Edição 311 | 19 Outubro 2009

“A complexidade do ser humano permite que a liberdade seja possível”

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Márcia Junges e Graziela Wolfart

Teoria da evolução não pode explicar a vida como se a liberdade humana não existisse, adverte Louis Caruana. Relações humanas com o outro são fundamento para construção da moralidade.

Analisando a teoria da evolução em consonância com a moralidade, o filósofo jesuíta Louis Caruana disse que “a organização de razões que guiam a ação, de modo a atingir um bom nível de autoconsciência, é o maior constituinte da teoria moral”. Segundo ele, a liberdade humana é uma característica preocupante para muitos cientistas. “Eles pensam que tudo poderia ser explicado ou em termos de leis científicas ou em termos de cego acaso. Muitos outros cientistas, no entanto, estão se dando conta que esta visão é demasiado simplista. Eles aceitam que a vontade livre é uma característica óbvia do ser humano e, em certa medida, também de diversos animais não-humanos. A teoria da evolução não pode ser empregada para explicar a vida como se a liberdade humana não existisse”. E arremata: “O fato de que um ser humano individual sempre encontra realização em relação com outros é o bloco construtivo fundamental pelo qual a moralidade poderia ser construída”.

Nascido em Malta e graduado em Filosofia, Caruana lecionou na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma – PUG, e hoje é professor titular de Filosofia no Heythrop College, na Universidade de Londres, Inglaterra. Em 1980, ingressou na Companhia de Jesus, pois tomou consciência de que Deus o chamava “para seguir Jesus de modo muito especial”. É professor adjunto no Observatório Vaticano. Organizou a obra Darwin and Catholicism The Past and Present Dynamics of a Cultural Encounter (Oxford: T & T Clark International, 2009) e escreveu, entre outros, Holism and the Understanding of Science, and of Science and Virtue: An Essay on the Impact of the Scientific Mentality on Moral Character (Aldershot: Ashgate, 2000). Em 12 de setembro, Caruana foi um dos conferencistas do IX Simpósio Internacional IHU: Ecos de Darwin.
 
Confira a entrevista.
 
IHU On-Line - Como filósofo, mas também matemático e físico, de que modo você chegou a interessar-se por Darwin,  em particular?

Louis Caruana - Minha formação anterior em matemática e física deu-me uma profunda apreciação da atitude mental exigida pelas ciências naturais em geral. Por exemplo, as ciências são várias e nem todas as ciências adotam exatamente o mesmo método. Todas elas, em todo o caso, consideram a evidência empírica como o passo fundamental no processo de explanação. Ao estudar filosofia e teologia, eu me dei conta que a biologia tem um papel especial. Enquanto a teoria da evolução é a maior teoria nesta ciência, eu percebi que Charles Darwin necessita uma atenção especial de todos aqueles que estão buscando uma compreensão melhor do mundo e nele, do nosso lugar.
 
IHU On-Line - Poderia dar-nos mais detalhes sobre a origem do comportamento humano, combinando a teoria da evolução com os fundamentos da moralidade?

Louis Caruana - Como eu disse em minha conferência do IX Simpósio Internacional IHU: Ecos de Darwin, o comportamento humano precisa ser cuidadosa e responsavelmente distinguido do mero movimento do corpo. Parece ser melhor falar de um espectro de possibilidades. Numa ponta deste espectro há movimentos do corpo que nos são totalmente inadvertidos, por exemplo, nossa digestão. Na outra ponta do espectro há ações plenamente deliberadas, das quais somos plenamente cônscios e pelas quais temos plena responsabilidade, como quando uma pessoa contrai matrimônio. A deliberação moral é plenamente operante nesta segunda dimensão. Precisamos, em todo o caso, lembrar que entre estes dois extremos há vários níveis de ação pelos quais somos apenas parcialmente responsáveis. O que faz que nos movamos de maneira específica é, pois, parcialmente explicável pelas ciências naturais, pela via das teorias da psicologia e pelas teorias da evolução, e parcialmente se explica recorrendo a razões. A organização de razões que guiam a ação, de modo a atingir um bom nível de autoconsciência, é o maior constituinte da teoria moral.
 
IHU On-Line - Como entender a vontade livre e a teoria da evolução, pensando em termos de ética e alteridade?

Louis Caruana - A liberdade humana é uma característica preocupante para muitos cientistas. Eles pensam que tudo poderia ser explicado ou em termos de leis científicas ou em termos de cego acaso. Muitos outros cientistas, no entanto, estão se dando conta que esta visão é demasiado simplista. Eles aceitam que a vontade livre é uma característica óbvia do ser humano e, em certa medida, também de diversos animais não-humanos. A teoria da evolução não pode ser empregada para explicar a vida como se a liberdade humana não existisse. Precisamos empregar diversas noções emergenciais pelas quais propriedades de nível mais alto começam a existir quando o organismo ganha em complexidade. A complexidade do ser humano permite que a liberdade seja possível. Os seres humanos, por desfrutarem de um grau relativamente alto de liberdade, flutuam livremente, se for o caso, com respeito à seleção natural biológica. Isso não significa que eles estão autorizados a fazer o que querem. Significa que as constrições da vontade livre não provêm de condições materiais, mas de condições racionais. E essas condições racionais estão relacionadas com o fato de os humanos viverem juntos em sociedades. O fato de que um ser humano individual sempre encontra realização em relação com outros é o bloco construtivo fundamental pelo qual a moralidade poderia ser construída.
 
