguinte, ela pode ser inspiradora”.

Ana Luisa Janeira é professora na Universidade de Lisboa, Portugal, doutora em Filosofia Contemporânea pela Université de Paris I, e autora de A Energética no Pensamento de Teilhard de Chardin (Livraria Cruz-Faculdade de Filosofia, 1978). Janeira esteve na Unisinos no último mês de setembro, participando do IX Simpósio internacional IHU: Ecos de Darwin, onde proferiu a conferência intitulada “A energética teilhardiana: missão evolutiva em terras cristãs”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a sua relação com a pesquisa sobre as missões?

Ana Luisa Janeira – O importante na questão da missão é entender como, a partir de um determinado pensamento, na Europa, e a partir de Santo Inácio de Loyola, se dá a proclamação universal em terras onde dominavam outras culturas, outras tradições. Meu interesse é ver como a Companhia de Jesus definiu uma estratégia de difusão das suas ideias que, simultaneamente, serviu – ou não – à identidade dos povos que foram sujeitos dessa missão. Então, nesse sentido, me parece importante fazer esse estudo. Mas, de fato, na origem, eu vim para as missões e misiones, na parte espanhola, fundamentalmente para tentar perceber se haveria alguma transposição do modelo arquitetônico que os jesuítas geralmente seguem na construção dos seus noviciados e colégios e algumas casas da Europa, na projeção de um modelo urbano para as missões. Constatei que a própria memória dos habitantes atuais das zonas de missão onde pesquisei mostra que eles são conscientes de que os jesuítas atuaram dentro de certas áreas científicas e artísticas em função das características dos povos que encontraram, o que revela, por um lado, uma estratégia bem definida emanada de Roma e, simultaneamente, uma capacidade de adaptação aos povos locais.     

IHU On-Line - Como o conceito de missão está ligado à configuração da Companhia de Jesus?

Ana Luisa Janeira – A Companhia de Jesus surge num momento especial da Europa que se chama genericamente de “a contrarreforma”, ou seja, o processo que se dá depois dos desenvolvimentos da reforma luterana, calvinista e da parte anglicana, do questionamento de um “aburguesamento” da Igreja e dum desvirtuar do pensamento cristão. E, como consequência, houve uma movimentação que se chamou a contrarreforma. E essa contrarreforma, de certa maneira, foi muito servida por um desenvolvimento da Companhia de Jesus, que rapidamente aliciou muita gente. Houve um desenvolvimento exponencial, inacreditável, da Companhia. As constituições de Santo Inácio e os exercícios espirituais definiram uma disciplina e uma estrutura de tipo militar. E essa estrutura naturalmente evidencia que todo militar tem sempre a ideia de conquista, de “ganhar terreno”. Isso acaba por ser, depois, já numa perspectiva espiritual, muito dividido pela ideia de que é necessário propagar a boa nova junto dos povos que também acabavam por ser descobertos e conquistados pelos europeus.

IHU On-Line - O que caracteriza, de forma geral, as missões jesuíticas?

Ana Luisa Janeira - As missões jesuíticas são, em primeiro lugar, comunidades. E é preciso lembrar a desproporção imensa que há entre dois ou três jesuítas e uma comunidade indígena, que pode ter até três mil pessoas. Por conseguinte, essa desproporção gerou a necessidade dos padres jesuítas centralizarem o poder junto dos caciques, no caso aqui da América do Sul. E aconteceu que, no fundo, eram os caciques que intervinham junto às populações. Essa intervenção, por um lado, revelava uma capacidade de adaptação dos jesuítas, que delegavam poder a figuras da comunidade, mas, simultaneamente, também era uma forma de eles conseguirem se dividir dada a desproporção do número entre eles e a comunidade. A atuação se deu fundamentalmente no sentido de tornar povos nômades em sedentários, o que é muito complicado. Além disso, eles desenvolveram a capacidade artística e musical dos povos indígenas. Os jesuítas desenvolveram um típico relacionamento baseado na música e na expressão plástica, especialmente a escultura, o que é visível ainda hoje no espólio das reduções jesuíticas, quer na Argentina, no Paraguai, no Uruguai ou aqui no Brasil.

IHU On-Line - Quais os maiores desafios para os jesuítas na sociedade atual?

Ana Luisa Janeira – O desafio que é mais importante que eles assumam é manter uma preocupação pela educação de qualidade. Os jesuítas, independente de nós concordarmos ou não, sempre têm estendido uma educação de qualidade. E é importante que isso continue. E é igualmente importante que eles sejam capazes de perceber os sinais dos tempos do ponto de vista da produção científica, artística e cultural. E devem saber manter, dentro da tradição que lhes é própria, uma capacidade de reflexão e crítica que não vá no sentido do consumismo e do capitalismo, mas atinja o âmago das questões essenciais.

IHU On-Line – Mudando um pouco de assunto. A senhora também estudou Simone Weil. Em que sentido ela pode ser inspiração para mulheres e homens contemporâneos?

Ana Luisa Janeira – Simone Weil é um caso muito especial do pensamento místico no século XX. Ela é uma figura ímpar, com uma força muito grande na denúncia de certos conformismos políticos, religiosos, acadêmicos. E, por conseguinte, ela pode ser inspiradora. Não acho que seja uma questão de debate homem X mulher. Mas ela propunha uma perspectiva para um mundo diferente.  

IHU On-Line - O que caracteriza o vazio no pensamento de Weil?

Ana Luisa Janeira – Essa ideia é muito complexa. Simone Weil diz que o vazio exterior corresponde a uma tensão interior. É provavelmente algo que tem uma inspiração no pensamento oriental. É preciso lembrar que seu irmão, Andre Weil, tinha uma forte ligação com o pensamento de mulheres orientais. Simone tem e viveu até as entranhas essa capacidade de descentrar dela mesma. Ela foi uma aluna brilhante de um curso em que tinha como colegas Sartre  e Simone de Beauvoir,  e conseguiu ter as melhores classificações. No entanto, vai trabalhar como professora em zonas onde há muitas minas, e onde ela tem muita preocupação com os mineiros. Depois, desenvolve uma preocupação imensa com as questões laborais, quando vai trabalhar nas fábricas, ou quando vai para a guerra da Espanha. Ela é uma figura incontornável da cultura francesa, europeia e mundial do século XX. E morreu com apenas 34 anos. 

Leia mais...

>> Ana Luisa Janeira já concedeu outra entrevista à IHU On-Line:

* Perfil – Ana Luisa Janeira. Publicada na IHU On-Line número 311, de 19-10-2009.

 

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição