Edição 313 | 03 Novembro 2009

A busca da verdade pautada pela mística

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Gilda Carvalho e Patrícia Fachin | Tradução Benno Dischinger

Na opinião de Giulia Paola di Nicola e Attilio Danese, o pensamento de Simone Weil foi constituído de traços existentes entre filosofia, teologia e a fenomenologia do vivido

“Simone chegou à mística pela via da busca da verdade. Não desenvolveu seu pensamento após o encontro com Deus”, dizem Giulia Paola di Nicola e Attilio Danese, diretores da revista Perspectiva Persona, da Itália. Cem anos após o nascimento de Simone Weil e pouco mais de 60 anos de sua morte, a obra da filósofa francesa é revisitada e, segundo os entrevistados, “os estudos dedicados aos cátaros, ao hinduísmo, à gnose, às religiões pré-cristãs estão a demonstrar a importância do pensamento de Simone Weil para um diálogo entre as religiões baseado, acima de tudo, sobre as intuições dos respectivos místicos”.

Na entrevista que segue, concedida, por e-mail, à IHU On-Line, eles destacam a questão da estética na filosofia de Simone Weil e afirmam que a filósofa “antecipou os tempos, atribuindo ao ‘belo’ um caráter sacramental como via e mediação do céu”. Sobre essa perspectiva, Giulia Paola di Nicola e Attilio Danese assinalam que a “teologia contemporânea reclama uma estética filosófica para poder continuar a falar de Deus numa fase pós-metafísica. As condições do ato de fé são mais importantes do que os conteúdos da fé”. Eles comentam ainda a relação de Simone Weil com o ritual do batismo e narram alguns motivos que provavelmente a fizeram esperar por este sacramento até o momento de sua morte.

Giulia Paola Di Nicola ensina Sociologia em várias universidades italianas e é professora visitante em universidades do Canadá, Bélgica, Alemanha e Brasil. É vice-presidente da Parity Commission of the Abruzzo Region. Com Maria Clara Bingemer, é autora de Simone Weil: Ação e Contemplação. Attilio Danese é professor de filosofia em universidades italianas e, em parceria com Giulia Paola Di Nicola, publicou Abissi e Vette. Il percorso spirituale e mistico di Simone Weil (LEV: Città del Vaticano, 2002) traduzido para o português com o título Abismos e ápices (São Paulo: Edições Loyola, 2003).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Apesar de ter sido profundamente tocada pelo Cristianismo e seus pressupostos, sabe-se que Simone Weil tinha sérias resistências em receber o sacramento do Batismo. Quais eram essas resistências?

Giulia Paola di Nicola e Attilio Danese - Como sublinhamos nos nossos trabalhos sobre Simone Weil , até o fim da vida, ela opôs resistência aos católicos que a convidavam a receber o Batismo. As resistências de Simone podem ser reconduzidas a diversas razões. Podemos sublinhar algumas: 

- Sentia-se indigna por seu estado de imperfeição. Padre Perrin, que não duvida da veracidade das experiências de fé e místicas de Simone, pensa que ela teria recusado o batismo por excesso de escrúpulos. Simone corrige esta sua impressão: “Já lhe disse outro dia que me creio indigna dos sacramentos. Não é um pensamento que provém de um excesso de escrúpulos, como você acreditou. Baseia-se, ao invés, de uma parte, sobre a consciência de culpas bem precisa na ordem e na ação com os seres humanos e, de outra parte, e em maior medida, se baseia num difuso sentimento de insuficiência”. Ela, de fato, reconhecia em si “o germe de todo crime”. 

- Não teve tempo de completar seu itinerário, truncado aos 34 anos de vida, deixando uma marca de pensamentos expressos de modo provisório, passíveis de desenvolvimentos cuja maturação devia ter seus ritmos, sem acelerações. P. Perrin escreve: “Expressou suas ideias numa forma provisória, não destinada à publicação. Ela tem algumas anotações, tanto aquelas consignadas a mim como a longa carta destinada ao padre Couturier. Foram publicadas, comentadas e até idolatradas por alguns, porém se trata sempre de anotações”. 

- Não teria mudado suas ideias se não tivesse ficado profundamente convencida. Para Simone, não é preciso sequer fazer uma “boa ação”, se não se é impelido diretamente por um impulso interior que tem a ver com o bem: “Mas nós não devemos fazer nada mais do que aquilo a que somos irresistivelmente impelidos, nem mesmo em vista do bem”. Trata-se da teoria da “ação não agente”, que vale principalmente no campo do Espírito e assinala a transformação do indivíduo autocentrado num ser pelo qual passa o Bem no mundo. A ação não agente supõe a “descriação” através da qual o homem habitado pelo Espírito Santo renuncia ao seu eu e se torna canal do amor divino.

- Acreditava sinceramente que o próprio Deus lhe solicitava que permanecesse fora da Igreja. Simone acredita que, já que não percebe este impulso irresistível, provavelmente o próprio Deus a queira longe da Igreja por alguma misteriosa razão que corresponde para ela a uma vocação. Simone esperou até o fim um sinal da precisa vontade de Deus: “Se a vontade de Deus é que eu entre na Igreja, Ele me imporá esta vontade no mesmo momento em que merecerei o que ele me impõe. No segundo caso, se sua vontade é que eu não entre nela, como poderei entrar?”

- Desejava estar do lado dos “distantes”, “confundir-se” com a massa dos muitos que pertencem a todas as raças e culturas, que não tiveram a sorte de encontrar o Cristo no passado e no presente. Era demasiado importante para ela permanecer próxima dos não crentes, dos hereges, dos crentes de outras religiões; sentia que seu lugar era entre eles e que, para ser honesta e fiel com sua vocação, não poderia abandoná-los ao seu destino. Padre Perrin a compara a um sino que está no exterior do edifício e soa convidando a entrar na igreja. Para Simone, é importante uma posição externa que permita um ponto de vista desencantado e de certo modo capaz de retocar o olhar de quem está dentro: “O retoque filosófico da religião católica jamais foi feito. Para fazê-lo, seria preciso estar dentro e fora”. Segundo esta linha também outros intérpretes leram o “estar no limiar” como uma vocação de chamar quantos permanecem fora da Igreja.

- Recusava conceber uma autoridade eclesial com o poder de definir a verdade, avocando a poucos a tarefa de exercitar a inteligência. A partir do momento em que Simone atribuía grande importância à liberdade da inteligência, que devia ser absoluta no seu campo e rigorosamente individual no seu método, talvez não pudesse aceitar que Deus escolhesse homens “privilegiados” como tarefa de pensar por todos, formulando a verdade de modo dogmático. Da mesma forma, não podia suportar que Deus tivesse um povo “eleito”. Considerava, de fato, que a própria noção de eleição fosse incompatível com o Deus de todos (“trata-se de idolatria social, a pior”). Todavia, não obstante as expressões irrompentes contra o abuso de poder da Igreja, não se pode dizer que faltem, entre os apontamentos, pensamentos de aceitação de uma função indicativa da mesma, embora não impositiva. Tendia, além disso, a sublinhar a importância da adesão de amor, e não da ortodoxia dos conteúdos.

- Atribuía grande valor ao pudor e à distância. Simone embalava uma concepção do esponsalício nutrido de respeito e de abstenção voluntária da consumação do amplexo. Esta distância valia tanto nas relações de amizade como no amor. Preferia esperar, sabendo sem dúvida nenhuma que o próprio destino era o de ser esposa, mas reservando a união ao momento em que sua alma estivesse pronta para Cristo, livremente e por própria iniciativa, e lhe faria então o dom de si. A Eucaristia, o batismo, os sacramentos lhe apareciam como o sigilo de um amor realizado, enquanto ela queria continuar olhando de longe, não queimar a santidade do desejo, não salvar a alma pensando ter atingido a meta, não entrar na rotina do amor “tumba do matrimônio”, não correr aos sacramentos para se enriquecer aos olhos de Deus. O desejo de união lhe parece mais forte, mais intacto se não realizado, se capaz de se abster, de olhar amorosamente e esperar, sem nenhuma pressa.

- Temia reduzir a intensidade do contato com Deus, reduzindo-o a ritos costumeiros. Simone recomenda “sermos felizes de saber que Ele está infinitamente fora do nosso alcance”. Se, ao contrário, “cremos ter um pai aqui em baixo, então não é Ele, mas um falso Deus”. O temor do social, do qual vê encharcada a experiência da Igreja, vale também para os sacramentos que, além do contato com Deus, têm um valor humano enquanto símbolos e cerimônias, e nisto lhe parece que não diferem dos cantos, gestos e palavras de ordem de certos partidos políticos.

- Não queria confundir amizade e verdade. Ao P. Perrin e a Bousquet, Simone confessa que atribui à amizade uma importância ilimitada: “a amizade é para mim um bem incomparável, sem medida comum, uma fonte de vida, não em sentido metafórico, mas literal. Porque não só o meu corpo, mas minha própria alma, inteiramente envenenada pelo sofrimento, ambos resultam inabitáveis para meu pensamento e é necessário que este se desloque para outro lugar. Pode habitar em Deus somente por breves espaços de tempo. Habita mais frequentemente nas coisas. Mas, seria contra a natureza que um pensamento humano não habitasse em algo humano. Por isso, literalmente, a amizade dá ao meu pensamento toda a parte de vida que não lhe deriva de Deus ou da bondade do mundo. Ele pode, então, entender que benefício me fez concedendo-me sua amizade”. No entanto, precisamente pelo valor que atribui à amizade, Simone sabe que seria errada uma escolha feita para imitar ou dar prazer ao amigo, se ela antes não fosse suscitada pelo próprio Cristo: Amicus Plato sed magis amica veritas [Platão é amigo, mas a verdade é mais amiga].

IHU On-Line - E, por fim, ela foi ou não foi batizada?

Giulia Paola di Nicola e Attilio Danese - Sim, foi batizada, embora permanecesse fiel às suas convicções. À notícia do ocorrido batismo reações de mal-estar foram manifestadas da parte de quem a catalogara entre os socialistas anárquicos, agnósticos e anticlericais e se apressara a assumi-la como modelo de uma voluntária posição antieclesial. Hoje se considera confiável o testemunho transmitido por G. Hourdin: “Nós estamos convencidos, enquanto é possível, que Simone Weil foi batizada em Londres quando ainda estava no hospital. Foi batizada de maneira reservada, por uma pessoa de seu círculo, Simone Deitz, que era então sua melhor amiga, e que o reconhece, que o afirma, que é, para dizer a verdade, a única testemunha do fato, mas que não quer que se publique o seu nome...”. Simone Deitz manteve, de fato, secreto o fato por quase meio século, embora já J. Cabaud e Simone Pétrément tivessem tido notícia disso, sem nomear a autora do batismo, que queria permanecer desconhecida.

Hourdin sempre atestou que Simone solicitou o batismo explicitamente, que, portanto, não lhe foi subministrado sob pressão de alguma pessoa. No batismo acreditaram A. Devaux (“É incontestável, hoje, que Simone Weil foi batizada”) e padre Perrin, que sustentou ter encontrado “a amiga que desejava permanecer anônima” durante uma viagem, em outubro de 1987. Não temos razões sérias para duvidar da verdade de tais testemunhos e, de resto, padre Perrin sustenta que por mais vezes Simone lhe havia confiado que “receber o batismo no momento da morte podia ser para ela desejável”. Veja-se também o testemunho repassado por Eric Springsted, que encontrou Deitz e escutou sua narrativa, na Convenção de Téramo (Dezembro de 2008), e cujas atas são reproduzidas no livro Pessoa e impessoal em Simone Weil. 

IHU On-Line – Os acontecimentos que cercam o final de sua vida e seu sepultamento também são carregados de discussões sobre sua adesão ou não ao catolicismo. O que se pode dizer efetivamente a esse respeito?

Giulia Paola di Nicola e Attilio Danese - Seria preciso evitar o engaiolamento dos grandes temas da espiritualidade suscitados por Simone dentro da questão do batismo. Hoje se tende a colocar na devida luz a fecundidade do pensamento de Simone ao longo de todo o circuito de sua breve vida, a fim de favorecer um diálogo mais aberto entre crentes e não crentes, entre católicos e seguidores de outras religiões. Embora as fontes que atestam a ocorrência do batismo sejam confiáveis, do ponto de vista da vocação espiritual de Simone, todos os que foram atingidos por seu percurso espiritual a imaginam, em todo o caso, na paz do abraço do Cristo, quer tenha o batismo ocorrido de fato ou tenha sido um batismo de desejo. Ele, de fato, prometeu ir habitar junto a quantos o amam e prenunciou um “exame final” não baseado sobre os sacramentos recebidos ou sobre a simples adesão às verdades, mas sobre os pequenos gestos de caridade com o próximo (“Tive fome e me deste de comer...”), gestos pelos quais a vida de Simone foi tecida. É verdade, no entanto, que, além da perspectiva católica, o batismo é um dado que não pode ser esquecido ou subestimado, precisamente porque foi requerido após um longo período de suspensão e de recusa, e ocorreu de modo “laico”, com água de torneira, subministrado por uma mulher e não registrado nos livros paroquiais.

Por que Simone se convenceu a aceitar o Batismo? O evento conserva certo mistério nupcial. Canciani comenta assim: “O problema do batismo é considerado muito seriamente. Como conciliar a autonomia da inteligência com a iniciativa de Deus? Como é que o Cristo que é verdade, que desceu e a buscou, não venceu esta última resistência? Por que a lançou na câmara nupcial antes que fosse oficialmente a esposa? Mas, o Amor talvez tenha uma obrigação, deve submeter-se ao sinal, a um sinal visível, e o sacramento, o batismo não é um sinal? Talvez convenha calar a esta altura, num fato de fé o silêncio tem a última palavra. P. Perrin, após haver experimentado todos os caminhos, no final reconhece: ‘Se podemos denunciar um perigo, seria muito inoportuno pretender julgar, porque estamos de cheio no segredo de Deus’”.

Pode-se pensar que ela tenha querido aderir a um impulso interior de origem sobrenatural, antes do que dar prazer a quantos o tenham desejado para ela. Certamente não se tratou de uma escolha, segundo suas próprias palavras: “A mais bela vida possível sempre me pareceu ser aquela na qual tudo é determinado, tanto pela constrição das circunstâncias quanto por impulsos semelhantes e nos quais jamais há lugar para alguma escolha”. O evento se realizou não obstante as suas convicções intelectuais, que a certo ponto deixam de ser consideradas como obstáculo insuperável.

Seria redutivo interpretar o batismo em termos de “rendição” ou de marcha ré; não temos razões provadas para crer que as opiniões de Simone Weil tenham mudado durante os últimos meses. Ao contrário, as Cartas a um religioso parecem acentuar as dificuldades já expressas em outros textos. Também a carta aos pais acena para desenvolvimentos de pensamento particularmente fecundos nos últimos tempos. É o caso de sublinhar a continuidade de um percurso que ia madurando com os anos e nos quais o papel primário da probidade, conduta culminante da coerência intelectual juvenil, cede o passo à caridade, sem desaparecer.

Talvez também conviesse fazer referência àquele gênero de “loucura” redescoberta especialmente nos últimos tempos, que permite fazer por amor o que seria impossível por via normal. Agora é somente o amor a caracterizar a verdade, assinalando a passagem daquilo que a inteligência consegue atingir, daquilo que lhe é dado em acréscimo pela Sapiência: “O órgão com o qual nós vemos a verdade é a inteligência; o órgão em nós com o qual vemos Deus é o amor”. Pode valer, a propósito do batismo, o que ela mesa comunica a Schumann: “Esta adesão é amor, não afirmação. Certamente pertenço a Cristo. Pelo menos me agrada crê-lo”. Somente deixando saltar a lógica da verdade para entrar naquela da comunhão, Simone pode solicitar o batismo quando a “fome” supera a necessidade de abster-se, de desconectar o desejo do objeto porque uma evidência interior entrou eliminando a distância.