IHU On-Line - Qual é a importância da transdisciplinaridade para garantir o diálogo entre fé e razão? Ou é inapropriado opor estes campos?

Louis Caruana - Os estudos interdisciplinares são muito importantes para o diálogo entre fé e razão. Porque isso é bastante simples. Realmente não podemos evitar ser interdisciplinares. Querendo ou não, tudo o que aprendemos de diferentes fontes chega ao mesmo ponto, a saber, a nós mesmos. Todos nós carregamos a responsabilidade de trabalhar em direção a uma síntese pessoal que faça sentido. Isso é verdade enquanto se refere ao indivíduo, como também enquanto se refere à humanidade como um todo. Toda vez que houver tensão ou contradição entre uma disciplina ou outra, é nosso dever explorar ulteriormente. Caso contrário, corremos o risco de viver com uma mentalidade desintegrada, que é sinal de uma espécie de esquizofrenia coletiva. Estudos relacionados com a pós-modernidade nos recordam igualmente que essa condição está sempre conosco e que, prontamente, soluções fáceis deveriam ser evitadas. O trabalho interdisciplinar não é fácil, mas é necessário.
 
IHU On-Line - Quais são os seus tópicos de pesquisa hoje?

Louis Caruana - Meu principal trabalho é explorar aquelas áreas na filosofia da ciência que não podem ser aplicadas correta e frutiferamente a outras áreas da filosofia, como a filosofia da mente, a filosofia da religião e a ética. A explanação evolucionista é uma área muito significativa em tudo isso, mas muitos pesquisadores parecem esquecer que o trabalho filosófico feito no passado poderia ser muito relevante hoje, principalmente para finalizar uma saudável cosmovisão sintética. Junto com isso, estou agora trabalhando num projeto que conjuga alguns aspectos da visão de Aristóteles  com o pensamento evolucionista.
 
IHU On-Line - Na Europa atual, quais são os aspectos com os quais se envolve a filosofia? Quais são as grandes questões que continuam sem resposta nesta ciência?

Louis Caruana - A filosofia é uma ciência muito ampla. Do meu ponto de vista, digo que as quatro linhas de fronteira agora mais excitantes são: a questão se uma compreensão naturalista do ser humano poderia ou não incluir a inteligência, a vontade e a liberdade como categorias separadas e não elimináveis; a questão sobre como definir o papel da razão agora que reconhecemos a presente condição pós-moderna da sociedade; a questão do correto procedimento para o diálogo intercultural e inter-religioso; e a questão sobre como combinar democracia com um saudável idealismo, de modo que a genuína busca de valores na sociedade não seja negligenciada, mas apoiada.
 
IHU On-Line - Qual é seu “background” familiar, e porque você ingressou na Companhia de Jesus?

Louis Caruana - Eu venho de uma família que costumava viajar. Meus pais nasceram em Malta, trabalharam nos EUA e retornaram a Malta com dois filhos muito jovens, a saber, meu irmão e eu. Cresci em Malta, estudei matemática e física na universidade e fiz um ano de magistério num colégio pré-universitário. Durante esse período, me dei conta, em minhas preces, que a leitura da Bíblia repercutia com algo muito profundo em meu coração. Tomei consciência que Deus me chamava para seguir Jesus de modo muito especial. Após alguma deliberação, ingressei na Companhia de Jesus em 1980 e procurei, desde então, usar todas as habilidades e talentos que o Senhor me deu para o serviço do Reino. Para mim, este chamado tomou principalmente a forma do ensino e da pesquisa, um trabalho que me traz grande consolo, especialmente quando ajudo pessoas jovens a dirigirem seu olhar para o que realmente importa e direcionarem seus corações a fins supremos.
 
IHU On-Line - Quais são hoje os maiores desafios para a Companhia de Jesus em vista do tipo de sociedade que temos no século XXI, individualista e caracteristicamente secular e religiosa ao mesmo tempo?

Louis Caruana - A Companhia de Jesus reconheceu que o maior trabalho que ela é chamada a realizar na Igreja é engajar-se num genuíno diálogo. Isso assume quatro formas diferentes: o diálogo entre fé e cultura, o diálogo entre religiões, o diálogo para promover justiça e o diálogo que comunica a fé cristã de forma cada vez mais atrativa e significativa. No entanto, a Companhia é formada por pessoas que estão longe da perfeição; e eu penso que nossa atitude global não se caracteriza pelo temor do futuro, mas antes por um otimismo fundado em Deus. 
 
Entrevistas:

- Darwin e os fundamentos da moral. Publicada na edição 306 da Revista IHU On-Line, de 31-08-2009.

 

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