Edição 311 | 19 Outubro 2009

Mudanças climáticas exigem novas formas de praticar a agricultura

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Patricia Fachin | Tradução Lucas Schlupp

Para Gerald Nelson, a maneira de tentar conter os prejuízos das mudanças climáticas está associada a limites nas emissões de gases de efeito estufa

Às vésperas de uma viagem para o continente asiático e africano, Gerald Nelson, autor do relatório Mais calor e menos comida, coordenado pelo Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar (IFPRI, sigla em inglês) que alerta sobre a escassez de alimentos no planeta até 2050, concedeu uma breve entrevista à IHU On-Line por e-mail. Segundo ele, as mudanças climáticas poderão tanto favorecer como prejudicar a agricultura, tudo depende da localidade e da intensidade de tais transformações. “Em algumas localidades, as mudanças serão favoráveis à agricultura, mas, na maioria dos lugares, novas formas de praticar a agricultura serão necessárias”, aponta. Ele menciona também que os efeitos das mudanças climáticas serão incertos, mas a África é um país em potencial para sentir os impactos. “Dependendo do modelo climático, a África subsaariana terá mais, ou menos, precipitação. Mas, pelo fato dos países dessa região partirem de um nível de desenvolvimento inferior, acabam sendo menos capazes de se adaptar às mudanças. Os modelos da Ásia Meridional são mais consistentes ao prever efeitos negativos”.

Nelson é esperançoso em relação à conferência do clima que acontece em Copenhague. Para ele, os efeitos da crise podem “reduzir os efeitos iniciais para se estabelecer diretrizes mandatórias para as emissões de gases de efeito estufa”. De qualquer modo, acrescentou, “estou cautelosamente otimista de que ocorrerá um progresso significativo, começando em Copenhague e nas negociações que seguirão após o encontro”.

Nelson é integrante do Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar (IFPRI, na sigla em inglês) e até o ano passado foi docente do Departamento de Economia Agrícola e do Consumidor, da Universidade de Illinois.

Confira a entrevista.
 
IHU On-Line — O senhor é autor do relatório recente que alerta sobre a escassez de alimentos básicos no planeta por volta de 2050. Qual é a vulnerabilidade da agricultura mundial diante das mudanças climáticas? Em que medida isso aumentará os índices de fome no mundo?

Gerald Nelson — A agricultura é extremamente dependente do clima. As plantas necessitam de luz solar, temperaturas que estão na variação correta e água suficiente para crescer e produzir alimento e outros produtos utilizados pelo homem. Mudanças climáticas resultarão em temperaturas mais elevadas, alterações nos padrões de precipitação, e mais inconstância. Todas estas mudanças exigirão novas formas de praticar a agricultura. Em algumas localidades, as mudanças serão favoráveis à agricultura, mas, na maioria dos lugares, novas formas de praticar a agricultura serão necessárias devido às mudanças climáticas.

IHU On-Line — Além da escassez de alimentos, o estudo diz que os efeitos das mudanças climáticas serão mais fortes na África e na Ásia Meridional. Que impactos o estudo vislumbra nessas regiões?

Gerald Nelson — O primeiro ponto importante a salientar é que os efeitos das mudanças climáticas em determinados lugares são incertos. Por exemplo, dependendo do modelo climático, a África subsaariana terá mais, ou menos, precipitação. Mas, pelo fato dos países dessa região partirem de um nível de desenvolvimento inferior, acabam sendo menos capazes de se adaptar às mudanças. Os modelos da Ásia Meridional são mais consistentes ao prever efeitos negativos.

IHU On-Line — Em uma de suas pesquisas, o senhor usa dados como imagens de satélites e outros dados geográficos em modelos econométricos para identificar os determinantes do uso da terra existente. Pode nos falar mais sobre esse projeto? Como essas técnicas também permitem simular as consequências do impacto ambiental?

Gerald Nelson — Imagens de satélite, quando combinadas com determinadas observações no solo, podem fornecer dados melhores, e mais baratos, sobre a possibilidade de estarmos usando os diferentes serviços do ecossistema de forma sustentável. Caso administrados corretamente (o que não ocorre), satélites podem fornecer medidas regulares, repetidas e precisas, que podem ajudar-nos a compreender as várias formas com que fazemos uso do ecossistema, e então alterar a forma de utilização da terra. O principal problema é que os satélites são vistos como ferramentas de pesquisa, e não ferramentas para coleta de dados, e, por isso, são muito caros. Mas novas tecnologias que já demonstraram como lançar satélites de sensoriamento remoto, de forma barata e eficiente, estão disponíveis. O INPE [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] tem papel importante neste trabalho.
 
IHU On-Line — Não se pode mais separar economia da ecologia? Por quê?

Gerald Nelson — Economia é apenas a interação das pessoas com o seu ambiente. Na verdade, nunca foi possível separar economia e ecologia. Mas, nos últimos anos, a combinação de mais pessoas com maior uso daquilo que o ecossistema oferece tornou essas ligações mais óbvias.

IHU On-Line — Os reflexos da crise financeira internacional podem influenciar as decisões em relação às metas de combate às mudanças climáticas em Copenhage?

Gerald Nelson — A crise pode até reduzir os esforços iniciais para se estabelecer diretrizes mandatórias para as emissões de gases de efeito estufa, mas estou cautelosamente otimista de que ocorrerá um progresso significativo, começando em Copenhague e nas negociações que seguirão após o encontro.

IHU On-Line — Em sua opinião, é possível conciliar crescimento econômico com preocupação ambiental? Como isso é possível?

Gerald Nelson — Sob vários aspectos, já associamos a preocupação ambiental com o crescimento econômico. Enquanto os efeitos colaterais negativos de qualquer atividade econômica se tornam aparentes, vamos encontrando formas de lidar com eles. Um clássico exemplo histórico é o tratamento do esgoto. Sistemas modernos de esgoto são uma invenção relativamente recente (diríamos que de 1850) e foram introduzidos quando os custos de não tratar o esgoto tornaram-se muito altos.

IHU On-Line — Qual é sua percepção sobre o mercado global de créditos de carbono e também a criação de impostos diretos sobre as emissões? Essas medidas de fato trarão resultados sustentáveis ou elas poderão desencadear uma nova crise econômica e global?

Gerald Nelson — O mercado de créditos de carbono global está na sua infância e crescerá consideravelmente nos próximos 10 anos. É importante que o princípio de pagamentos de compensação para os países em desenvolvimento seja incluído em um acordo de Copenhague, para que eles se beneficiem do mercado.

IHU On-Line — Além das medidas já anunciadas, que política de combate ao aquecimento global deveria ser traçada em Copenhague?

Gerald Nelson — Limites nas emissões de gases de efeito estufa precisam ser colocados em prática o quanto antes.

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