IHU On-Line - Simone Weil era, sem dúvida, uma pessoa crente em Deus e absolutamente tomada pela experiência de Jesus Cristo que sofre no outro que sofre. Quais as contribuições mútuas dessa mística weiliana para com a Teologia?

Giulia Paola di Nicola e Attilio Danese - Não queremos fazer-nos nem os censores nem os defensores da santidade da pessoa e da obra de Simone. Gostaríamos antes de recolher de seu pensamento alguns breves traços construtivos existentes entre filosofia, teologia e fenomenologia do vivido. De uma parte, eles brotam do aprofundamento relativo à sua obra e, da outra, do significado que assume sua vivência para a sensibilidade contemporânea. De resto, a teologia é sempre ‘biográfica’, no sentido de ser a reflexão de um sujeito que vive num contexto concreto.

• Deus é sempre maior do que aquilo que conseguimos imaginar. Este princípio é fundamental para toda a teologia, mas com Simone se torna seguramente mais evidente.

• O ato de entrega a um Deus pessoal está no cume do conhecimento. Na filosofia da religião de Simone, a teoria do conhecimento conflui no ato de fé porque o ser humano encontra seu cumprimento na dimensão espiritual. A pedra angular do implante weiliano é o ato de fé que se apresenta como livre consenso a um Deus pessoal, ponto de chegada de uma metafísica do conhecimento.

• A linguagem da mística é a mais adequada para falar de Deus. Simone coloca este problema no contexto da cultura contemporânea, seguindo um percurso místico. Não se pode falar de Deus a não ser por analogia. Isto se torna particularmente evidente a propósito do discurso sobre a pessoa, conceito muito diverso se visto a partir do homem ou de Deus. “Só Deus tem o direito de dizer “Eu sou”. O Eu sou de Deus que é verdadeiro difere infinitamente do eu sou ilusório dos homens. Deus não é uma pessoa na maneira pela qual um homem acredita sê-lo. Somente a verdadeira renúncia ao poder de pensar tudo na primeira pessoa, esta renúncia que não é o simples transfer, permite ao homem saber que os outros são seus semelhantes. Esta renúncia a outra coisa não é senão o amor de Deus, quer seu nome esteja ou não presente em seu pensamento”. O fato que todo discurso sobre Deus seja analógico constitui um convite para purificar a fé de toda forma de projeção, de transfer e de ideologia.

• Os sacramentos e o sacramento. Simone enfrenta a questão dos sacramentos segundo um conceito de encarnação que lhe permite afirmar que o contato com Deus, por qualquer caminho que se realize, é o sacramento por excelência. Ela põe em evidência o caráter sacramental de toda a criação e a estrutura simbólica do conhecimento que capta a relação com Deus. A reflexão simbólica é considerada como postulado da teologia.

• Estética. Simone antecipou os tempos, atribuindo ao “belo” um caráter sacramental como via e mediação do céu. Kant,  na Crítica do juízo, havia falado do “simbolismo do belo” como condição da teologia que deixa às costas a metafísica. Com efeito, a teologia contemporânea reclama uma estética filosófica para poder continuar a falar de Deus numa fase pós-metafísica. As condições do ato de fé são mais importantes do que os conteúdos da fé. Falou-se de uma teologia da beleza em Simone, precisamente porque seu pensamento é rico de estética teológica.

• Diálogo inter-religioso. Os estudos dedicados aos cátaros, ao hinduísmo, à gnose, às religiões pré-cristãs estão a demonstrar a importância do pensamento de Simone Weil para um diálogo entre religiões, baseado, acima de tudo, sobre as intuições dos respectivos místicos.

• Antropologia e teoria da Graça. Em teologia há uma tendência à reflexão sistemática que se desenvolve em torno da teoria da graça e da antropologia teológica. Simone Weil deu um significativo impulso à teoria da graça contemporânea.

