Edição 313 | 03 Novembro 2009

Filosofia weiliana: um processo de contemplação

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Gilda Carvalho e Patrícia Fachin | Tradução Lucas Schlupp

Na percepção de Bartomeu Estelrich, professor e pesquisador do Boston College, USA, a filosofia weiliana responde as questões pós-modernas através de conceitos antigos e modernos

A filosofia de Simone Weil é fragmentária e antissistemática, e seu objetivo principal não é teórico, “mas eminentemente para uma mudança de vida”. Isso justifica o fato da filosofia weiliana ser pouco conhecida no Brasil, e considerada confusa, por alguns, e intricada, por outros, assinala Bartomeu Estelrich, na entrevista que segue, concedida, por e-mail, à IHU On-Line. Fascinada pela “profundeza impenetrável” escondida na relação íntima entre microcosmo e macrocosmo e seguindo os ensinamentos de Sócrates, Simone Weil “percebeu, que filosofar não era uma atividade teórico-abstrata, mas um processo de purificação e transformação da alma e, em segundo, que filosofar era um diálogo constante na busca pela verdade, justiça, obediência e o bem”, menciona. 
Segundo Estelrich, Simone Weil considerava o desapego como o primeiro passo para o aperfeiçoamento espiritual. “Ao ser desapegada, a pessoa é capaz de quebrar as correntes que a ligam a desejos e medos terrenos; para transformar a concepção de tempo ‘histórico-linear’ em ‘enterno-circular’; e para ser transformada pela contemplação da beleza da Terra”, frisa.

Estelrich é doutor em Filosofia, pela Universidad Pontifícia Comillas, Madri, Espanha, com a tese El amor en La metafísica de Simone Weil.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Por que a obra de Simone Weil é tão pouco conhecida?

Bartomeu Estelrich - Acredito que há dois motivos principais para a filosofia weiliana ser pouco conhecida. O primeiro é circunstancial. Muitos não conhecem a filosofia de Simone Weil, porque: 1) não tiveram um professor que incluiu a filosofia dela em seu plano de estudos; 2) ou não tiveram sorte suficiente para encontrar qualquer referência sobre ela em outros livros de filosofia; 3) ou (no caso de já conhecerem a filosofia de Weil) não se deram o trabalho de ir a uma livraria, comprar um de seus livros, e lê-lo. O segundo motivo é filosófico. Para alguns leitores, o pensamento de Weil é tido como intricado e até confuso. Em minha opinião, sua filosofia pode ser vista desta forma por três motivos principais: 1) a filosofia weiliana utiliza conceitos filosóficos “antigos” e “modernos” para responder a questões “pós-modernas”; 2) ela é o resultado da combinação de conceitos cristãos, gregos e judeus de uma forma muito pessoal, e, às vezes, incomum; 3) não oferece uma filosofia acabada e sistematicamente organizada, mas, pelo contrário, uma filosofia fragmentária e antissistemática na qual o objetivo principal não é teórico, mas eminentemente para uma mudança de vida.

IHU On-Line - A sua comunicação no Simpósio Internacional “O pensamento de Simone Weil e o encontro entre as culturas”, realizado no Rio de Janeiro, em 2007, teve como título principal “Filosofia como exercício espiritual”. Podemos dizer que para Simone Weil a Filosofia era efetivamente um exercício espiritual?

Bartomeu Estelrich - Acho que sim, se definirmos “exercício espiritual” da mesma forma que Pierre Hadot  o fez, em seu livro Philosophy as a Way of Life. Spiritual Exerceises from Socrates to Foucault (Filosofia como Estilo de Vida. Exercícios Espirituais de Sócrates a Foucault. New York: Blackwell, 1995). Para ele, a filosofia antiga pode ser considerada um exercício espiritual porque envolve uma transformação da visão de mundo e a conversão da personalidade; um processo que coloca de cabeça para baixo a nossa vida, fazendo com que ela seja mais repleta, e melhor. Weil também buscou esse mesmo objetivo em sua filosofia. Para ela, filosofia é um exercício espiritual que procura elevar o indivíduo a um novo nível de vida e uma nova compreensão do mundo; um processo que exige uma conversão radical da forma de ser do indivíduo, convidando-o para entrar em um processo quádruplo: “desapego” do mundo ao derredor, “atenção” ao instante presente, “harmonia” com a imensidão e beleza do universo, e por fim “descriação” do eu [ser].

IHU On-Line - Que conexões podemos estabelecer entre a filosofia de Simone Weil e a Filosofia Antiga?

Bartomeu Estelrich - Seguindo o caminho aberto por Sócrates , Weil percebeu, primeiramente, que filosofar não era uma atividade teórico-abstrata, mas um processo de purificação e transformação da alma e, em segundo, que filosofar era um diálogo constante na busca pela verdade, justiça, obediência e o bem. Ela, assim como os pitagoreanos, era fascinada pela “profundeza impenetrável” que estava escondida por trás da relação íntima entre o microcosmo (seres humanos) e o macrocosmo (o universo). Como eles, ela descobriu que, no centro dessa relação, havia tensão e contradição, mas também uma ordem transcendente (divina). Seguindo-os, ela estabeleceu que para um ser humano ter uma existência harmoniosa, ele deve reproduzir a ordem transcendente do universo em sua alma. Graças a Platão , Weil compreendeu que a filosofia era um treinamento para a morte; um processo de autodescoberta e aniquilação do ego [self]; de aquisição de uma nova visão da realidade, de ser transformado progressivamente pela presença de Deus, e, através de todos estes meios, alcançar a salvação. Seguindo Marco Aurélio  e a tradição estóica, Weil compreendeu que a filosofia era um processo de autodisciplina e busca constante por temperança (sophrosyne), justiça (dikaiosyne), e verdade (aletheia). Finalmente, em um estilo que lembra muito o de Plotino  e a tradição neo-platôncia, ela compreendeu que a filosofia era um processo de contemplação e calma, que implica em abandonar toda atividade interna, representações distintas, obstinação, e bens pessoais, a fim de receber uma invasão mística do divino.

IHU On-Line - E com a tradição espiritual-filosófica cristã?

Bartomeu Estelrich - Há dois aspectos principais que ligam a filosofia de Simone Weil com a tradição cristã: 1) Sua convicção de que Cristo é “o único mediador”, e 2) o processo kenótico-descriacionista para alcançar a salvação. Mas, para vermos como estes dois aspectos são centrais na filosofia de Weil, temos que analisar um pouco de história: Weil ficou vinculada com Cristo através de um encontro pessoal com ele, que a levou a uma entrega total à sua pessoa. Weil, imitando a kenosis [esvaziamento] de Cristo na cruz, esvaziou-se de qualquer tipo de idolatria; ela implorou desesperadamente a Deus para tornar em nada; e ela reproduziu, no seu estilo de vida e morte, o último sacrifício de Cristo. Mesmo que Weil nunca tenha usado o conceito de “kenosis“ em seus escritos, se olharmos com mais atenção a sua filosofia, descobriremos que este conceito é muito parecido com o de descriação. Na teologia cristã, kenosis é o termo usado para descrever o autoesvaziamento da própria vontade, e o processo de tornar-se completamente receptivo às ordens de Deus. Na filosofia weiliana, descriação é o processo de “autoesvaziamento”, “autocancelamento”, e “autossacrifício” que torna uma pessoa totalmente obediente à vontade de Deus. Para Weil, é apenas aceitando este processo kenótico-descriacional que a pessoa é capaz de descobrir o único mediador em Cristo, isto é, “a chave que junta o Criador e a criação”, a ponte que conecta “Deus e nós, de um lado, e do outro, Deus e o universo” (Doutrina Pitagoreana).

IHU On-Line - Em sua Filosofia, Simone Weil delineou quatro estágios do progresso espiritual: desapego, desatenção, harmonia e descriação. O senhor poderia falar um pouco sobre cada um deles?

Bartomeu Estelrich - Para Weil, desapego é o primeiro passo para o aperfeiçoamento espiritual. Pode ser descrito como um esforço humano que acaba com a ligação com objetos e segurança terrenos, e encoraja a pessoa a viver uma vida melhor orientada para a transcendência. Ao ser desapegada, a pessoa é capaz de quebrar as correntes que a ligam a desejos e medos terrenos para transformar a concepção de tempo “histórico-linear” em “enterno-circular”; e para ser transformada pela contemplação da beleza da Terra. Quando o desapego é alcançado, a pessoa está pronta para entrar em um segundo estágio da perfeição espiritual: atenção. Para Weil, a atenção consiste em suspender nosso pensamento, deixando-o distante, vazio, sem buscar qualquer coisa, e pronto para receber aquilo que deve preenchê-lo em sua verdade pura. Pelo exercício da atenção, alguém se livra das preocupações do passado e do futuro, e é capaz de perceber o instante presente em toda a sua intensidade. Quando isso ocorre, a pessoa entra em um terceiro estágio do progresso espiritual: harmonia. Para Weil, a harmonia é um ajuste melódico entre a pessoa e o universo. Uma pessoa alcança esse estado através da contemplação da beleza do mundo e as contradições que compõem a estrutura da realidade. Através dela, a alma é arrastada em direção a presença de Deus, e aprende como obedecer. Quando isto ocorre, o indivíduo atingiu o último estágio da perfeição espiritual: descriação. O conceito de descriação é difícil de definir porque Weil utilizou-o com três diferentes significados: 1) como um processo dialético, 2) como um processo de divinização, e como um 3) estágio final da alma. Como um processo dialético, a descriação é a metodologia através da qual as estruturas do ego são dissolvidas progressivamente permitindo que o sujeito desapareça e não perturbe a harmonia da criação. Como processo de divinização, a descriação é uma metodologia pela qual a alma humana reproduz uma reversão da criação de Deus. Assim, se a criação é, de acordo com Weil, o ato através do qual Deus “renuncia ser tudo”, para um ser humano, descriação é renunciar seu próprio ser. Se a criação é atitude de Deus se esvaziar a si mesmo da sua divindade, descriação é a forma pela qual um ser humano se esvazia da falsa divindade com a qual nasceu. E se a criação é o ato supremo do amor divino pela humanidade, descriação é o ato extremo do amor humano por Deus. E como um estágio final da alma, a descriação é o estágio que uma pessoa alcança no final do seu processo espiritual, no qual ela alcança uma profunda compreensão da realidade; é capaz de penetrar os inúmeros véus que a separam de Deus; e alcança perfeição espiritual.

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