• Historicidade e a-historicidade. A atenção de Simone às diversas tradições vivas e escritas exalta a historicidade acima da reflexão da teologia sistemática. Ao mesmo tempo, isto comporta certa a-historicidade, ao estabelecer a descontinuidade entre o Antigo e o Novo Testamento. O Antigo Testamento, como profecia da Aliança realizada, é indispensável para historicizar o evento da encarnação. Ao contrário, Simone tende a dissociar o Antigo Testamento do Novo Testamento e, em geral, tudo o que considera bom, ao contrário, condena ao esquecimento. A brevidade de sua vida e a relativa falta de aprofundamentos históricos justificam em parte os limites de certos juízos que não podem ser compartilhados.

• Mística e teologia. No centro da vida das almas há, para Simone, a experiência do contato com Deus. Esta tende a ser contraposta à teologia sistemática, enquanto hoje se reconhece a fecundidade da integração entre a dimensão mística e o discurso teológico, purificando os excessos da razão e o outro as derivas espiritualistas.

• Eclesiologia. O contraste de Simone com a Igreja enquanto “corpo social” adquire hoje uma ressonância particular, tanto do ponto de vista intelectual, referente às relações entre indivíduo e coletividade, quanto do ponto de vista cultural, pela difundida recusa do aparato institucional da fé. Ela privilegia a presença do Cristo no segredo ou “entre dois ou mais”. Talvez isso contribua a tornar mais claro aquilo que dom Urine dizia ao jovem Silone: “E recorda-te disto: ‘Deus não está somente na Igreja’” . Privilegia seguramente a igreja invisível à Igreja ‘aparato’ da verdade tendencialmente dogmática.

• O testemunho do vivido. De fato Simone constitui hoje um modelo de percurso espiritual que passa do agnosticismo à recusa da mentira, à busca da verdade. É um testemunho que interroga a teologia. De fato, esta se nutre de testemunhos que assinalam uma época e que se tornam um precioso objeto de reflexão, do qual a teologia necessita para pôr-se em sintonia com o próprio tempo.

• Santidade encarnada. A vida e a obra de Simone contêm claramente sinais indicadores de santidade, embora em contraste com as afirmações particulares de seu pensamento. Isso convida a desvincular o reconhecimento da santidade da complexa ortodoxia de toda frase particular e de toda convicção. Pode-se ter pensado, escrito e feito coisas que hoje o senso ético comum não compartilha e, no entanto, haver tocado os cumes da unidade da alma com Deus. Isto vale para Simone como para os grandes santos reconhecidos pela Igreja, algumas afirmações dos quais podem hoje soar de forma dissonante e até contraditória com respeito ao atual magistério, e, no entanto, não invalidam o carisma de fundo.

• Mística e política. Muitos leitores de Simone ficam impressionados pela coexistência, até os últimos dias, de experiências místicas e de empenho político. Simone mantém com naturalidade estes dois registros, mostrando a impossibilidade de viver a santidade fora das características específicas da personalidade e das tendências de cada um.

• Atenção à verdade e à santidade. Simone chegou à mística pela via da busca da verdade. Não desenvolveu seu pensamento após o encontro com Deus, com o fim de tornar compreensível a revelação, embora tenha impostado sua vida sobre a atenção à verdade, consagrando a ela todas as suas energias. O Cristo lhe respondeu e se doou a ela. A atenção foi para Simone o caminho que a conduziu diretamente à meta. “Muito lhe é perdoado porque muito amou” é a frase que Jesus pronuncia no Evangelho em defesa da Madalena ante os fariseus e os bem pensantes, frase que se pode aplicar a Simone se o ter amado indica aquele seu bater incessantemente à porta, aquela sua doação sem reservas à qual a Verdade em pessoa respondeu.

• A essência da religião. Para Simone, a religião ou é experiência mística do amor entre Cristo e a alma, ou não é senão aparato, rito, consagração do social. Para o fato de que Deus fala “no segredo” o respeito da consciência às coisas de Deus é coisa sagrada.

• Contradição e loucura. A contradição não é somente o cume ao qual deve chegar uma inteligência honesta consigo mesma, mas também a característica de Deus, onipotente e onisciente, pessoal e impessoal, uno e trino, puro sofrimento e pura alegria. Tais contradições não se podem explicar com a teologia, mas somente contemplar na “loucura do amor” e da mística.

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